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Faz sentido ser idoso em Portugal aos 65 anos?

20 jul 2024, 22:00
Idosos (DR: Pexels/Mathias Zomer)
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Em Portugal a Esperança Média de Vida é de 19,75 anos aos 65 anos, o que significa que se espera que um português que atinja aquela idade viva, em média, 84,75 anos. Por outro lado, um trabalhador só deixa de o ser com mais de 67 anos

No Mónaco um idoso não tem 65 anos ou mais, tem 74 anos ou mais. No Afeganistão um idoso não tem 65 anos ou mais, tem menos de 40 anos - já explicamos esta parte aparentemente confusa. A pergunta é: o que é, afinal, um idoso? A resposta não é fácil e quem estuda o tema muitas vezes nem gosta do termo, mas tem uma certeza. Um idoso em Portugal não pode ser catalogado da mesma forma que um idoso na Síria. Um idoso em Lisboa nem sequer pode ser catalogado da mesma forma que um idoso em Pampilhosa da Serra, os dois concelhos com mais e menos índice de escolaridade em Portugal, respetivamente, de acordo com os Censos de 2021.

É que a escolaridade, aponta Maria João Valente Rosa, é o fator crucial naquilo que define a Esperança Média de Vida (EMV), a idade que é esperado que vivamos quando nascemos, mas que pode e vai ser influenciada por uma série de fatores, incluindo a instrução que recebemos ao longo da vida. À CNN Portugal, a doutorada em Sociologia admite que, apesar de esses dados não existirem, a EMV não é igual para todos os portugueses.

"Pessoas com mais rendimentos têm, habitualmente, uma EMV superior, porque têm maior facilidade de acessos aos serviços de saúde", explica a especialista, sublinhando que isso leva a atividades mais seguras e menos arriscadas, naquilo que é um "efeito de bola de neve".

A análise à EMV por NUTS III (Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos) em Portugal também mostra uma correlação. Cávado, Ave e Leiria são as únicas três cujo valor era superior a 81,5 anos, de acordo com o último relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), publicado em setembro de 2023. As primeiras duas zonas fazem parte do Minho, pertencente à região Norte, que é a que mais riqueza gera no país.

Em sentido contrário, Alentejo, Algarve e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira representam uma menor riqueza, totalizando pouco mais de 15% do PIB quando todas juntas, segundo o INE. Confirmando uma tendência associada, Algarve, Alentejo Litoral, Alto Alentejo, Região Autónoma da Madeira, Baixo Alentejo e Região Autónoma dos Açores são as únicas NUTS III cujo valor da EMV está abaixo dos 80 anos.

"Percebe-se que há uma diferença significativa. A escolaridade pode proteger a nossa vida. Se estudarmos mais ganhamos em anos de vida, ou por termos mais escolaridade pertencemos a grupos mais defendidos do ponto de vista de saúde. O facto de chegar mais longe é porque também já há um benefício de uma série de condições", vinca Maria João Valente Rosa, lembrando que uma família que proporcione uma melhor educação e tenha mais condições também vai ajudar a que determinada pessoa possa ter uma melhor educação e um caminho mais aberto para uma vida melhor a nível socioeconómico.

"A escola faz muito bem à saúde. No desenvolvimento está a resposta para mais tempo de vida, que começa muito na própria escolaridade associada aos cuidados médicos e de saúde", frisa a socióloga.

 

NUTS II por EMV, Escolaridade (Ensino Superior) e PIB
NUT II EMV Escolaridade (Ensino Superior) em % PIB em %
Norte 81,53 17,8 29,7
Centro 81,34 17,4 18,6
Área Metropolitana de Lisboa 80,65 26,6 36,1
Alentejo 80,09 14,7 6,3
Algarve 79,99 17,3 4,8
Região Autónoma dos Açores 78,04 14,7 2,1
Região Autónoma da Madeira 78,77 16,5 2,5

Fonte: INE

Curiosamente, e segundo um estudo publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal estava, em 2019, entre os países que apresentavam uma menor diferença de EMV entre os cidadãos com mais e menos escolaridade. Os dados daquela organização apontam uma diferença de 1,4 anos entre as mulheres e de 4 anos entre os homens, sendo que há países, como a Eslováquia, onde essa diferença chega a 14,8 anos nos homens.

Podemos ir viver para o Mónaco?

A proposta é da Organização das Nações Unidas (ONU) e defendida por Maria João Valente Rosa. Passarmos a catalogar um idoso a partir da idade em que lhe faltam viver 15 anos e não a partir dos 65, até porque em muitos países a EMV nem sequer se aproxima desse valor.

É a chamada idade remanescente, por oposição à idade cronológica. “Passamos a considerar como idosos o grupo de pessoas que tem 15 anos de vida remanescente”, esclarece a socióloga, indicando que isso mudaria de sociedade para sociedade e nos ajudaria a ter uma melhor perspectiva.

Daí o exemplo. No Mónaco a EMV está cifrada nos 89,8 anos – é a mais alta do mundo –, o que significaria que um monegasco passaria a ser idoso a partir dos 74,8 anos. Já no Afeganistão a EMV não chega aos 54,4 anos – é a mais baixa do mundo, o que significaria que um afegão passaria a ser idoso a partir dos 39,4 anos.

Já em Portugal a EMV é de 19,75 anos aos 65 anos, o que significa que se espera que um português que atinja aquela idade viva, em média, 84,75 anos. O mesmo é dizer que a idade remanescente de um português se cifra nos 69,75 anos, o que empurra a noção de um português idoso quase cinco anos para a frente.

“Em Portugal o grupo dos idosos deveria iniciar-se aos 70 anos e não aos 65. Temos uma alteração do ponto de vista estatístico, mas temos de trabalhar com grupos e definir muito bem o que está incluído nesse mesmo grupo”, refere Maria João Valente Rosa, indicando que as classificações de diferentes grupos devem ter em conta vários pontos.

A definição de idoso, independentemente do nome que depois lhe venhamos a atribuir, deve, por isso, ser atualizada com alguma regularidade. A socióloga lembra à CNN Portugal que ter 65 anos antes do 25 de Abril era uma coisa e hoje é outra. Da mesma forma que daqui a 100 anos a diferença também será notória.

“Alguém que tem 65 anos hoje nada tem que ver com quem tinha 65 anos no passado ou alguém que vai ter 65 anos no futuro”, sublinha, lamentando que desta forma seja mais difícil de fazer comparações.

É por isso mesmo, e tendo em conta as diferenças sociais entre os vários países, que a Organização Mundial de Saúde difere a idade a partir da qual se chama alguém de idoso entre os países desenvolvidos e aqueles que estão em vias de desenvolvimento. Para os primeiros são os tais 65 anos, enquanto que para os segundos o valor se cifra nos 60 anos.

Velhos aos 30?

Não somos nós que o dizemos, nem mesmo as estatísticas. O corpo humano atinge o pico aos 30 anos e, a partir daí, é sempre a descer. Começamos a ter de usar óculos, começamos a deixar de fazer algumas coisas que conseguíamos e aparecem problemas que nem sabíamos ser possíveis.

João Gorjão Clara, um dos primeiros médicos a falar de Geriatria em Portugal, diz à CNN Portugal que "todos nós, a partir dos 30 anos, vamos envelhecendo". Isto porque o corpo perde massa muscular e densidade óssea.

"É muito arbitrário dizer que os 65 anos marcam o início do envelhecimento", aponta, recordando que esse foi um parâmetro instituído com base numa decisão que ainda vem do século XIX. Foi por essa altura que Otto von Bismarck, fundador da Alemanha moderna que criou o conceito de reforma, conferindo aos cidadãos o direito de receberem um pagamento do Estado a partir dos 70 anos.

Esse conceito foi sendo atualizado e passou para os 65 anos em vários países mais tarde, sendo essa a base da catalogação de um idoso: a idade da reforma. Ora, como sublinha João Gorjão Clara, os 65 anos já não são a idade de reforma em vários países: em França ainda são 62 anos, embora esteja na calha uma mudança, enquanto em Portugal um trabalhador só pode deixar de o ser sem cortes com mais de 67 anos.

"Faz sentido atualizar a idade da catalogação de idosos. Não só vivemos mais anos, como vivemos com menos incapacidades do que os nossos antecedentes", argumenta o médico formado na especialidade de Cardiologia, lembrando que quando se fez o primeiro estudo sobre a EMV em Portugal, em 1920, o valor encontrado foi de 35,6 anos.

"Arranjar uma baliza é um disparate, não se pode definir com uma duração de vida", conclui João Gorjão Clara, apontando que o valor de 65 anos não faz sentido agora, como 70 anos poderá, por exemplo, não fazer sentido em 2080.

Por essa altura Portugal deverá ter apenas 8,2 milhões de habitantes, dos quais três milhões serão pessoas com mais de 65 anos, de acordo com um estudo publicado pelo INE.

Idosos ou velhos? Falamos de quê?

Há muito que João Gorjão Clara critica a utilização da palavra idoso, que significa que "tem muitos anos", mas que foi introduzida na sociedade para "substituir eufemisticamente [a palavra] velho, que se assume ser pior a nível emocional".

Foi, de resto, um caminho que a língua portuguesa fez antecipadamente, mas que também se começa a ver lá fora. "A palavra idoso foi cunhada em Portugal há muitos anos para substituir eufemisticamente velho", aponta o também professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, lembrando que a literatura internacional começa a substituir expressões ou palavras como "elderly" por "older people".

"Penso que é o mesmo eufemismo e a mesma preocupação. A palavra idoso dá mais sensação de bem-estar", acrescenta o especialista, frisando que "gostava mais [que a palavra utilizada] fosse velho".

Maria João Valente Rosa não vai tão longe. Não defende a utilização do termo velho, mas também não gosta que se chame idoso. "O uso [da palavra], no presente e no futuro, devia ser evitado", refere a socióloga, admitindo que nem sabe "bem de quem estamos a falar" quando utilizamos esta expressão.

"No essencial são pessoas, e essas pessoas são muito diferentes, é um grupo extremamente heterogéneo. Consoante avançamos na idade, mais diferentes no tornamos uns dos outros", acrescenta, lembrando a mudança que trazem as experiências acumuladas, mas também as diferentes vivências e contextos.

 

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