Congressista que chegou aos EUA como refugiada atacada em Minneapolis

CNN , Eric Bradner e Annie Grayer
28 jan, 13:04

Responsável pelo ataque, que já foi identificado e acusado, tem um historial de partilha de publicações políticas nas redes sociais

A representante do Minnesota, Ilhan Omar, ignorou os apelos da sua equipa para terminar mais cedo um encontro público e receber assistência médica, esta terça-feira, depois de um homem ter corrido em direção ao palco e borrifado uma substância contra a congressista Democrata.

Omar, que não sofreu ferimentos no ataque, afirmou após o final do evento que já "sobreviveu à guerra" e que vai "definitivamente sobreviver à intimidação e ao que quer que estas pessoas achem que me podem atirar, porque sou feita dessa fibra". A congressista chegou aos Estados Unidos como refugiada, após fugir da guerra civil na Somália.

O homem acusado de atacar Omar foi identificado como Anthony J. Kazmierczak, de 55 anos, confirmou um porta-voz do Departamento de Polícia de Minneapolis à CNN.

Anthony James Kazmierczak, de 55 anos, enfrenta uma acusação de agressão de terceiro grau. (Gabinete do xerife do condado de Hennepin)

Kazmierczak foi acusado de agressão de terceiro grau e detido na cadeia do condado de Hennepin, indicam os registos de detenção. Os registos judiciais do Minnesota não listam, até ao momento, informações sobre a acusação formal ou o advogado de defesa de Kazmierczak.

Não ficou imediatamente claro qual foi a substância utilizada. Peritos forenses da cidade deslocaram-se ao local para processar a cena do crime, refere um relatório policial citado pela KARE, estação afiliada da CNN.

Kazmierczak tem um historial de partilha de publicações políticas nas redes sociais e, em 2021, partilhou um cartoon político que criticava a posição de Omar sobre as despesas de segurança, no meio de apelos para cortar o financiamento à polícia.

A polícia do Capitólio dos EUA declarou, em comunicado, que o incidente de terça-feira constitui "uma decisão inaceitável que será recebida com justiça célere", acrescentando que está a trabalhar "para garantir que este homem enfrenta as acusações mais graves possíveis".

Num comunicado separado divulgado terça-feira, a Polícia do Capitólio revelou que, no ano passado, "investigou 14.938 declarações, comportamentos e comunicações preocupantes dirigidas a membros do Congresso, às suas famílias, aos seus funcionários e ao Complexo do Capitólio". Este número representa um aumento de quase 58% em relação a 2024.

Homem dispara substância desconhecida

O momento dramático marcou uma aparição pública de grande visibilidade para uma legisladora progressista que tem sido alvo de ataques e escrutínio por parte dos Republicanos, numa altura em que a administração do presidente Donald Trump centra as suas atenções em Minneapolis, a cidade que Omar representa.

Omar condenou as táticas "aterrorizadoras" e as ações "imprudentes e ilegais" dos agentes federais de imigração, dizendo aos presentes que a repressão migratória da administração Trump nas "Twin Cities" (região de Minneapolis e Saint Paul) é a antítese da "América que amamos".

A congressista apelou também à abolição do Serviço de Imigração e Controlo de Alfândegas (ICE) e defendeu que a Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, devia demitir-se ou ser alvo de um processo de destituição (impeachment). Elogiou ainda a forma como Minneapolis respondeu à presença dos agentes de imigração e às mortes de Renee Good e Alex Pretti.

"Os habitantes do Minnesota estão a apoiar-se mutuamente de formas que as pessoas não esperavam. Estamos a mostrar ao país e ao mundo o que é a verdadeira solidariedade. E devíamos ter um orgulho danado em nós mesmos", sublinhou.

Na noite de terça-feira, Trump descartou as perguntas da ABC News sobre se tinha visto o vídeo do ataque a Omar, afirmando não ter interesse em ver as imagens.

Questionado sobre se tinha visualizado o vídeo do ataque, Trump respondeu: "Não. Não penso nela. Acho que ela é uma fraude. Realmente não penso nisso. Conhecendo-a, provavelmente foi ela que pediu para ser aspergida", relatou a ABC News.

Pressionado novamente sobre se veria o vídeo, Trump disse: "Não o vi. Não, não. Espero não ter de me dar a esse trabalho".

O governador democrata do Minnesota, Tim Walz, reagiu ao ataque numa publicação na rede social X, escrevendo: "O nosso estado foi abalado pela violência política no último ano. A retórica cruel, inflamatória e desumanizante dos líderes da nossa nação tem de acabar imediatamente".

Alguns legisladores republicanos condenaram também a violência política logo após o ataque, com o representante Mike Lawler a classificar o incidente como "inaceitável" e o representante Mark Alford a condenar a agressão "nos termos mais fortes possíveis".

A congressista Nancy Mace disse estar "profundamente perturbada" com o incidente, acrescentando: "Independentemente da veemência com que discordo da retórica dela — e discordo — nenhum eleito deve enfrentar ataques físicos. Isto não é quem nós somos".

Omar enfrenta investigações do Partido Republicano

Alvo de longa data dos Republicanos, Omar é agora objeto de investigações por parte do Departamento de Justiça de Trump e do Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes, depois de tanto Trump como o presidente do comité, o congressista do Kentucky James Comer, terem dito esta semana que estavam a investigar as suas finanças.

Omar, de 43 anos, é uma refugiada nascida na Somália cuja família imigrou para os Estados Unidos quando ela tinha 12 anos. Foi eleita pela primeira vez para a legislatura estadual em 2016 e tornou-se uma das primeiras mulheres muçulmanas americanas eleitas para o Congresso em 2018, altura em que conquistou um lugar na Câmara representando grande parte da cidade de Minneapolis, maioritariamente democrata.

A congressista tem sido um alvo frequente de ataques políticos e, por vezes, de difamações racistas por parte dos Republicanos. Enfrentou também críticas de alguns Democratas que apontam o dedo às suas declarações sobre Israel — particularmente em 2021, quando pareceu equiparar "atrocidades" dos Estados Unidos e de Israel às do Hamas e dos Talibãs, ao pedir numa publicação nas redes sociais "o mesmo nível de responsabilização e justiça para todas as vítimas de crimes contra a humanidade".

Em 2023, a Câmara dos Representantes, controlada pelos Republicanos, votou a favor da remoção de Omar da Comissão de Negócios Estrangeiros. Em 2025, uma tentativa de censurar Omar e removê-la de duas comissões devido aos seus comentários sobre o comentador político conservador e ativista Charlie Kirk, na sequência do assassinato deste, falhou por apenas um voto, depois de quatro republicanos se terem juntado a todos os democratas na rejeição da iniciativa.

Trump afirmou repetidamente que Omar deveria sofrer impeachment, ser presa ou deportada para a Somália — apesar de ela se ter tornado cidadã norte-americana em 2000.

No encontro público, Omar referiu que traz o passaporte consigo a toda a hora.

"Eu sei que as pessoas falam de mim e da Somália. Não conheço nenhum lar da forma como conheço este lar", disse, referindo-se aos Estados Unidos. "E por isso sinto uma forte empatia pelos imigrantes que encontram um lar nos Estados Unidos."

Omar acrescentou que outros imigrantes estão traumatizados pela repressão à imigração levada a cabo pela administração Trump.

As finanças pessoais de Omar foram alvo de escrutínio depois de a sua declaração financeira, entregue no ano passado, ter mostrado que o seu marido possui participações numa empresa de capital de risco e numa adega, avaliadas entre 6 milhões e 30 milhões de dólares.

O New York Times noticiou na segunda-feira que, em 2024, durante a presidência de Joe Biden, o Departamento de Justiça abriu uma investigação às finanças de Omar, às despesas da sua campanha e à sua interação com um cidadão estrangeiro, mas que o inquérito estagnou devido à falta de provas.

Trump afirmou na segunda-feira que o Departamento de Justiça está a investigar Omar, alegando numa publicação na rede Truth Social que a congressista "saiu da Somália com NADA e vale agora, segundo consta, mais de 44 milhões de dólares". Não ficou claro em que base Trump se apoiou para citar esse valor.

Entretanto, o Comité de Supervisão da Câmara iniciou uma investigação às finanças de Omar e do seu marido, como parte de um inquérito mais vasto do painel sobre alegações de fraude no Minnesota, adiantou à CNN uma fonte familiarizada com o processo. Os Republicanos no Capitólio estão a investigar se as finanças do marido estão ligadas às alegações de fraude em centros de acolhimento de crianças geridos por somalis naquele estado.

Normalmente, é o Comité de Ética da Câmara que investiga os membros do Congresso, mas como o negócio está em nome do marido, James Comer, presidente do Comité de Supervisão, afirmou que pode incluí-lo nos trabalhos do seu comité. Comer garantiu que Omar e o marido terão direito ao devido processo legal.

"O povo americano questiona como é que a representante Omar e o seu cônjuge acumularam milhões de dólares em riqueza num espaço de tempo tão curto. O Comité de Supervisão da Câmara vai analisar este assunto para garantir transparência ao povo americano", declarou Comer em comunicado.

O painel ainda não contactou Omar ou o seu cônjuge, acrescentou a fonte. A CNN contactou o gabinete de Omar e o Comité de Ética para obter comentários.

Omar não abordou diretamente o escrutínio das suas finanças no encontro de terça-feira à noite.

Na rede social X, Omar respondeu aos comentários de Trump: "Desculpa, Trump, o teu apoio está a colapsar e tu estás em pânico".

"Como seria de esperar, estás a desviar a atenção dos teus fracassos com mentiras e teorias da conspiração sobre mim. Anos de 'investigações' não encontraram nada", escreveu a congressista. "Tirem os vossos capangas do Minnesota."

E.U.A.

Mais E.U.A.