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Psicólogo e Presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: porque é que a imigração desperta emoções tão fortes e como podemos ter uma discussão mais racional sobre o tema?

23 ago, 10:00
O Psicólogo Responde (Imagem gerada por IA)
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O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

 

A imigração ocupa hoje um lugar central no debate público em Portugal, gerando opiniões frequentemente divergentes. Para uns, pode representar a resposta à escassez de mão de obra, ao envelhecimento populacional e à necessidade de maior diversidade cultural. Para outros, associa-se à pressão sobre a habitação, os serviços públicos, a segurança ou a identidade nacional. Entre a rejeição marcada e a defesa incondicional, o desafio é discutir o fenómeno com dados concretos, sem desumanizar as pessoas nem ignorar os desafios reais colocados pela imigração.

É precisamente esta tensão entre benefícios, receios sociais e experiências concretas que ajuda a explicar por que motivo o debate sobre a imigração tende a tornar-se polarizado. A polarização – entendida como uma divisão crescente do debate em posições opostas e pouco dialogantes, nas quais cada lado tende a ver o outro não apenas como alguém com uma opinião diferente, mas como uma ameaça ou um adversário moral -  torna mais difícil reconhecer nuances, distinguir factos de perceções e construir soluções equilibradas.

O que significa imigração?

A migração é o movimento de pessoas através de uma fronteira ou dentro de um Estado, independentemente da duração, das causas ou do estatuto legal. Do ponto de vista do país de chegada, uma pessoa imigrante é alguém que se desloca de outro país para estabelecer em Portugal o seu local habitual de residência. Esta definição pode abranger pessoas que chegam por razões profissionais, familiares, académicas ou humanitárias, bem como refugiados, requerentes de asilo e pessoas em situação administrativa irregular.

É importante, por isso, não falar de “os imigrantes” como se estivéssemos perante um grupo homogéneo. Há pessoas altamente qualificadas e trabalhadores em setores de baixos salários, estudantes, empresários, crianças, reformados, refugiados e pessoas que chegam sozinhas para posteriormente reunirem a família. As suas experiências, necessidades e contributos são muito diferentes.

A integração pode ser descrita como um processo multidimensional, que envolve o acesso a direitos, educação, saúde, habitação, emprego, participação social, relações interpessoais e sentimento de pertença. Não significa que as pessoas tenham de abandonar a cultura de origem, mas antes que possam participar na sociedade de destino em condições de igualdade, mantendo ou transformando elementos da sua identidade cultural.

Quantas pessoas imigrantes vivem em Portugal?

Ainda que os números variem em função da definição que se utilize, em 2024 cerca de 15% da população residente em Portugal era constituída por imigrantes (AIMA, 2024). Em 2023, aproximadamente 18,5% da população adulta apresentava antecedentes de imigração (INE, 2023). A maioria da população imigrante era proveniente de países não pertencentes à União Europeia. Portugal mantém-se também como um país de emigração: em 2024, cerca de 65 mil portugueses emigraram e estima-se que 1,8 milhões de portugueses residam atualmente no estrangeiro.

Porque surgem emoções tão fortes?

A imigração envolve simultaneamente identidade, pertença, segurança, justiça, economia e expectativas sobre o futuro. Além disso, pode tornar visíveis mudanças rápidas nos bairros, nas escolas, nos locais de trabalho e nos hábitos culturais. É esta combinação de transformação social, incerteza e interesses concretos que ajuda a explicar a intensidade das reações. Mesmo quando não existe uma ameaça objetiva, estas transformações podem ser sentidas como uma perda de familiaridade e de controlo.

Além disso, muitas pessoas podem sobrestimar o peso da imigração na população e ter pouco contacto direto com pessoas imigrantes, o que pode reforçar perceções distorcidas.

Quando existem problemas como falta de habitação, salários baixos ou dificuldades nos serviços públicos, os imigrantes podem tornar-se um alvo fácil para explicar fenómenos que têm causas mais complexas.

Por isso, uma análise rigorosa deve perguntar qual é o problema concreto, qual a sua dimensão, que fatores o explicam e que soluções podem funcionar.

Também é importante evitar ligações automáticas entre imigração e criminalidade. Casos individuais não permitem concluir, por si só, que a imigração aumente o crime. Para avaliar essa relação são necessários dados específicos e contextualizados.

Discursos públicos e redes sociais podem reforçar preconceitos ao apresentar os imigrantes como uma ameaça à identidade, à segurança ou aos recursos nacionais. Mas a defesa da imigração também deve evitar simplificações: uma posição equilibrada reconhece direitos humanos, regras claras, integração, combate à exploração e capacidade real de acolhimento.

Como discutir a imigração de forma mais racional?

Discutir a imigração de forma racional não significa ignorar emoções. Significa reconhecê-las, mas procurar dados, contexto e soluções antes de chegar a qualquer conclusão.

1. Comece por definir o problema

Antes de dizer que há “imigração a mais” ou “imigração a menos”, pergunte: quantas pessoas chegaram, de onde vêm, por que motivos vieram, onde vivem e em que setores trabalham? Só depois faz sentido avaliar a capacidade das escolas, dos centros de saúde, dos municípios, da habitação e das políticas de integração.

2. Separe factos, interpretações e opiniões

Uma afirmação como “há demasiados imigrantes” não é apenas um facto: envolve números, uma avaliação da capacidade de acolhimento e uma opinião sobre a política que o país deve seguir.

É legítimo defender regras mais restritivas ou mais abertas, mas uma opinião política não deve ser apresentada como se fosse um dado indiscutível. Também não se deve usar um caso individual para caracterizar uma população inteira.

3. Compare custos com contributos

A imigração pode pressionar escolas, saúde, habitação, transportes e serviços públicos, sobretudo quando não há planeamento. Mas também pode contribuir para o emprego, a Segurança Social, o consumo, a criação de novas empresas e a sustentabilidade demográfica.

Por exemplo, em 2024, as pessoas imigrantes contribuíram com 3,6 mil milhões de euros para a Segurança Social, valor indicado como cinco vezes superior ao montante recebido em prestações sociais.

Estes dados não eliminam problemas locais nem desigualdades, mas ajudam a evitar uma leitura baseada apenas em episódios negativos.

4. Fale de integração, não apenas de entradas

A pergunta não deve ser apenas “quem entra no país?”, mas também “em que condições vive depois de chegar?”. A integração depende de habitação digna, emprego formal, aprendizagem da língua, reconhecimento de qualificações, acesso à educação e à saúde, participação cívica e proteção contra a discriminação.

Em Portugal, alguns dados (Pordata, 2024) apontam para situações de precariedade entre comunidades migrantes: desemprego superior à média nacional, risco de pobreza ou exclusão social e salários mais baixos.

A resposta deve combinar regras claras com o combate à exploração laboral e à criação de uma força de trabalho vulnerável e descartável.

5. Evite generalizações e procure contacto real

Não transforme exemplos isolados em regra geral. A experiência direta, em escolas, empresas, municípios, associações e serviços públicos, ajuda a substituir perceções abstratas por conhecimento concreto.

Contextos inclusivos favorecem a confiança, a participação e o sentimento de pertença. Já a discriminação e a precariedade aumentam a insegurança, a exclusão e a tensão social.

A questão central não é escolher entre ser “a favor” ou “contra” a imigração. Portugal é simultaneamente um país de imigração e de emigração. O essencial é perceber que políticas migratórias permitem conciliar direitos, regras, capacidade de acolhimento, desenvolvimento económico e coesão social.

A imigração não é uma ameaça inevitável nem uma solução automática. É um fenómeno complexo que exige análise, planeamento e humanidade.

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