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Kharg, a "Ilha Proibida" que pode decidir o rumo da guerra no Irão e do petróleo

CNN , Helen Regan e Laura Sharman
16 mar, 13:11
Vista geral do terminal petrolífero do porto da Ilha de Kharg, a 25 quilómetros da costa iraniana no Golfo Pérsico e a 483 quilómetros a noroeste do Estreito de Ormuz, no Irão, em 12 de março de 2017. Fatemeh Bahrami/Anadolu Agency/Getty Images

Pequeno ponto no Golfo Pérsico sustenta 90% das exportações de petróleo do Irão e é vital não só para a economia de Teerão como para o preço do petróleo

Durante as primeiras duas semanas da mais recente guerra no Médio Oriente, enquanto ataques dos Estados Unidos e de Israel atingiam instalações militares e energéticas em todo o Irão, um local permaneceu visivelmente intacto.

Apesar da sua dimensão reduzida, a Ilha de Kharg é uma autêntica tábua de salvação económica para o país, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do Irão — o que significa que qualquer ataque direto poderia provocar uma grande escalada do conflito.

Na sexta-feira, porém, os Estados Unidos atingiram instalações militares na ilha. Locais ligados ao comércio de petróleo não foram atingidos, segundo responsáveis norte-americanos e meios de comunicação estatais iranianos. Ainda assim, Donald Trump ameaçou atacar também essas infraestruturas caso o Irão continue a bloquear os navios que atravessam o Estreito de Ormuz.

Eis o que é preciso saber sobre este ponto crucial do sistema de exportação de petróleo do Irão.

Porque é que a ilha é tão importante?

A Ilha de Kharg é um afloramento de coral com cerca de um terço do tamanho de Manhattan, situada a apenas 25 quilómetros da costa iraniana, no Golfo Pérsico.

Quase todos os dias, milhões de barris de petróleo bruto provenientes dos principais campos petrolíferos do Irão — incluindo Ahvaz, Marun e Gachsaran — chegam à ilha através de oleodutos. Entre os iranianos, Kharg é conhecida como a “Ilha Proibida”, devido ao forte controlo militar.

Os seus longos cais, que se estendem para águas suficientemente profundas para receber superpetroleiros, fazem da ilha um ponto crítico para a distribuição de petróleo. Ali é processado 90% do crude exportado pelo Irão.

A ilha tem sido há muito tempo fundamental para a economia do país. Um documento da CIA de 1984 descreve as instalações como “as mais vitais do sistema petrolífero iraniano, sendo a sua operação contínua essencial para o bem-estar económico do Irão”.

Mais recentemente, o líder da oposição israelita, Yair Lapid, afirmou que destruir o terminal “paralisaria a economia do Irão e derrubaria o regime”.

Segundo a Reuters, o Irão fornece cerca de 4,5% do petróleo mundial, produzindo diariamente 3,3 milhões de barris de crude e 1,3 milhões de barris de condensados e outros líquidos.

Imagem de satélite mostra a Ilha de Kharg, no Irão, a 11 de março, antes dos ataques norte-americanos. (Airbus)

E a ilha tem carregado petroleiros “sem parar desde o início da guerra”, de acordo com o site TankerTrackers.com, que utiliza imagens de satélite, fotografias costeiras e dados de navegação para acompanhar envios de petróleo.

Nas semanas que antecederam os ataques dos EUA e de Israel ao Irão, as exportações a partir de Kharg foram aumentadas para níveis próximos de recordes, indicou o banco de investimento norte-americano JP Morgan numa nota citada pela Reuters.

A capacidade de armazenamento da ilha é estimada em cerca de 30 milhões de barris. De acordo com a empresa de análise comercial Kpler, cerca de 18 milhões de barris de crude estão atualmente armazenados ali, segundo a Reuters.

O que aconteceu em Kharg?

Trump anunciou na sexta-feira que os militares norte-americanos realizaram o que classificou como “um dos bombardeamentos mais poderosos da história do Médio Oriente”, destruindo ativos militares na Ilha de Kharg.

Um vídeo publicado na rede Truth Social por Trump — e posteriormente geolocalizado pela CNN — mostra ataques norte-americanos às instalações do aeroporto e à pista da ilha.

Um responsável militar dos EUA disse à CNN que os ataques foram “em grande escala”, mas evitaram atingir a infraestrutura petrolífera da ilha. Entre os alvos estavam instalações de armazenamento de minas navais, bunkers de mísseis e outras estruturas militares, acrescentou.

Um vídeo publicado pelo presidente Trump na Truth Social na noite de sexta-feira e geolocalizado pela CNN mostra ataques dos EUA na ilha de Kharg, no Irão. (Truth Social)

O Irão afirmou que mais de 15 explosões foram registadas na ilha, mas que nenhuma infraestrutura petrolífera foi danificada, segundo a agência de notícias Fars, ligada ao Estado.

Trump, no entanto, ameaçou atacar os ativos petrolíferos da ilha caso o Irão continue a bloquear navios no Estreito de Ormuz.

Que impacto teriam na guerra e no preço do petróleo os ataques a Kharg?

O Irão afirmou que qualquer ataque à sua infraestrutura petrolífera e energética levará a ataques de retaliação contra instalações na região pertencentes a empresas petrolíferas de países aliados dos Estados Unidos, segundo os meios de comunicação estatais iranianos, citando o comando militar em Teerão.

Os ataques norte-americanos aumentaram a tensão no conflito, diz à CNN um oficial militar reformado.

“Passámos simplesmente de ‘eliminar os militares e o regime’ para tentar atingir a força vital económica deste país, potencialmente”, afirma Mark Kimmitt, antigo general de brigada do Exército dos EUA.

Kimmitt acrescenta que os Estados Unidos estão a manter a ilha “como refém” para garantir que o Irão permite a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz — cujo bloqueio já fez disparar os preços do petróleo.

Se a infraestrutura petrolífera da ilha for atingida, acrescenta, “é claro que o Irão vai atacar o resto das infraestruturas no Médio Oriente”.

“E nesse momento os preços do petróleo simplesmente ficarão fora de controlo”, conclui.

Se as instalações petrolíferas de Kharg fossem destruídas, o Irão poderia demorar meses ou até mais de um ano a reconstruí-las, diz à CNN Muyu Xu, analista sénior de petróleo da Kpler.

Xu acrescenta que a China, principal compradora do petróleo iraniano, seria provavelmente o país mais afetado.

“O Irão ainda enfrenta sanções ocidentais, não consegue garantir financiamento suficiente, nem tecnologia e especialização adequadas. Seria difícil reconstruir”, antecipa.

O que pode acontecer a seguir?

Analistas dizem que o Irão poderá escalar ainda mais o conflito, cumprindo a ameaça de atacar infraestruturas petrolíferas em toda a região.

Teerão já atingiu depósitos de petróleo em Omã e no Bahrein, aliados dos Estados Unidos, e também atacou petroleiros e navios de carga no Golfo Pérsico.

O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica também ameaçou incendiar a infraestrutura de petróleo e gás da região caso as instalações energéticas iranianas sejam atacadas.

Os ataques em Kharg ocorreram ao mesmo tempo que os Estados Unidos anunciaram o envio para o Médio Oriente de uma unidade de resposta rápida com cerca de 2.500 fuzileiros navais e marinheiros.

Mark Kimmitt levantou ainda a possibilidade de essa força ocupar a Ilha de Kharg.

Ainda não é claro qual será a missão dessa unidade expedicionária nem onde será destacada exatamente. Tradicionalmente, estas forças são usadas em operações como evacuações em grande escala ou operações anfíbias, que envolvem deslocações entre navios e terra, incluindo ataques e assaltos militares.

Especialistas também afirmam que tentar capturar ou atacar a Ilha de Kharg exigiria um número significativo de tropas terrestres — algo que, até agora, a administração Trump tem evitado mobilizar.

*Kit Maher, Natasha Bertrand, Jeremy Diamond, Alayna Treene, Ross Adkin e Isaac Yee contribuíram para este artigo

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