Núcleo de Prevenção da Violência Doméstica e Violência de Género da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género diz à CNN Portugal que se trata de "um número muito relevante" e que está a tentar que outras grandes empresas do Pacto conta a Violência se juntem à multinacional sueca
"Bem-vindo à IKEA. Se é vítima de violência doméstica ou conhece alguém que seja, prima a tecla 8 e a chamada será reencaminhada para o Serviço Nacional de Informação a Vítimas de Violência Doméstica onde falará com um profissional especializado por casas mais seguras". A gravação automática surge quando se liga para o apoio ao cliente da loja sueca em Portugal, depois de escolher se quer falar com um colaborador sobre as gamas e artigos ou para tirar dúvidas sobre entregas.
A opção surgiu a 8 de março de 2023, ao abrigo da campanha “Recomeços”, lançada no âmbito do Dia Internacional da Mulher e em parceria com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. Fonte da empresa explica à CNN Portugal que, "desta forma, ao ligar, a chamada fica registada como sendo para a IKEA", garantindo que "os acessos são anónimos e confidenciais, pelo que a IKEA não tem qualquer registo das pessoas que pedem o reencaminhamento da chamada".
“No espaço de um ano, entre março de 2023 e fevereiro de 2024, a Linha de Apoio ao Cliente da IKEA reencaminhou mais de 160 chamadas para a Linha Nacional de Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica. As vítimas ou testemunhas de violência podem pedir ajuda através da Linha de Apoio ao Cliente da IKEA (+351 21 989 99 45), selecionando a opção 8, que as redireciona automaticamente para o Serviço Nacional de Informação a Vítimas de Violência Doméstica. Aqui, é garantido o atendimento por uma equipa técnica especializada", esclarece a mesma fonte.
Aquando do lançamento da linha, Cláudia Domingues, diretora de comunicação da IKEA Portugal, disse que "a luta contra a violência doméstica" é um tema que a empresa tem "apoiado ativamente ao longo dos anos" e que, para além da opção na linha de apoio, a marca ia lançar ainda um fundo de apoio à autonomização, no valor de 12.000 euros, destinado às mulheres que estão temporariamente acolhidas em Casas de Abrigo da Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica.
"Acreditamos que uma vida melhor começa em casa e que esta tem de ser, antes de mais, um lugar seguro. Este ano, decidimos manter o foco no recomeço: estas mulheres, muitas vezes com os filhos, têm o direito a recomeçar as suas vidas, de forma segura e confortável. Conseguir apoiar pessoas nestas situações complexas, numa nova casa, que simboliza esperança, segurança e recomeço, deixa-nos muito orgulhosos", acrescentou a responsável.
Fonte da IKEA diz também à CNN Portugal que, "infelizmente, os dados continuam a mostrar-nos que ainda não é possível que todas as pessoas se sintam seguras e confortáveis em casa" e que a empresa "quer ter um papel ativo no combate a este flagelo".
"É essencial permitir a estas pessoas que reconstruam a sua vida, e a casa é uma parte essencial deste processo, pelo que a IKEA e a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género mantêm a sua parceria, não só na disponibilização desta linha, mas também no Apoio à autonomização de pessoas que estão em Casas Abrigo, mas que se encontram em condições de segurança para recomeçar as suas vidas, numa nova casa", sublinha a mesma fonte.
Uma parceria "muito mais ampla do que a linha"
Marta Silva, coordenadora do Núcleo de Prevenção da Violência Doméstica e Violência de Género da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), explica à CNN Portugal que "a parceria da CIG com a IKEA é muito mais ampla do que a linha".
"O IKEA é uma das entidades aderentes ao Pacto contra a Violência, que no fundo é um convite a todas as empresas a trazerem os seus serviços e os seus produtos para a luta nacional contra a violência doméstica. A IKEA tem connosco várias dimensões de apoio: essa linha telefónica, um apoio ao arrendamento por parte das mulheres que estão acolhidas em casas abrigo, uma linha de apoio financeiro, pecuniário, ao pagamento de rendas e cauções", revela.
A linha telefónica, explica Marta Silva, "foi criada no âmbito da linha de apoio ao cliente deles, em que uma das opções desde março de 2023 passou a ser a possibilidade da pessoa - quando se perceciona como vítima de violência doméstica - clicar na tecla 8, e a partir daí a IKEA desliga e essa chamada é reencaminhada para o Serviço de Informação a Vítimas de Violência Doméstica, onde há uma equipa de especialistas. Obviamente, a IKEA não tem competências para esta matéria".
Sobre o número de pessoas que recorreram a esta linha de apoio e acabaram reencaminhadas, a coordenadora da CIG diz que "é um número muito relevante", sublinhando que a ideia da criação da linha "foi da IKEA".
"São 160 pessoas que, se calhar, ligaram para a IKEA, seguramente por outra razão qualquer. Para saber da cozinha, ou para saber de qualquer coisa, ou da entrega de um móvel, e foram confrontadas com esta possibilidade, fizeram este reencaminhamento. Acho que isso é uma coisa interessante. Confesso-lhe, esta linha foi uma ideia da IKEA, ou seja, nunca nos tinha ocorrido que uma empresa desta magnitude pudesse ter, no seu apoio ao cliente, esta opção", assume, acrescentando que a CIG "gostou tanto da ideia" que está a tentar que outras grandes empresas do Pacto conta a Violência se juntem.
Sem revelar nomes, Marta Silva adianta que "neste momento, três grandes grupos empresariais" estão a estudar a possibilidade de, "numa primeira fase, criar uma linha interna para os trabalhadores e trabalhadoras que pedirem apoio e depois, avaliando, fazer exatamente o que a IKEA tem, que é uma opção no serviço de apoio ao cliente, que encaminha para uma equipa especializada".
Mas, confessa, o objetivo da CIG é "que esta boa prática da IKEA passasse para estas grandes empresas, que têm grandes serviços de apoio ao cliente, que recebem milhares de chamadas por dia".
Com a disponibilização desta ferramenta, as vítimas ou testemunhas de violência podem pedir ajuda através da Linha de Apoio ao Cliente da IKEA +351 21 989 99 45. As outras alternativas são através de SMS 3060 ou para o 800 202 148.
De acordo com os dados divulgados pela CIG, nos primeiros três meses do ano houve 6.879 queixas de violência doméstica reportadas à PSP e à GNR e 794 pessoas – entre 442 mulheres, 331 crianças e 21 homens – deram entrada numa casa de abrigo ou num acolhimento de emergência.
No primeiro trimestre foram ainda registados nove homicídios em contexto de violência doméstica: oito mulheres e um homem.