"Se os imigrantes fizessem um dia de greve é que se ia ver" a falta que eles fazem na economia nacional

3 out 2025, 07:01
Imigrantes nos EUA (CNN)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Vêm para Portugal colmatar necessidades de mão de obra em setores onde já não há quem trabalhe. Se há imigrantes em Portugal que são nómadas digitais ou a gozar as reformas, a esmagadora maioria que entra no país vem trabalhar para a agricultura, serviços pessoais ou hotelaria. Em sete anos, o número de imigrantes legalizados quadruplicou. E depois há os outros que “já não têm no horizonte socializarem-se, integrarem-se… só mesmo sobreviver”

Nos campos da “horta de Portugal”, a região do Oeste, é altura de colher a batata-doce. A terra, até agora vestida de verde, veste-se de laranja e vermelho. Mal nasce o sol, são dezenas os agricultores que retiram as palhas das batatas e descobrem os tubérculos e que depois os recolhem para grandes caixas de madeira. São, na esmagadora maioria, provenientes do Nepal, da Índia, do Bangladesh ou do Paquistão.

Ao fim do dia, à porta do supermercado mais perto, reúnem-se em pequenos grupos. São quase todos homens. Combinam compras e refeições. Quase nenhum fala português.

O cenário repete-se na região do Alentejo. Os protagonistas têm as mesmas características. O produto que se começa agora a colher é que muda: está a começar a época da colheita da azeitona.

É a “imigração económica a funcionar”, como lhes chamam Catarina Reis Oliveira, professora de sociologia das migrações no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), e Alberto Matos, da Associação Solidariedade Imigrante. “Estamos a falar sobre imigração económica, que é 90% da imigração e que representa hoje já uma massa muito importante da classe trabalhadora nacional”, sublinha Alberto Matos, em declarações telefónicas, numa viagem entre Ourique e Beja. É ele que presta apoio aos imigrantes que vêm trabalhar para Portugal e se fixam na região do Alentejo.

“Estamos a ver um aumento de população imigrante baseada nas exigências económicas”, corrobora a professora de sociologia no ISCSP.

“A distribuição da imigração no país também reflete isso. No Alentejo e no Oeste vêm trabalhar para a agricultura. No Algarve vêm mais para o setor do turismo”, acrescente Cristina Reis Oliveira, sublinhando que, “no município de Odemira, mais de 40% da população é estrangeira”.

A socióloga, antiga coordenadora do Observatório para as Migrações, lembra que “os imigrantes estão a trazer para Portugal efetivos na idade ativa” e acrescenta que “há atividades económicas onde a população imigrante já é 40% ou 50%”. E exemplifica: “Na agricultura, são já 32% dos trabalhadores qualificados e 44% dos trabalhadores não qualificados. No setor dos serviços pessoais, como as entregas de comida ou os serviços de TVDE, são 19%”.

A sustentabilidade da Segurança Social

Dados preliminares da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), divulgados em abril de 2025, estimam que haja cerca de 1,6 milhões de imigrantes em Portugal. Um número que representa um aumento significativo, com o total de cidadãos estrangeiros a aumentar substancialmente nos últimos anos, passando de cerca de 421 mil em 2017 para mais de 1,5 milhões no final de 2024. Em apenas sete anos, o número de imigrantes em Portugal quadruplicou.

A comunidade brasileira continua a ser a maior comunidade imigrante, representando uma parte significativa da população estrangeira. “São 1/3 da população estrangeira residente em Portugal”, contabiliza Catarina Reis Oliveira.

As comunidades de países europeus, como a Ucrânia (por causa da invasão russa), o Reino Unido ou Itália (vêm sobretudo como nómadas digitais ou aproveitar os anos da reforma sob o sol dourado português, tal como acontece com muitos norte-americanos) e Roménia também são expressivas. Além destes, também imigrantes provenientes da Índia, do Paquistão, do Bangladesh ou do Nepal representam um número significativo da entrada de novos habitantes em Portugal.

De acordo com a socióloga, se formos traçar um retrato da população imigrante em Portugal, verificamos que a comunidade proveniente da Índia, por exemplo, é composta 70% por homens e as comunidades provenientes de países da CPLP é maioritariamente feminina. Em todas as origens, a esmagadora maioria trata-se de cidadãos em idade ativa, que vêm para Portugal “fazer os seus descontos”.

“Os imigrantes já dão um saldo líquido brutal à Segurança Social. São eles quem hoje garantem, através do saldo da Segurança Social, o superavit das contas do Estado. Nós estamos a ter superavit nos últimos anos à custa das contribuições da imigração. E o Banco Central Europeu e as instituições europeias já preveem um déficit no próximo ano, o que provavelmente provirá da quebra que, à partida, vão ter as receitas da Segurança Social, devido especialmente ao trabalho ilegal”, diz Alberto Matos.

O responsável da Associação Solidariedade Imigrante considera que a nova legislação, e sobretudo os entraves que vem colocar ao reagrupamento familiar, vai contribuir para um aumento da ilegalidade. A nova lei da imigração foi aprovada na Assembleia da República, na última terça-feira, com os votos favoráveis dos partidos de direita e do JPP, e com os votos contra de PS, Livre, PCP, Bloco e PAN. A nova legislação vem diminuir a esperança de muitos imigrantes de trazerem as suas famílias poara Portugal.

Os especialistas defendem que é um apelo à ilegalidade e abre a porta à exploração. “O primeiro desporto dos patrões que eu aprendi há mais de 20 anos, nesta ligação com a imigração, é fugir ao pagamento da Segurança Social”, sublinha Alberto Matos.

“Num país envelhecido, e somos o segundo país mais envelhecido da Europa, com um aumento significativo de não contributivos, a imigração tem um efeito muito evidente no aumento do saldo da Segurança Social. Entre as prestações que auferem, porque descontam e têm direito a elas, os milhares de euros que injetam na Segurança Social, o saldo é claramente positivo e estas pessoas estão a contribuir para a sustentabilidade da Segurança Social”, acrescenta Catarina Reis Oliveira.

De acordo com os dados da AIMA, apenas nos últimos sete anos, o número de estrangeiros a descontar para a Segurança Social mais que quadruplicou, passando de 244 mil para um milhão.

30 ou 40 na mesma casa e "camas quentes"

Catarina Reis Oliveira e Alberto Matos não têm dúvidas de que “acolhemos cada vez pior os imigrantes”. “Temos de olhar para a imigração não apenas por aquilo que é o olhar do indivíduo, mas também para as políticas migratórias. E temos assistido, nos últimos anos, a um aumento de narrativas racistas, a um ódio que está a ser projetado nos imigrantes, que se baseia muito na desinformação. Porque o racismo acaba sempre por estar associado ao desconhecimento. Por exemplo, se eu, a partir de uma determinada hora do dia, só vejo homens do Indostão, isso dá origem a narrativas de um sentimento de insegurança. Mas, se calhar, se facilitasse o reagrupamento familiar, esses homens estariam em casa com as suas famílias e não reunidos em grupos nas ruas ou a viverem em comunidade e em condições, muitas vezes deploráveis”, considera a socióloga.

“Há situações de 30 ou 40 pessoas a viver numa casa, já para não falar nas camas quentes (camas em que as pessoas dormem por turnos e chegam a dormir três pessoas na mesma cama e que se veem muito em Lisboa). Estas situações só são possíveis em imigrantes, em que estão homens sozinhos… bem, homens ou mulheres… mas sozinhos e sem família. Porque mal têm a família, a primeira preocupação deles é arranjar uma casa, estar com quatro ou cinco pessoas, como é normal numa família, claro. Ninguém se sujeita a estar com as famílias em contentores ou em casas com 30 ou 40 pessoas”, acrescenta Alberto Matos.

Os maiores problemas com que a Associação Solidariedade Imigrante se depara no apoio aos imigrantes são, “desde logo, as condições de trabalho”. “Uma maioria dos proprietários agrícolas não emprega os trabalhadores, nem sequer com contratos a prazo. Alugam-nos a empresas de trabalho temporário, que são mais ou menos legalizadas, ou os chamados prestadores de serviços que desempenham uma tarefa e os donos daquilo nem querem saber quantos imigrantes é que lá estão, nem quantos é que estão legais ou ilegais. E é aí que entram as máfias”, diz Alberto Matos.

“Esses prestadores de serviços são empresas promovidas na hora, que desaparecem num minuto, mudam o número de contribuinte, mudam de morada… aliás, normalmente até dão moradas falsas e, portanto, quando cometem depois algum ilícito, muitas vezes, por exemplo, a ACT e outras autoridades nem os conseguem notificar”, sublinha o responsável da associação de apoio aos imigrantes.

Alberto Matos considera que “o segundo problema é a habitação”. “Casas onde vivem sem condições e onde os proprietários têm uma margem de lucro de 300% a 400%. Porque, por exemplo, numa casa onde estão 20 pessoas ou 30 pessoas a 200 euros cada uma, rapidamente se fazem 6 mil euros”, contabiliza.

Os legais e a "perseguição"

A Associação Solidariedade Imigrante ajuda as “centenas de milhares” de imigrantes que “ainda têm processos de manifestações de interesse a decorrer” a reunir a documentação e a avançar com as tramitações legais.

Mas recebe pedidos de ajuda, “cada vez mais daqueles que ainda não têm documentos, nem têm esperança de os ter”. A esses, a associação encaminha-os para “a emergência social, para a Cáritas, ou para outras instituições”. “Muitos já não têm no horizonte socializarem-se, integrarem-se… só mesmo sobreviver. Em alguns casos, até só querem voltar ao país de origem”, lamenta Alberto Matos.

“Se houver uma redução da imigração, vai haver impacto na economia. Já estamos a ver nesta campanha da azeitona muitos proprietários a queixarem-se de falta de mão de obra. E não é preciso haver greve. Porque, se um dia os imigrantes fizessem um dia de greve, eles iam ver. Há muito descontentamento, mas ainda não chegamos lá”, alerta.

Alberto Matos lembra que a falta de mão de obra “é uma coisa assustadora em todos os fatores”, desde a hotelaria aos serviços e à agricultura.

O responsável da Associação Solidariedade Imigrante fala em “perseguição” aos imigrantes: “Estou a falar por exemplo da zona de Pias, no Alentejo, aqui no concelho de Serpa… as fiscalizações à procura de documentos, mesmo pessoas que têm processos em curso, as detenções, depois acabam por soltar quando apresentam algum documento, mas a pressão está a ser enorme. As pessoas estão a assustar-se e provavelmente muitos vão acabar por se ir embora - ou andam de um lado para o outro e isso vai refletir-se na economia e na demografia”.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

País

Mais País