Maria viveu até aos 117 anos. O segredo: "Sorte" e uma microbiota semelhante à de um bebé

13 mar 2025, 19:17
Maria Branyas Morera. (Imagem: Residència Santa María del Tura)

Um estudo científico confirma que o organismo daquela que outrora foi a "pessoa mais velha do mundo" tinha características invulgares e pode ajudar a explicar os segredos de uma vida excecionalmente longa.

Aos 117 anos, Maria Branyas Morera dizia que o segredo para a sua longevidade era simples: "Sorte e boa genética". E parece que estava certa, a ciência veio confirmar. 

Um estudo conduzido por investigadores da Universidade de Barcelona, em agosto de 2024, revelou que as células do seu organismo tinham características de alguém 17 anos mais jovem. Mas há mais: a microbiota intestinal - o conjunto de bactérias essenciais para o funcionamento do corpo - era semelhante à de um recém-nascido. A investigação liderada por Manel Esteller, professor daquela instituição e especialista em envelhecimento, é considerada a mais completa já feita sobre um supercentenário - termo usado para pessoas que ultrapassam os 110 anos.

O jornal Ara, que acompanha de perto a região da Catalunha, onde Maria viveu a maior parte da vida, avançou com os primeiros resultados no início de março deste ano. A equipa de Manel Esteller concluiu que a idosa manteve uma forte lucidez até ao fim, e que os seus problemas de saúde se limitaram essencialmente a dores articulares e perda de audição.

Mas não foi só a genética a contribuir para a longevidade. Maria Branyas seguia hábitos que jogavam a seu favor: alimentava-se segundo a dieta mediterrânica, consumia três iogurtes por dia, não fumava, não bebia, caminhava regularmente e rodeava-se da família e amigos. Um cocktail que, segundo os cientistas, ajudou a atrasar o envelhecimento e a manter a saúde física e mental.

Agora, os investigadores esperam que os dados recolhidos ajudem a desenvolver novos tratamentos contra doenças associadas à idade. "Os resultados desafiam a perceção de que envelhecimento e doença estão inevitavelmente ligados", observou a equipa, citada pela agência EFE.

Uma vida de acontecimentos históricos

Maria Branyas Morera nasceu em São Francisco, a 4 de março de 1907, numa família de emigrantes espanhóis e mexicanos que tentava a vida nos Estados Unidos. Cresceu entre o Texas e Nova Orleães, mas a Primeira Guerra Mundial trocou-lhe as voltas. Em 1915, os pais decidiram regressar a Espanha e instalaram-se na Catalunha. Foi aí que passou quase toda a vida – e que assistiu, de perto, a alguns dos momentos mais marcantes do século XX: a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e a pandemia de gripe de 1918.

Mais de um século depois, em 2020, enfrentaria outra pandemia. Com 113 anos, contraiu Covid-19, numa altura em que Espanha era um dos epicentros do vírus e ainda não havia vacinas. Mas a doença não lhe deu luta – teve apenas sintomas ligeiros e recuperou sem complicações.

A resistência de Maria Branyas era, aliás, lendária. Em janeiro de 2023, após a morte da freira francesa Lucile Randon, a idosa foi reconhecida pelo Guinness World Records como a pessoa mais velha do mundo. Questionada sobre o segredo para uma vida tão longa, respondeu sem hesitar: "Ordem, tranquilidade, boa relação com família e amigos, contacto com a natureza, estabilidade emocional, sem preocupações, sem arrependimentos, muito positivismo e evitar pessoas tóxicas". Muito resumidamente, concluiu: "Sorte e boa genética". 

Viúva, mãe, avó e bisavó, passou os últimos 20 anos num lar de idosos em Olot, na Catalunha, onde morreu a 19 de agosto de 2024. O título de pessoa mais velha do mundo passou a pertencer à brasileira Inah Canabarro Lucas, de 116 anos, segundo o site LongeviQuest, que se dedica ao estudo de supercentenários.

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