Após um dispendioso passo em falso na década de 1990, a IKEA acredita ter finalmente descoberto a fórmula mágica para os móveis insuflável, com o lançamento de uma poltrona insuflável
Foram três décadas de frustração, em que não se concretizou o sonho da IKEA de criar móveis insufláveis. Agora, a gigante sueca de mobiliário desmontável acredita que sua antiga obsessão está finalmente a tornar-se realidade.
Lançada em maio, a “poltrona PS 2026” é um assento leve, ecológico, com estrutura em aço, que pesa menos do que um micro-ondas e pode ser montado com uma bomba de pé. Esta faceta prática não comprometeu, contudo, o conforto, insiste o designer Mikael Axelsson, que se propôs a melhorar o aconchego dos enchimentos de espuma convencionais.
“Queria fazer móveis a sério, esse era o objetivo”, diz Axelsson à CNN.
“O ar é algo gratuito e que está disponível para todos. Por isso, há algo de poético nesta abordagem. Ainda assim, não podemos reduzi-lo ao ponto de o tornar desconfortável”.
Desde os anos 1990 que os móveis insufláveis representam um desafio desconfortável para a IKEA - já para não falar do custo elevado.
A retalhista acreditava ter apostado com sucesso na série a.i.r – Air is a Resource, que se traduz como Ar é um Recurso -, que lançou com grande alarido no verão de 1997. Foi investido muito dinheiro no desenvolvimento de uma cadeira e de um sofá feitos de plástico poliolefínico totalmente reciclável, que podiam ser insuflados com um secador de cabelo, com a expectativa de poupanças futuras devido à drástica redução dos custos de transporte e dos materiais.
À medida que as vendas começavam, começavam também as devoluções. Ao encher os móveis, muitos clientes acabaram por se esquecer de usar o secador de cabelo no modo frio. Com o ar quente a ocupar mais espaço, os móveis começaram a murchar rapidamente à medida que o ar arrefecia. Uma válvula com fugas agravou a tendência de deformação dos produtos, adquirindo um aspeto disforme e desajeitado, comparada por alguns funcionários a um “grupo de hipopótamos inchados”.
Era tão leve que deslizava pelo chão da loja. Já a sua textura plástica fazia deste móvel um íman para a humidade e para o pó. Além disso, também não ajudavam os barulhos ouvidos quando alguém se sentava nele, a lembrar gases intestinais humanos. Em 2013, o conceito a.i.r. foi definitivamente abandonado.
Até que, um ano depois, Axelsson entrou na sede operacional da empresa em Älmhult, na Suécia, para apresentar uma proposta de cadeira insuflável – estava há menos de 12 meses no cargo. Foi recebido com olhares de reprovação dos colegas, muitos dos quais tinham assistido ao primeiro fiasco com a cadeira insuflável. A proposta acabou rejeitada.
Contudo, esse obstáculo não abalou totalmente a crença de Axelsson nos móveis insufláveis. Afinal de contas, o museu da empresa possuía toda uma exposição dedicada às ideias que falharam – não numa abordagem de aviso, mas antes como um exemplo a seguir.
“Mostramos as coisas que não funcionaram tão bem porque é algo muito importante na IKEA”, diz Axelsson.
“Não importa se falhamos. Na verdade, é bom falhar, porque mostra que tentámos algo novo”.
Decifrar o enigma
Apesar de algum ceticismo, Axelsson acabou por receber finalmente luz verde em 2023 — mas, sem sombra de dúvida, o maior desafio ainda estava para chegar.
Um meticuloso processo de desenvolvimento levou o designer a soldar manualmente as estruturas de 20 protótipos. As primeiras versões, que faziam lembrar uma almofada demasiado grande, eram tão desconfortáveis que a produção quase foi interrompida antes mesmo de começar, recorda Axelsson, comparando a sensação a estar sentado numa bola de exercício.
Controlar o movimento do ar debaixo da pessoa sentada, permitindo que o ângulo do assento mude drasticamente consoante a postura, é o aspeto mais crítico e complexo dos móveis insufláveis. Sem saber o que fazer, Axelsson “decifrou o enigma” quando, por capricho, visitou um stand de automóveis nas proximidades e pediu emprestado um pneu de trator.
Ao sentar-se nele, veio-lhe a inspiração para criar duas câmaras de ar ajustáveis e independentes, suportadas por uma estrutura tubular cromada, que permite a flexibilidade da almofada de ar. Tanto o encosto como o assento são ajustáveis, demorando cinco minutos e dois minutos e meio, respetivamente, para atingir a firmeza desejada pelo utilizador.
Com um peso de apenas 8 quilos, a cadeira é leve o suficiente para ser transportada com uma mão, mas robusta o suficiente para se manter firme no chão. Há uma camada de fibra na almofada que também neutraliza as falhas do seu antecessor, evitando humidade ou ruídos indesejados.
Para os testes foram necessários 50 mil ciclos no meticuloso laboratório da IKEA em Älmhult - e, o mais importante de tudo, seis meses na casa da família Axelsson.
Foi ali que a cadeira foi posta à prova pelos saltos dos filhos pequenos do designer. Isto acabou por levar a versões mais robustas, que ajudavam a evitar que os membros deslizassem entre a almofada e os tubos. Tudo culminou numa versão final que, para grande orgulho de Axelsson, deixou alguns colegas sem perceber que se tratava de uma peça insuflável. O segredo só foi revelado quando o inventor lhes pediu que se levantassem e a erguessem a cadeira acima da cabeça.
As avaliações positivas têm chegado até de públicos inesperados. A cadeira resistiu aos desafios impostos por vários gatos, incluindo o próprio animal de estimação de Axelsson, Linus, de 16 anos. A resistência do móvel às garras dos animais fez com que fosse considerado uma dádiva para os donos de gatos — para grande perplexidade do designer.
“Não é o uso pretendido, mas tornou-se o principal: pode resistir a gatos. Espero que não se torne um problema”, reage Axelsson, acrescentando que não teve de voltar a encher nenhuma cadeira durante o teste levado a cabo em casa.
“Estragaria, eventualmente, com um gato muito agitado, mas para um gato comum funcionou bem”.
Desenhar a democracia
Apresentada em primeira mão na Semana do Design de Milão, em abril, a cadeira foi colocada à venda por 129 euros no mês seguinte, integrando a 10ª coleção PS da IKEA, lançada pela primeira vez em 1995, num esforço para promover o “design democrático”.
Embora a coleção deste ano, composta por 44 peças, se concentre no tema da "funcionalidade lúdica", com outros produtos, incluindo um banco de baloiço e um candeeiro flexível, Axelsson acredita que a sua criação está “em perfeita sintonia” com o princípio original de tornar acessível o design escandinavo.
Como a cadeira exige menos embalagem e tem um peso mais baixo do que os tradicionais móveis de espuma de poliuretano, o designer acredita que os insufláveis podem oferecer uma alternativa mais ecológica, embora ainda haja trabalho a desenvolver. A cadeira utiliza um material termoplástico que, embora tecnicamente reciclável, costuma requerer um processo industrial especializado para poder ser reutilizado.
“Há um equilíbrio em tudo. A procura de substitutos para a espuma é aquilo que nos interessa, é algo que continuamos a melhorar, identificando materiais alternativos que possamos utilizar nos nossos projetos no futuro”, posiciona.
A IKEA não foi a única marca a apostar nos insufláveis em Milão: a marca suíça de mobiliário USM, a fabricante de automóveis checa Škoda e a marca italiana de moda de luxo Moncler também apresentaram chamativas instalações insufláveis no evento. Por sua vez, o designer londrino Jabez Bartlett revelou uma mesa de centro insuflável em PVC.
“Acho que a tendência dos insufláveis se encaixa nesta vibração infantil e alegre”, definiu Cajsa Carlson, editora adjunta da revista de arquitetura e design Dezeen, no podcast Dezeen Weekly.
“Os designers estão constantemente à procura de formas de substituir a espuma, que, infelizmente, é incrivelmente eficaz quando se tenta criar algo confortável. Penso que um sofá insuflável é uma resposta completamente diferente e uma abordagem interessante”.
Para Axelsson, o futuro é luminoso.
"Ter um pacote o mais compacto possível, com o menor impacto climático possível", diz. "Acho que é possível fazer muito, muito mais".
