Abusos na Igreja: dos 336 depoimentos validados, apenas 17 seguiram para o Ministério Público. Todos sobre padres ainda no ativo

30 jun, 08:33

REVISTA DE IMPRENSA. Em entrevista ao jornal Público o coordenador da comissão independente revela que houve mais 10 depoimentos do que no último mês, existindo um aumento dos relatos sobre crimes que aconteceram no exterior da Igreja, como grupo de escuteiros, visitas a casa, grupos de jovens ou escolas públicas

"A lista é grande, muitos mais do que tínhamos ideia". A declaração é de Pedro Strecht, pedopsiquiatra e coordenador da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja (CIEAMI), que revelou que dos 336 depoimentos já validados - mais 10 denúncias do que no último mês -, 17 foram encaminhados para o Ministério Público. Todos eles são referentes a padres ainda no ativo.

Em entrevista ao jornal Público, o responsável adianta que, esta quinta-feira, a CIEAMI fará novo balanço, após seis meses de trabalho. Passado meio ano, Pedro Strecht realça que "houve uma resposta enorme logo no começo, que tem vindo a estabilizar e a diminuir". "Há também pequenos picos que se seguem a uma maior divulgação da comissão na comunicação social", explica o coordenador, evidenciando que "depois disso parece que as pessoas esquecem".

Strecht assegura que, à medida que vai tendo conhecimento, a Comissão vai enviando os casos "quer para a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) quer para o Ministério Público". Dos 17 casos que já estão na Justiça, todos são padres no ativo, mas o pedopsiquiatra não tem conhecimento de que algum tenha pedido para ser afastado de funções, "até porque, enquanto abusadores, é muito raro as pessoas considerarem ou admitirem que praticaram determinado tipo de crime".

"No geral, as pessoas não admitem", garante Pedro Strecht, pedopsiquiatra e coordenador da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja.

Pedro Strecht não esconde que a "lista é grande", garantindo que os depoimentos sobre padres ainda no ativo são "muitos mais do que tínhamos ideia". A isto, acresce ainda que apenas cerca de 20 a 25% dos casos chegam a ser conhecidos: "Fazendo essa conta, chegaria perto dos 1500, e esse é um número mínimo", atira o responsável.

"Não queremos agora dar um número seguro, que já temos, até porque ainda vão chegar mais testemunhos e porque há também muita coisa que ainda temos em estudo dentro dos vários critérios. Mas sim, esse será, repito, um número mínimo [1500]", revela.

"A realidade das pessoas que ousaram falar"

O pedopsiquiatra lembra que "falar das situações de abuso, na maior parte dos casos, muitos anos depois, confronta as pessoas com uma realidade da qual elas próprias fugiram durante muito tempo". "Ir ao encontro dessa ferida e reabrir esse processo é algo muito doloroso para as pessoas e é claro que haverá quem prefira nunca tocar nisto pela primeira vez e não voltar a tocar", Strecht justifica que este é um motivos para "esta estabilização do número de pessoas que nos contacta".

"O que eu acho que vai acontecer no final é que este vai ser um estudo que reflete a realidade das pessoas que ousaram falar". Pedro Strecht explica que a maioria dos adultos que relatou casos de abuso está "entre os 40 e 60 anos" e realça que "hoje em dia os mais novos conseguem ter uma leitura mais alerta sobre o seu corpo, dos limites da própria sexualidade".

O coordenador da CIEAMI revela ainda um novo dado, ainda não confirmado, mas que tem sido cada vez mais recorrente nos testemunhos à medida que o tempo vai passando: "casos referenciados de abusos em estruturas físicas correspondente à própria Igreja e espaço envolvente (a sacristia, a casa do padre, os confessionários, os seminários, etc.)". 

"É a pessoa que está no grupo de escuteiros, é a pessoa que também visita a casa, é a pessoa que tem um grupo de jovens e vai a casa dos casais adultos e onde estão também as crianças, escolas públicas", Strecht lembra que os abusadores não são exclusivamente padres e que com o passar do tempo está a surgir maior número de denúncias sobre crimes na envolvente da Igreja.

Pedro Strecht confessa estar preocupado com a metodologia escolhida pelo Ministério Público - dar autonomia aos procuradores dos vários departamentos -, entendendo que "se houvesse uma certa centralização a articulação era mais fácil e direta".

Ainda não existe uma distribuição por décadas, mas o coordenador perspetiva que à medida que o tempo avance irão haver menos casos reportados. "Se assim for, diria que ainda bem", culmina o responsável, justificando que "significa que há coisas que começaram a funcionar".

DENÚNCIAS E TESTEMUNHOS DOS ABUSOS (QUE TENHAM SIDO COMETIDOS DESDE 1950) PODEM CHEGAR À COMISSÃO ATRAVÉS DO PREENCHIMENTO DE UM INQUÉRITO ONLINE, ATRAVÉS DO NÚMERO DE TELEMÓVEL +351917110000 (DIARIAMENTE ENTRE AS 10H E AS 20H), POR CORREIO ELECTRÓNICO (GERAL@DARVOZAOSILENCIO.ORG) E POR CARTA (PARA “COMISSÃO INDEPENDENTE”, APARTADO 012079, EC PICOAS 1061-011 LISBOA).

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