Trump diz que é "fácil" tomar a ilha de Kharg. Militares discordam: é "extremamente perigoso", número de soldados dos EUA mortos vai "ser muito grande"

30 mar, 17:56
Kharg

Presidente dos EUA ameaçou esta segunda-feira tomar o controlo do petróleo do Irão e afirmou que seria "fácil" capturar a ilha de Kharg, um pequeno ponto no Golfo Pérsico que sustenta 90% das exportações de petróleo do Irão

A possibilidade de uma operação norte-americana para tomar a ilha de Kharg, principal centro de exportação de petróleo do Irão, voltou a ganhar força esta segunda-feira. Trata-se de um ponto crítico para os iranianos, com 90% do crude do país a passar por esta infraestrutura, tornando-a uma verdadeira tábua de salvação económica para Teerão.

Por mar, terra ou ar, várias são as alternativas que a administração Trump tem ao seu dispor para chegar a Kharg e, assim, pressionar ainda mais Teerão a ceder e reabrir o Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.

Do ponto de vista militar, uma operação desta natureza dificilmente dependerá de um único vetor, segundo os especialistas ouvidos pela CNN Portugal. A combinação entre meios aéreos, navais e até de subsuperfície surge como o cenário mais plausível.

“Os vetores de subsuperfície combinados com vetores aéreos são uma possibilidade (…) para criar uma entrada e permitir que as tropas a seguir reforcem essa mesma tomada”, explica o tenente-general Rafael Martins. Ainda assim, avisa, trata-se de “uma operação extremamente exigente e muito perigosa”.

A via aérea, apesar de rápida, apresenta limitações críticas. “Largar paraquedistas na ilha de Kharg é muito arriscado, porque os iranianos têm capacidade de deteção e, facilmente, conseguiriam perceber a presença de aeronaves norte-americanas”, aponta, alertando para o elevado grau de exposição das tropas ainda antes de chegarem ao solo, numa altura em que os EUA têm a caminho do Médio Oriente cerca de mil paraquedistas.

Também o major-general Jorge Saramago considera que esta poderá ser a menos favorável em cima da mesa. “O lançamento com paraquedistas nesta ilha é muito pouco provável que venha a acontecer, ainda que seja uma hipótese. (…) As baixas seriam muito grandes.” Na sua leitura, a opção mais viável será outra. “Penso que a melhor alternativa será pela via naval.”

Mas se esta possibilidade pode ser, aparentemente, mais benéfica para os EUA, o desembarque anfíbio está longe de ser simples. Antes de qualquer tentativa de ocupação, seria necessário neutralizar as defesas iranianas. “Os americanos vão ter de atacar primeiramente todas as defesas que existam na ilha com bombardeamentos de precisão”, indica o major-general, descrevendo uma fase inicial intensa de ataques aéreos e com mísseis para “derreter” a capacidade defensiva iraniana.

Só depois disso, prossegue, seria possível avançar para a criação de uma “cabeça de ponte”, ou seja, uma posição inicial em território inimigo que permita a chegada de reforços. “O objetivo não é apenas conquistar esse espaço, mas criar condições para que forças mais pesadas possam desembarcar com outra tranquilidade.”

Ainda assim, mesmo esse cenário está longe de garantir sucesso rápido, algo que Donald Trump deseja desde o início do conflito. “Enquanto as forças não desembarcarem, estarão a ser atingidas pelos iranianos com fogo”, antecipa Jorge Saramago, sublinhando o papel dos obstáculos e das defesas no terreno.

“Só depois, quando as forças chegarem finalmente à praia, é que se organizam e realizam manobras de ataque terrestre, com o objetivo de assaltarem as posições terrestres ocupadas pelos iranianos para, de seguida, matá-los e ocuparem as posições de combate”, detalha o major-general.

Imagem mostra as principais instalações militares na ilha de Kharg. CNN Portugal

Operação poderá provocar "bastantes baixas"

Se há ponto de consenso entre os especialistas ouvidos pela CNN Portugal é o risco elevado de baixas, caso os EUA queiram, de facto, avançar para Kharg. “Este tipo de operações deverá provocar, seguramente, fatalidades de um lado e de outro”, avisa Rafael Martins.

Mesmo com tecnologia avançada e uso de drones ou sistemas não tripulados para reduzir riscos, a realidade no terreno tende a ser imprevisível. “Há aqui um grau de incerteza considerável”, sublinha o tenente-general.

Uma ideia reforçada também por Jorge Saramago. “Se [os EUA] lançarem uma operação desta natureza, as baixas vão ser muito grandes (…). Ainda assim, Donald Trump pode entender que esse é um custo a pagar para impor a sua vontade na região.”

Além disso, a própria natureza da ilha agrava as dificuldades. Infraestruturas energéticas altamente inflamáveis aumentam o risco de destruição maciça. “Estamos a falar de uma ilha que está repleta de infraestruturas energéticas que pegam fogo”, alerta o major-general, apontando para consequências que podem ir muito além do campo militar.

“Depois da tomada inicial, as forças norte-americanas terão de consolidar posições no terreno, protegendo-se e entrincheirando-se, até porque é expectável uma resposta imediata do Irão sobre a própria ilha. Trata-se, por isso, de uma manobra particularmente perigosa”, afirma, sublinhando que “é natural que o Irão dispare em seguida sobre a ilha”, caracterizada por ser “altamente inflamável”.

Mas nem tudo é mau nesta via. Para Rafael Martins há ainda margem para abordagens menos convencionais e potencialmente decisivas no plano operacional, referindo que os norte-americanos têm “outra possibilidade, que pode até surpreender”, sobre o tipo de meios e tecnologia que poderão vir a utilizar “para reduzir baixas no terreno”.

Nesse contexto, aponta para o recurso a sistemas capazes de forçar o adversário a ativar e expor as suas defesas aéreas, “à semelhança do que já tem sido feito tanto por Israel como pelo Irão”. A lógica, porém, seria diferente: “Não apenas desgastar o inimigo, mas criar condições para uma vantagem estratégica mais ampla.”

Porquê a ilha de Kharg?

Localização da Ilha de Kharg. Mapbox, CNN

Situada a cerca de oito quilómetros da costa iraniana, a ilha de Kharg tem 20 quilómetros quadrados e é considerada o verdadeiro “epicentro” do abastecimento petrolífero do Irão.

A sua importância estratégica resulta também das características físicas: os longos quebra-mares avançam sobre águas suficientemente profundas para receber superpetroleiros, transformando-a num ponto-chave para a exportação de crude.

Mas este papel não é recente. Um documento desclassificado da CIA, datado de 1984 e citado pela CNN internacional, já sublinhava que as infraestruturas da ilha eram “as mais vitais do sistema petrolífero iraniano”, acrescentando que o seu funcionamento contínuo é essencial para a estabilidade económica do país.

A capacidade de armazenamento da ilha ronda os 30 milhões de barris e, de acordo com a empresa de análise Kpler, cerca de 18 milhões de barris encontram-se atualmente ali armazenados, segundo dados citados pela Reuters.

A centralidade de Kharg no sistema energético iraniano explica também o seu valor estratégico em cenário de conflito. No início deste mês, o líder da oposição israelita, Yair Lapid, defendeu que a destruição do terminal “paralisaria a economia do Irão e derrubaria o regime”, acrescentando que Israel “deve destruir todos os campos de petróleo e a indústria energética do Irão na ilha de Kharg”.

Irão pronto para proteger Kharg

Todos estes fatores tornam a ilha absolutamente vital para o futuro do Irão. Por isso, a resposta iraniana não só é previsível como já está no terreno e com um nível de preparação que pode transformar qualquer tentativa de tomada da ilha numa operação de elevado risco.

Nas últimas semanas, e como noticiou a CNN internacional, Teerão intensificou de forma significativa o dispositivo defensivo em Kharg, com o reforço de tropas, instalação de sistemas de defesa aérea e colocação de armadilhas no terreno. Também as zonas costeiras, particularmente vulneráveis a um eventual desembarque anfíbio, estão agora densamente minadas.

O tenente-general Rafael Martins descreve um cenário de preparação meticulosa. “Os iranianos já estão a fortalecer a ilha com vários tipos de defesas”, observa, explicando que “estão a colocar tropas, minas antipessoais e minas anticarro” ao longo da ilha, numa clara tentativa de “dificultar ao máximo qualquer tentativa de entrada”.

A avaliação é corroborada por informações recolhidas pelos serviços militares norte-americanos, que indicam que o Irão tem vindo a montar uma defesa em profundidade. Para além das minas e dos efetivos no terreno, foram destacados sistemas adicionais de defesa aérea, incluindo mísseis portáteis terra-ar (MANPADS), capazes de atingir aeronaves a baixa altitude, precisamente aquelas que seriam utilizadas numa operação de inserção rápida.

Já esta segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, assumiu que quer tomar o controlo do petróleo do Irão e afirmou que seria "fácil" capturar a Ilha de Kharg, um pequeno ponto no Golfo Pérsico que sustenta 90% das exportações de petróleo do Irão.

“Para ser honesto, a minha coisa favorita é tomar o petróleo do Irão, mas algumas pessoas estúpidas nos EUA questionam: ‘porque é que estão a fazer isso?’ Mas são pessoas estúpidas”, desvalorizou o presidente norte-americano, em entrevista ao Financial Times.

Médio Oriente

Mais Médio Oriente