REPORTAGEM EM FERNÃO FERRO || A casa onde Raúl e Edviges, ambos com 88 anos, dormiam há mais de quatro décadas acordou na manhã seguinte à enxurrada com as portas abertas, as janelas partidas e os gatos a rondar o pátio como se fosse só mais uma sexta-feira. A neta deles, de capuz a encobrir-lhe o luto, está parada diante da casa dos avós, que morreram afogados dentro da própria casa
A casa ainda parece viva.
As portas continuam abertas, as janelas estão partidas pela água ou arrancadas pelos bombeiros, lá dentro vê-se o arco metálico da cama, o colchão alinhado como se alguém pudesse voltar a deitar-se, no estendal ficou roupa esquecida e à boca da rua um tapete virado, no pátio os gatos voltaram, três, quatro, talvez mais, circulam com a calma dos únicos habitantes, farejam a lama seca, saltam por cima de pedaços de tijolo que o temporal arrastou, é sexta-feira de manhã em Fernão Ferro e a casa parece pronta para outra rotina qualquer, gatos no pátio, roupa quieta, tapete à porta, o que já não volta é o casal de 88 anos que dormia no quarto de baixo.
Chega-se à freguesia por uma avenida alcatroada que atravessa moradias antigas, muros baixos, hortas improvisadas, e ao lado delas levantam-se casas novas de linhas direitas, um luxo discreto, portões automáticos, automóveis alemães à sombra das garagens, a estrada vai avançando como se não quisesse escolher entre o campo e a cidade, mais adiante o alcatrão acaba de repente e a faixa desce em rua esburacada, lixo doméstico encostado às valas, sacos rasgados, restos de obras empurrados para as bermas, lá ao fundo uma máquina pesada avança e recua, abre covas, despeja terra, tenta endireitar o vale à força de pá mecânica, tudo com ar de estaleiro mais do que de bairro habitado, é por ali, no entanto, que se entra na Rua de Santa Marinha.
A Rua de Santa Marinha começa lá em cima, numa zona mais alta onde a chuva de quinta-feira deixou marcas nas paredes salpicadas e nas portadas enlameadas, é aí que se alinham as casas de cima, as que só ganharam nódoas de água e alguma terra à porta, mais à frente a faixa afina, desce devagar, dobra para o vale e, a partir desse joelho da estrada, começam as casas de baixo, as que ficaram em linha direta com a enxurrada, a primeira nessa descida é a moradia onde viviam Raúl e Edviges, os muros laterais guardam a meio da parede uma risca castanha que marca até onde subiu a água, abaixo do lote o terreno abre-se num fundo de vale que agora segura um fio espesso, um riacho improvisado onde antes só havia pinhal ralo, quintais e terra batida, um desses lugares em que a geografia parece ter mais memória do que as pessoas.
Naquele troço vivem poucas pessoas, coisa que se percebe mais pelos silêncios do que pelos rostos, a presença denuncia-se por um carro à porta, um estendal ocupado, uma cortina que mexe devagar atrás do vidro, nesta sexta-feira quase não há movimento na rua e o som mais constante vem das televisões lá dentro, a repetir as mesmas imagens da véspera, a meio da Rua de Santa Marinha uma vizinha chama sem se mostrar inteira, primeiro a voz, depois uma cabeça pequena por entre o gradeamento.
— Ó menino, chegue-se aqui um bocadinho.
Chama-se Maria, “apenas Maria”, não quer apelidos, não quer fotografia, andará pelos 70 anos, é baixa ao ponto de mal se ver por cima das barras do portão, o avental florido atado à cintura, uma blusa de lã gasta por baixo, fala da parte de dentro encostada ao batente, como quem não quer dar o corpo todo à chuva nem à notícia.
— Mas isto era um vizinho de já… de anos — procura a palavra, puxa-a devagar —, andavam sempre os dois, ela com a bengalinha, ele já com aqueles olhos assim, perdidos, e morreram os dois, pronto, juntos.
Não sabe os nomes, engana-se na ordem das horas, mistura o que viu da janela com o que ouviu na televisão, repete que foi tudo muito depressa, que a sirene dos bombeiros cortou a manhã, que alguém lhe bateu à porta a dizer que tinham sido “os dois lá de baixo”, insiste que não eram gente deixada ao abandono.
— Tinham os filhos, tinham netos, tinham o centro de dia que lhes levava as coisinhas, não estavam ao deus-dará — enumera, mexendo nos dedos por cima do avental, como se contasse contas invisíveis. Depois baixa a voz, quase um aparte. — Mas naquela noite estavam sós, não é?, e a água não quer saber se há filhos ou não há.
A casa organiza-se em patamares, o corpo principal fica à cota da rua, portas e janelas para o lado do alcatrão, o quarto onde o casal dormia há mais de 40 anos foi baixando com o terreno, construído num nível inferior, encostado ao desnível do vale, é essa divisão que agora se adivinha pela janela sem vidros, o arco metálico da cama, a penumbra feita de móveis antigos, vestígios de um quotidiano interrompido a meio da noite, foi ali que, na manhã de quinta-feira, a água entrou com força, desceu pelo pátio, galgou o degrau, subiu até perto do tecto e transformou o quarto num tanque onde o casal acordou já sem ar.
À entrada do pátio, mesmo em frente à porta, uma pequena grelha de drenagem quase desaparece sob terra e cimento, como se nunca tivesse sido ligada a lado nenhum, à volta ficam restos de obras recentes, pedaços de tubo, placas de esferovite, betão rachado, a rua esteve meses inteira aberta, primeiro em terra batida, depois em valetas, agora exibe linhas de lancis, sarjetas que ainda cheiram a novo, piso rasgado à espera do alcatrão, quase toda a freguesia de Fernão Ferro aparece nos papéis como área urbana de génese ilegal, bairros levantados à margem das licenças, sítios onde as casas vieram primeiro e a lei só muito depois, a Câmara do Seixal empurra um plano para regularizar cerca de três mil lotes até 2030, nas casas de cima, em zona mais alta, os proprietários pagam milhares de euros para pôr tudo em ordem, nas casas de baixo, mais expostas às águas, aparecem num ou noutro documento como candidatas a serem deitadas abaixo, entre elas, murmuram os vizinhos, a de Raúl e de Edviges, como se a casa tivesse sido escolhida duas vezes.
Na madrugada de quinta-feira a depressão Cláudia tratou do resto, o vale funcionou como funil, a água desceu pela encosta, acumulou-se no fundo, bateu no muro, voltou-se para a casa, entrou pelas portas e pelas janelas do anexo, os bombeiros do Seixal foram chamados para uma inundação num anexo daquela rua, avançaram com água pela cintura, partiram uma janela, abriram caminho à força até ao quarto e encontraram o casal em paragem cardiorrespiratória, a GNR arrombou portas, a equipa médica confirmou a morte ali mesmo, a Polícia Judiciária passou o dia a medir, a fotografar, a ouvir vizinhos num bairro onde a frase mais repetida, de janela em janela, foi que em 40 e tal anos nunca se tinha visto uma coisa assim, como se a própria frase fosse também uma rotina antiga.
Do lado de quem decide, as explicações dividem-se entre a violência da chuva e as construções ilegais, o vereador da Proteção Civil fala em fenómeno excecional e em casas que nunca deviam ter sido ali erguidas, recusa por agora apontar as obras ou a drenagem como causa direta, o presidente da Câmara enquadra o que aconteceu no processo de reconversão em curso e lembra que grande parte da freguesia vive há décadas num limbo urbanístico, a Junta de Freguesia puxa dos avisos que vinha fazendo sobre o isolamento de Fernão Ferro nos temporais de inverno, em Lisboa o primeiro-ministro e o Presidente da República deixam mensagens de condolências e evocam a forma como a natureza e a velhice se encontram nas franjas da cidade, aqui em baixo as palavras que mais se ouvem são outras, valas, sarjetas, linhas de água que ninguém viu nos mapas, casas de cima que se aguentam, casas de baixo que enchem, uma espécie de geografia moral dita em voz baixa.
Do lado da família, o retrato é o de duas pessoas coladas ao limite da autonomia mas ainda agarradas à casa que construíram, Raúl quase cego a circular entre o quarto e a cozinha orientado pelos cantos, Edviges com as pernas pesadas mas determinada a manter o gesto do dia a dia, de manhã duas funcionárias da associação local de reformados batiam ao portão, entravam, tratavam dos banhos possíveis, varriam o chão, deixavam o almoço pronto, à tarde os dois filhos revezavam-se em visitas, às quintas-feiras o casal seguia até ao centro de dia, passava lá a manhã sob o olhar das enfermeiras, a família já tinha garantido lugar no novo lar da freguesia, um investimento apoiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, mas a abertura do edifício foi sendo adiada por exigências adicionais da Segurança Social, vistorias, obras extras, assinaturas, o processo só terá ficado desbloqueado na semana anterior à tempestade, o lar poderá abrir ainda este mês, demasiado tarde para quem continuou a dormir no quarto de baixo.
Havia ainda um último recurso pendurado ao peito de Edviges, um botão de pânico com GPS, desses que medem sinais vitais e disparam um aviso se o corpo cai, ao longo de meses o aparelho chegou a enganar-se, lançou falsos alarmes, convocou familiares e técnicos em tardes banais de Fernão Ferro, prova de que a engrenagem funcionava, na noite em que o quarto encheu de água não chegou qualquer sinal, a família acredita que o dispositivo terá ficado logo submerso, perdeu ligação, deixou de falar com o exterior, o número associado chama agora para um vazio de gravação automática, uma voz metálica que atende no lugar de Edviges, como se o aparelho tivesse ficado a morar ali sozinho.
Mais abaixo, na parte em que o piso volta a ser terra batida, a enchente cavou o antigo caminho de passagem até o transformar num leito de ribeiro, a lama compactada guarda ramos, sacos de plástico, bocados de madeira e restos de móveis arrastados, é aí que aparece outra vizinha, também Maria, também baixa, de cabelo branco apanhado, a pedir ajuda para uma porta que não cede.
— Olhe, isto já não vai lá com as minhas forças — Maria, também Maria, tem uma chave presa na mão, o braço esticado sem sair do degrau —, já dei a volta e nem a volta dá.
Maria, também Maria, não mora ali o ano inteiro, é uma casa de domingo, de feriado, de bichos e de descanso, o quintal à volta é um mosaico de lodo, areia e entulho, ao fundo, no galinheiro, veem-se penas coladas ao chão, cabeças tombadas, um silêncio de aves onde antes havia barulho.
— Estão ali todas, morreram as minhas galinhas todas — aponta com o queixo, sem se aproximar mais —, queria ir lá tirá-las mas aquilo é um lamaçal, a gente escorrega logo, dou dois passos e já estou a ir ao chão.
Move-se devagar, uma camisola de lã por baixo do casaco fino, vai ajeitando o que pode, levanta um vaso, endireita uma cadeira, sacode um tapete que ficou preso num arame, de vez em quando pára, mede a distância ao galinheiro, abana a cabeça.
— O que aqui tinha, perdi tudo — acaba por resumir, sem levantar o tom —, os bichos, uns móveis, umas coisinhas que a gente vai juntando, foi-se tudo na mesma noite.
Mais do que a lista do que se estragou, parece ocupar-lhe a ideia da queda.
— O que eu não quero é partir uma perna, isto assim molhado é um perigo, não caia você também.
Na curva, ao fundo, vê-se a casa onde o casal morreu, um pouco mais baixa, encostada ao vale.
— A gente conhecia-se de vista, de cumprimentar — acrescenta ainda, a chave metida na fechadura emperrada —, agora olha-se para ali e parece que não é verdade.
Entre esta Maria do degrau e a outra Maria do portão alto desenha-se o modo como o bairro se reconhece, vizinhos que se cruzam há décadas sem entrarem uns na casa dos outros, rotinas que se tocam no café e à porta, notícias que chegam primeiro pela televisão e só depois pela rua, a lembrança de Raúl e de Edviges feita de imagens breves, o casal a descer devagar a rua, a carrinha da associação a buscá-los, os filhos a passar ao fim da tarde, o quarto lá em baixo sempre com uma luz acesa.
À volta da casa ficaram as sobras de um dia que já passou, fitas que dizem ser, ou ter sido, “área restrita” presas aos portões, círculos perfeitos marcados na lama onde os tripés estiveram fincados, o rasto fundo dos pneus das carrinhas de reportagem das televisões e das rádios e dos jornais no sítio em que se alinharam quinta-feira, durante horas a rua esteve cheia de gente e de vozes, microfones erguidos, luzes acesas em manhã cinzenta, agora restam apenas as repetições nos noticiários e os carros que ainda abrandam um pouco, baixam o vidro, confirmam com uma pergunta curta se é ali, recebem um gesto com a cabeça e seguem em frente.
Quando as últimas carrinhas de reportagem arrancam a rua parece encolher, fica o som distante da máquina que continua a terraplanar o vale, sobe e desce a pá num trabalho que não se interrompe, o resto cai num silêncio de chuva miúda, é nesse intervalo que aparece uma jovem de capuz de pelo e parka escura, sozinha, sem chapéu, as mãos enfiadas nos bolsos, passos curtos na lama, pára diante do portão, não toca na campainha, não chama ninguém, limita-se a olhar a casa dos avós a alguma distância, os gatos a moverem-se devagar atrás da fita amarela, o tapete ainda virado, a cama feita lá dentro como numa fotografia que ficou esquecida na parede.
Sobe um pouco a rua e chama uma vizinha pelo nome próprio, a vizinha espreita primeiro pela janela, depois aparece à porta, fica lá em cima, protegida por um chapéu de chuva, fala da soleira para baixo, sem descer o degrau, de longe veem-se os gestos pequenos, a cabeça que acena, o ombro que se encolhe, perguntas feitas em voz baixa, respostas mais baixas ainda, nada que chegue a atravessar o ruído leve da água a cair, a neta escuta, volta a olhar para a casa, mexe no fecho do casaco como quem procura qualquer coisa para segurar.
Quando a conversa termina não há abraços nem frases grandes, a porta fecha-se com cuidado, a neta desce de novo a Rua de Santa Marinha, passa outra vez em frente ao portão onde os avós viviam, não entra, não toca no ferro, segue um pouco mais abaixo e desaparece na curva, a chuva engrossa só o suficiente para desenhar fios novos por cima da marca antiga da água nos muros, os gatos recuam para cima de um parapeito, o quarto de baixo continua à vista pela janela partida, a cama por desfazer à espera de ninguém.