Mário Centeno acusa o Governo de estar a alimentar um discurso "bastante populista" sobre a imigração e critica diretamente o ministro António Leitão Amaro por recorrer a projeções que considera "falsas" e "redutoras da realidade"
A atualização das estatísticas demográficas trouxe novamente a imigração para o centro do debate, mas Mário Centeno considera que o Governo está a retirar conclusões precipitadas e a alimentar um discurso "populista" sobre o tema. No comentário desta segunda-feira na CNN Portugal, o ex-governador do Banco de Portugal defendeu que Portugal "precisa de muita mão de obra" e criticou o recurso a projeções lineares para justificar alterações na política migratória.
Centeno sustentou que os novos números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística apenas confirmam uma realidade que já era conhecida através de outras fontes, como a Segurança Social e o Banco de Portugal. "Estas centenas de milhares de pessoas trabalhavam, viviam em Portugal. Elas estavam connosco, não descobrimos isso a semana passada", afirmou, defendendo que é necessário aguardar pela revisão completa das estatísticas antes de tirar conclusões sobre indicadores como o PIB por habitante.
O antigo ministro das Finanças criticou, por isso, a forma como o debate político evoluiu após a divulgação dos novos dados populacionais. "Não devemos, não devemos mesmo, não é sério, fazer um debate a meio do processo de atualização estatístico", afirmou, acrescentando que "qualquer frase que seja dita hoje em dia sobre esse agregado, o produto interno bruto por habitante, não está correta".
As críticas tornaram-se mais diretas quando abordou as declarações recentes do ministro da Presidência, António Leitão Amaro, sobre a evolução da população estrangeira residente em Portugal. Para Centeno, alguns membros do Governo têm recorrido a uma narrativa "bastante populista" ao defender um maior controlo dos movimentos migratórios.
"Não gostaria que tivéssemos comentários como aqueles que se viram de alguns governantes numa ideia bastante populista de ter controlo sobre o movimento das pessoas, que é uma coisa bastante retrógrada", afirmou. Centeno comparou mesmo as declarações do ministro a um famoso sketch humorístico britânico: "Fez-me lembrar um sketch dos Monty Python em que me parecia que o senhor ministro estava a concorrer ao 'Ministry of Silly Talks'."
O economista rejeitou igualmente as projeções que apontam para um forte aumento da população estrangeira residente nas próximas décadas, classificando-as como "redutoras da realidade" e "falsas". Recordando também que, caso fosse aplicado o mesmo raciocínio linear à evolução do emprego durante o anterior Governo de Passos Coelho - em que Leitão Amaro foi secretário de Estado - Portugal regressaria "ao nível de emprego de 1954". "É evidente que este exercício é um absurdo e nós devemos elevar um pouco aqui o debate", defendeu.
Para Centeno, Portugal não pode ignorar a necessidade estrutural de trabalhadores estrangeiros, sublinhando também que "as nossas sociedades são sociedades abertas", integradas no mercado único europeu, e que setores como “a agricultura, a construção, a restauração, os serviços e até o sistema financeiro” dependem da entrada de mão de obra. "A única porta que esteve escancarada nestes últimos dez anos foi a porta das empresas", afirmou, defendendo que a procura por trabalhadores partiu sobretudo do tecido empresarial.
O antigo governador do Banco de Portugal alertou ainda para o impacto demográfico de uma eventual redução da imigração. "Portugal vinha a definhar em termos demográficos", defende salientando que, mesmo que ainda não tenhamos revertido o problema da falta de natalidade - muitos dos imigrantes que vêm para Portugal têm já famílias compostas -, "sem este impulso externo, desaparece".
