Bajulado pelos apoiantes do combate à imigração ilegal e severamente criticado pelos alegados abusos de força, Gregory Bovino tornou-se uma "vedeta" nos EUA. Até por causa de um velho casaco
Há um ano, poucos americanos conheciam o nome de Gregory Bovino. Agora, ele é o rosto da repressão à imigração do governo Trump.
Agora, tudo está debaixo de lupa, desde as táticas do comandante da Patrulha de Fronteira em campo até as suas escolhas de guarda-roupa: Bovino tornou-se um foco de controvérsia numa tempestade sem fim à vista.
Nas ruas de várias cidades americanas, Bovino — que usa um corte de cabelo à escovinha e um uniforme verde-azeitona da Patrulha de Fronteira — foi visto a liderar patrulhas, a lançar bombas de gás lacrimogéneo e a discutir verbalmente com vários críticos. Bovino destaca-se frequentemente entre grupos de agentes federais como uma das poucas pessoas que não usa máscara.
Nas redes sociais, ele é conhecido por partilhar fotos e vídeos cinematográficos que promovem a determinação dos agentes da Patrulha de Fronteira em cumprir a sua missão.
E agora, a sua presença no pódio e nos ecrãs de todo o mundo está a tornar-se mais comum, à medida que ele dá entrevistas em Minneapolis.
Foi lá que Bovino se apresentou horas depois de um agente da Patrulha de Fronteira ter disparado e matado um homem naquela cidade norte-americana no sábado, dizendo aos jornalistas que os agentes seguiram o que treinaram quando se depararam com um suspeito armado que "queria causar o máximo de danos e massacrar as forças da lei".
Muitos rapidamente criticaram a declaração de Bovino e de outros funcionários da Segurança Interna, argumentando que os vídeos do tiroteio não mostram nenhuma evidência de que o homem estivesse a tentar ferir alguém.
Mas Bovino reforçou a sua defesa dos agentes no domingo.
"O facto de eles serem altamente treinados impediu qualquer tiroteio específico contra as forças de segurança, então parabéns às nossas forças de segurança por o terem derrubado antes que ele pudesse fazer isso", disse Bovino ao programa "State of the Union" da CNN.
Pressionado a mostrar provas, Bovino garantiu que surgirão mais detalhes à medida que as autoridades investigarem e argumentou que o homem estava a tentar travar os agentes.
"É uma pena que as consequências tivessem de ser pagas porque ele se inseriu naquela cena de crime. Não consigo expressar isto o suficiente. Ele tomou a decisão de ir para lá", disse Bovino.
O relato do funcionário da Patrulha de Fronteira suscitou críticas severas no domingo de manhã por parte do senador democrata Chris Murphy.
"Toda a gente viu aquele vídeo e, mesmo assim, ele disse-lhe a si e ao público americano que aquele jovem estava a brandir uma arma, que estava a impedir os agentes, que estava lá para participar num motim, que estava envolvido em atos de agressão, quando todos podem ver que isso não é verdade", afirmou Murphy à CNN. "O público americano deveria ficar assustado com o facto de o governo Trump mentir tão facilmente, mentir na sua cara quando você pode ver as provas por si mesmo."
Bovino está habituado a críticas quanto à sua abordagem. Durante meses, em entrevistas, depoimentos em tribunal e publicações nas redes sociais, ele defendeu repetidamente as ações dos agentes federais e prometeu não recuar.
Como Bovino descreve as táticas dos seus agentes: "turn and burn"
Em várias publicações nas redes sociais e em entrevistas, Bovino usou repetidamente uma frase para descrever as táticas dos seus agentes.
President Trump and Secretary Noem are getting us some excellent equipment!! Thank you for asking. Our agents are well equipped and very well trained for this mission. Turn and burn time!! Thank you for your support.
— Commander Op At Large CA Gregory K. Bovino (@CMDROpAtLargeCA) January 11, 2026
"Ele chama-as de 'virar e queimar*'", diz a colaboradora da CNN Lulu Garcia-Navarro. "Eles são muito rápidos. São muito agressivos. Partem janelas, entram, agarram pessoas. E a razão pela qual ele diz que usa estas táticas é para não colocar... os agentes em risco, para não permitir que os protestos se desenvolvam."
Os apoiantes da campanha agressiva de deportação em massa do governo vêem Bovino como um herói. Mas a abordagem enérgica e sem remorsos que impulsionou a sua recente ascensão a um lugar proeminente também atraiu críticas ferozes de líderes locais e manifestantes nas cidades que a sua equipa tem como alvo.
Autoridades de várias cidades descrevem Bovino como líder de uma agência de polícia que emprega táticas assustadoramente autoritárias e usadas pelo presidente como um bastão contra comunidades lideradas por democratas e as pessoas — cidadãos e não cidadãos — que vivem nelas.
"Eles querem o caos no terreno", afirmou o governador de Illinois, JB Pritzker, à CNN em outubro, acusando Bovino e outros funcionários federais de inflamar deliberadamente as tensões. "Eles querem criar uma zona de guerra, para que possam enviar ainda mais tropas."
Táticas pesadas, incluindo "varrimentos" de imigrantes em parques de estacionamento e partir janelas de carros, alimentaram o alarme, inclusive entre alguns membros da administração Trump, ao mesmo tempo que receberam elogios de altos funcionários da Segurança Interna.
Questionado sobre a abordagem agressiva que tem suscitado críticas e protestos crescentes, Bovino defendeu os seus agentes.
"Sabe, as pessoas são livres para criticarem. São livres para darem opiniões sem se envolverem. Quando não estão no lugar das autoridades policiais, talvez devessem pensar duas vezes antes de fazer críticas severas".
"Já ouvi muitas vezes isso", disse Bovino à CNN em outubro. "Os nossos agentes agem de forma legal, ética e moral em todas as ações de aplicação da lei."
No domingo, Murphy disse no programa "State of the Union" da CNN que o último tiroteio em Minneapolis deveria levar os legisladores a pressionar de modo a haver reformas no Departamento de Segurança Interna antes de aprovar o seu orçamento.
"Pessoas a serem mortas simplesmente por exercerem os seus direitos da Primeira Emenda vão ser uma característica comum neste país. Isso é distópico. Não devemos permitir isso, e isso deve unir republicanos e democratas no Congresso, porque está a unir cada vez mais republicanos e democratas em todo o país, que estão a se voltar contra essa forma incrivelmente ilegal como Bovino e a sua equipa estão a operar nas nossas cidades", afirmou.
Bovino liderou operações de alto perfil em várias cidades
A presença de Bovino em diferentes cidades do país nos últimos meses tornou-se um barómetro não oficial para a intensidade esperada da fiscalização da imigração.
Atualmente, Bovino é uma presença frequente nas ruas de Minneapolis – trazendo o que ele chama de "Mean Green Team" (o que pode ser traduzido como "Equipa Verde Malvada") a milhares de quilómetros do sector ao longo da fronteira entre os EUA e o México, onde estava estacionado anteriormente.
"A #MeanGreen está a patrulhar Minneapolis no frio, na neve e em todas as condições, prendendo estrangeiros ilegais até que a missão seja cumprida", publicou Bovino na sexta-feira no X. "Estamos aqui e estamos a tornar a cidade segura."
Natural do Estado da Carolina do Norte, Bovino ingressou na Patrulha de Fronteira em 1996. A sua carreira de 30 anos levou-o de Washington a Nova Orleães, bem como a postos no exterior dos EUA, nas Honduras e e em África. Em 2020, foi nomeado agente-chefe de patrulha do Setor El Centro, no sul da Califórnia.
Em 2023, Bovino foi brevemente destituído do seu cargo, numa medida que os republicanos da Câmara dos Representantes descreveram como de retaliação, depois de ele ter testemunhado de forma crítica sobre as condições ao longo da fronteira sob a administração do presidente Joe Biden. A Associated Press noticiou que outros fatores também estiveram em jogo, incluindo a sua presença nas redes sociais e uma foto de perfil online em que ele posava com uma espingarda de assalto.
Bovino começou a chamar a atenção do público no verão passado, quando ajudou a orquestrar a prisão de mais de 5.000 imigrantes numa operação em Los Angeles. Desde então, Bovino, que está na casa dos 50 anos, liderou operações em Chicago, Charlotte, Nova Orleans e, agora, Minneapolis.
A conduta de Bovino durante a operação em Chicago atraiu severas repreensões de um juiz federal, que decidiu que as suas descrições dos eventos não eram corroboradas por provas em vídeo.
Num vídeo, citado num processo judicial federal que alegava uso excessivo da força contra manifestantes em Chicago, o juiz decidiu que Bovino "obviamente derruba" um manifestante diante das câmaras. Mas, no seu depoimento, Bovino negou ter derrubado o homem. "Estou a implorar(-lhe)... que saia da área para cumprir as instruções", disse Bovino, acrescentando: "o uso da força foi contra mim".
Um alvo recente das críticas a Bovino: o seu casaco
Ultimamente, outro aspeto da imagem de Bovino está também a chamar a atenção: o longo casaco verde que ele às vezes usa.
“Greg Bovino vestiu-se como se tivesse literalmente entrado no eBay e comprado uma roupa das SS. Greg Bovino, polícia secreta, exército privado, homens mascarados, pessoas desaparecendo literalmente, sem devido processo legal”, disse recentemente o governador da Califórnia, Gavin Newsom, fazendo uma comparação com os uniformes nazis.
Bovino diz que tem o casaco há mais de 25 anos e que o recebeu da Patrulha de Fronteira.
"Comprei-o quando era um jovem agente, aproximadamente em 1999", disse à News Nation, observando que também foi fotografado a usá-lo numa cerimónia durante o governo Biden.
Essa entrevista, escreveu Bovino nas redes sociais, "esclareceu quaisquer equívocos e destacou o fenómeno do duplo padrão".
Aconteça o que acontecer a seguir, não há dúvida de que veremos mais vezes Bovino — e o seu casaco — nas ruas dos Estados Unidos.
Vídeos bem produzidos e outras publicações nas redes sociais das contas de Bovino também têm sido alvo de críticas. O responsável afirma que as publicações têm como objetivo aumentar a transparência.
"Isto não é motivado por uma agenda. As nossas redes sociais são concebidas para dar ao público... um retrato em tempo real do que realmente está a acontecer", disse Bovino à CNN em outubro.
Entre as suas publicações recentes, Bovino partilhou um vídeo da sua resposta durante uma conferência de imprensa a um repórter que perguntou quando terminaria a onda de intervenções das forças federais em Minneapolis.
"Existe um número específico de pessoas que pretende prender antes de decidir diminuir a presença?", perguntou o repórter.
"Existe um número", disse Bovino, "e é chamado: todos eles".
The Green Team 💚 💚 wants all of them. https://t.co/2K6GDNDS97
— Commander Op At Large CA Gregory K. Bovino (@CMDROpAtLargeCA) January 22, 2026
Priscilla Alvarez, Michael Williams, Dianne Gallagher e Zoe Sottile, da CNN, contribuíram para este artigo.
Foto no topo: o comandante da Patrulha de Fronteira dos EUA, Gregory Bovino, confronta manifestantes do lado de fora de um centro de processamento de imigrantes em 27 de setembro de 2025, em Broadview, Illinois. Scott Olson/Getty Images
* N.T.: "Virar e queimar" é a tradução de "Turn and Burn", expressão idiomática usada nos Estados Unidos, tipicamente em contextos militares, que significa agir depressa para concluir uma tarefa, de modo a maximizar a eficiência, velocidade e a agressividade, semelhante a "despachar o assunto". A expressão também é usada em em áreas como a restauração, para por exemplo apressar o fecho de um turno para deixar tudo pronto para o turno seguinte. Mais informações aqui, aqui ou aqui.