Um arquipélago perdido no oceano e com metade do tamanho de Lisboa é a nova razão para os EUA anexarem a Gronelândia

CNN , Christian Edwards
20 jan, 16:51
Ilhas Chagos (AP)

Tudo por causa daquilo que o presidente dos Estados Unidos entende ter sido um ato de "GRANDE ESTUPIDEZ" do Reino Unido

Donald Trump acusou o Reino Unido de “estupidez” por causa do seu projeto de ceder a posse das ilhas Chagos, incluindo a base aérea americana de Diego Garcia, às Maurícias.

"Chocantemente, o nosso ‘brilhante’ aliado da NATO, o Reino Unido, está atualmente a planear ceder a ilha de Diego Garcia... SEM QUALQUER RAZÃO. Não há dúvida de que a China e a Rússia se aperceberam deste ato de total fraqueza", escreveu Trump na manhã desta terça-feira no Truth Social.

“O Reino Unido ceder terras extremamente importantes é um ato de GRANDE ESTUPIDEZ”, acrescentou, citando a medida como outra razão para Washington assumir o controlo da Gronelândia.

A nova oposição do presidente dos EUA ao plano das Ilhas Chagos reacendeu um aceso debate no Reino Unido e surge apesar de, no ano passado, ter elogiado o acordo como um “feito monumental”.

O que são as Ilhas Chagos?

As ilhas formam um arquipélago no centro do Oceano Índico, a mais de 1.500 quilómetros a nordeste da Maurícia e com pouco mais de 50 quilómetros quadrados (sensivelmente metade de Lisboa). O Reino Unido tomou posse das ilhas juntamente com a Maurícia em 1814, ao abrigo do Tratado de Paris, após a derrota de Napoleão.

Em 1965, um acordo da Guerra Fria entre os EUA e o Reino Unido separou as Ilhas Chagos da Maurícia, mantendo o controlo do arquipélago e renomeando-o como Território Britânico do Oceano Índico. Ao longo do tempo, muitos chagossianos foram retirados da ilha para criar espaço para uma base militar, tendo a maioria sido reinstalada na Maurícia. Embora a Maurícia tenha conquistado a independência em 1968, as Ilhas Chagos continuam sob controlo britânico.

Por que é que os Estados Unidos têm uma base militar neste país?

Na esperança de afastar a influência militar soviética na região, os EUA e o Reino Unido construíram uma importante base em Diego Garcia em 1971. Um dos mais importantes - e secretos - recursos ultramarinos dos Estados Unidos, Diego Garcia ajudou a lançar duas invasões do Iraque, serviu de ponto de aterragem vital para bombardeiros que realizam missões em toda a Ásia e tem estado ligado aos esforços de entrega de detidos dos EUA.

Por que razão está o Reino Unido a renunciar ao controlo das ilhas?

Há décadas que as Maurícias reivindicam a soberania sobre as ilhas e têm levado o caso aos tribunais internacionais. Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça - o mais alto tribunal das Nações Unidas - decidiu que o Reino Unido deve devolver as Ilhas Chagos às Maurícias “o mais rapidamente possível”. Na sua decisão, o tribunal disse que a mudança permitiria às Maurícias “completar a descolonização do seu território de uma forma consistente com o direito dos povos à autodeterminação”.

Embora a decisão não seja vinculativa, o Reino Unido tem enfrentado uma pressão internacional crescente para desistir do controlo das ilhas. Os sucessivos governos britânicos - tanto conservadores como trabalhistas - argumentaram que se tratava de um teste ao empenhamento do Reino Unido no direito internacional.

O Reino Unido e os Estados Unidos continuarão a ter acesso às ilhas?

Apenas a Diego Garcia. Nos termos de um tratado aprovado e assinado pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer e pelo seu homólogo mauriciano em maio de 2025, o Reino Unido transferirá a soberania de todas as ilhas Chagos para as Maurícias.

No entanto, o Reino Unido pagará às Maurícias 101 milhões de libras esterlinas (cerca de 115 milhões de euros) por ano por um aluguer de 99 anos da base militar de Diego Garcia, o que significa que o Reino Unido e os Estados Unidos poderão continuar a utilizar as instalações.

Na altura, o Departamento de Estado norte-americano afirmou que Washington “saudava” o acordo entre o Reino Unido e as Maurícias.

“Na sequência de uma análise abrangente entre agências, a administração Trump determinou que este acordo assegura a operação estável e eficaz a longo prazo” em Diego Garcia, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, num comunicado, acrescentando que Trump “expressou o seu apoio a este feito monumental” durante uma reunião com Starmer.

Poderá o acordo ser rescindido?

Apesar de o tratado ter sido fortemente escrutinado por ambas as câmaras do parlamento britânico e estar a aproximar-se da aprovação final, a súbita oposição de Trump ao acordo levou os políticos da direita britânica a renovar as suas críticas.

“Os americanos acordaram para o facto de que lhes mentiram”, disse Nigel Farage, o líder do partido populista Reform UK, já esta terça-feira. "Disseram-lhes que o Reino Unido não tinha outra opção senão entregar as ilhas Chagos. Isso simplesmente não era verdade e agora estão zangados connosco".

Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador, na oposição, foi mais longe do que Trump, dizendo: “Pagar para entregar as Ilhas Chagos não é apenas um ato de estupidez, mas de completa auto-sabotagem.”

Não é claro, no entanto, se a oposição de Trump ou a indignação entre os partidos da oposição vão impedir o acordo, uma vez que os trabalhistas têm uma maioria dominante no Parlamento.

Porque é que Trump apelidou a decisão de estúpida?

Contradizendo os seus elogios anteriores, Trump disse que a decisão seria vista pela China e pela Rússia como um “ato de total fraqueza”.

“Estas são potências internacionais que só reconhecem a FORÇA, e é por isso que os Estados Unidos da América, sob a minha liderança, são agora, após apenas um ano, respeitados como nunca antes”, afirmou.

O que é que os chagossianos querem?

As negociações entre os governos britânico e mauriciano decorreram sem o envolvimento dos chagossianos. Estima-se que a população mundial de chagossianos seja de cerca de 10 mil pessoas, muitas das quais vivem no Reino Unido, na Maurícia e nas Seicheles.

Uma sondagem realizada pela Whitestone Insight junto de mais de 3.600 inquiridos revelou que a comunidade chagossiana global apoiava “esmagadoramente” a permanência no Reino Unido e opunha-se à transferência de soberania para as Maurícias.

O que é que a Gronelândia tem a ver com isto?

À primeira vista, não muito. Trump afirmou que o facto de o Reino Unido ter renunciado ao controlo das ilhas Chagos é “mais uma de uma longa série de razões de segurança nacional que justificam a aquisição da Gronelândia”, sem entrar em pormenores.

Trump já apresentou várias razões pelas quais considera que Washington deve apoderar-se da Gronelândia. Na segunda-feira, o presidente associou a sua esperança de adquirir a Gronelândia ao facto de não ter ganho o Prémio Nobel da Paz, dizendo que isso significava que já não se sentia obrigado “a pensar puramente na paz”.

Em muitos aspectos, a oposição de Trump ao acordo de Starmer representa um choque de visões do mundo. Enquanto Starmer argumenta que o Reino Unido tem a obrigação legal de ceder as Ilhas Chagos às Maurícias, Trump deixou claro que não reconhece tais restrições.

Questionado na semana passada pelo The New York Times sobre o que pode pôr em causa o seu poder na cena mundial, Trump disse: "Há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que me pode parar". E acrescentou: “Não preciso do direito internacional”.

Rob Picheta, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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