“Podemos demorar uma vida inteira a conseguir aceitarmo-nos”. Antes de se assumirem como pessoas não-binárias, Kiko e Leonor tiveram de descobrir quem eram

26 jun, 08:00
“Podemos demorar uma vida inteira a conseguir aceitarmo-nos”. Antes de se assumirem como pessoas não-binárias, Kiko e de Leonor tiveram de descobrir quem eram

Kiko apresenta-se como mulher mas também como homem. Leonor teve uma infância confusa, sem perceber porque não se encaixava nos moldes com que a viam. Viver num corpo que não corresponde à sua identidade pode levar a um estado de angústia e sofrimento psicológico, à chamada disforia de género.

“Tenho 27 anos e os meus pronomes são ele e ela”. Na internet é Kiko is Hot, para os mais próximos é apenas Kiko. “Eu sou mulher sim, mas também sou homem. Eu sou o Kiko, mas se me tratarem por ela, eu não fico ofendido”, escreveu no ano passado na sua página de Instagram. 

Kiko percebeu “desde muito cedo” que não encaixava na forma como a sociedade espera que um homem e uma mulher sejam, se comportem e se identifiquem. “Felizmente, desde tenra idade sei que não me insiro no padrão [da sociedade]. No meu caso, acho que não teve a ver com o meu corpo, não me sentia bem com o padrão de comportamento que a sociedade impõe a um homem”, revela, garantindo que “sabia perfeitamente quem era quando era criança, antes de receber opiniões e julgamentos dos outros”. 

“Em crianças somos livres, não temos ideias pré-concebidas do que um homem ou mulher deve ser. Só depois é que começamos a questionar: se for assim sou gozado, faz com que seja alvo de bullying, e acabamos por tentar esconder”. 

Mas o “processo para voltar a ser eu próprio” – que é algo que ainda hoje o acompanha – levou à criação de Kiko Is Hot, a sua persona digital que aos 16 anos se filmava a maquilhar e que vai estando “mais próxima” do seu verdadeiro eu. Ainda assim, confessa: “podemos demorar uma vida inteira a conseguir aceitarmo-nos a nós próprios”. 

Kiko criou umas das primeiras contas no YouTube em Portugal em que os temas LGBTIQ+ são protagonistas e desde a sua criação que se expressa tal como se sente. “Quero tirar esse estigma e apresentar as coisas de forma simples, é uma coisa simples”. Fotografia: Instagram. 

De Trás-os-Montes para o mundo 

Leonor Ribeiro é estudante de Cinema e identifica-se como uma mulher trans, mas não vê como prioridade ter o corpo de uma mulher. Começou o tratamento hormonal há alguns anos, e isso basta-lhe. Diz-se segura na mulher que é. “Conforme fui crescendo, fui alterando a minha perspetiva do que quero para mim. É um mundo por descobrir”, conta-nos, explicando que, para ela, a cirurgia de redesignação sexual não é uma prioridade.  

Leonor nasceu há 21 anos no Peso da Régua, o que tornou a sua descoberta mais complexa. “Sou de Trás-os-Montes, e uma pessoa trans era algo que eu nunca tinha visto”, conta. “A infância foi uma altura confusa, na adolescência fui desenvolvendo o sentimento de não pertença. Conforme fui crescendo, fui-me apercebendo de que os moldes em que me encaixavam não eram aqueles em que eu me encaixava, a nível social e a nível de identidade”. 

Mas o caminho foi de altos e baixos, tentando sempre fugir aos ditos moldes. Até se revelar aos mais próximos que se identificava como uma mulher trans, Leonor passou por muito o que os jovens não-binários passam: vergonha, receio e estigma. E este último foi o que mais marcou: “durante a adolescência, quando verbalizei a minha identidade, o estigma foi um problema enorme, mas já não é algo a que eu agora ligue”. Sobretudo se vem de pessoas que não lhe são próximas. E é esta capacidade de não se deixar melindrar por comentários alheios que a tem ajudado a ser uma voz ativa. 

“Já levo uma vida em que a minha identidade está cá fora e toda a gente sabe, já não é um problema”, assegura Leonor, que faz das redes sociais um local de ativismo. “É sempre necessário mais uma voz”, afirma, em tom de desafio a quem a vai ler. 

As redes sociais têm-se assumido como aliadas na imensidão que pode ser o mundo da identidade de género. E são palco de discussão e reivindicação. Para alguns, como é o caso de Kiko, serviram de escudo-protetor e ao mesmo tempo de espelho. 

“O Kiko Is Hot nasce em 2011, no YouTube. Era o meu eu de 16 anos que sentia que precisava de um nome que mostrasse confiança e que sentia orgulho de si próprio”. Ao longo destes 11 anos, as redes sociais e plataformas digitais continuam a ser uma ferramenta (até de trabalho), um espaço onde Kiko – e Kiko Is Hot – se mostra como quer, maquilhado ou não, com roupas comercializadas como sendo para mulher ou para homem. O que bem entender e sem nada a esconder. 

“Quero tirar esse estigma e apresentar as coisas de forma simples. É uma coisa simples”, diz-nos, frisando que o caminho ainda é longo e muito por culpa da falta de representatividade nos meios de comunicação social e nas artes. “Não existe uma única história a ser contada nos nossos meios sobre pessoas não-binárias. Hoje, a não-binariedade está onde o movimento gay estava há 40 anos”. 

A disforia de género pode ser social, hormonal e/ou física 

A disforia de género ou incongruência de género, começa por explicar Daniel Seabra, psicólogo clínico e membro colaborativo no Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental da Universidade de Coimbra (CINEICC), são as designações técnicas dadas “ao sofrimento associado à condição de uma pessoa cujo sexo atribuído à nascença não é o mesmo que o género com que se identifica”. 

Segundo o site SaudeMental.pt, criado por profissionais de saúde portugueses, a disforia de género não diz apenas respeito às características sexuais primárias (pénis e vulva), mas também às secundárias, como as mamas, os pelos, o formato do corpo e a voz, assim como ao “papel de género socialmente expectável em relação a esse sexo”, isto é, a todos os aspetos que direta ou indiretamente caracterizam o binário masculino-feminino. 

A Associação Americana de Psiquiatria define a disforia de género quando esta incongruência tem a “duração de pelo menos seis meses”. O termo causa confusão e, tal como a não-binariedade, a sua intensidade, forma de expressão e impacto variam de pessoa para pessoa. 

Mas é possível, por exemplo, que uma pessoa designada à nascença como homem se identifique como mulher trans ou neutra sentindo-se bem com o corpo e órgão sexual que tem? "Há várias clarificações que devem ser feitas em resposta a esta questão. Poderia responder apenas que sim, é possível que nem todas as pessoas trans e/ou não-binárias sintam disforia de género. Mas é uma resposta mais complexa do que isso", esclarece o psicólogo. 

“Uma pessoa trans ou não-binária é uma pessoa cujo sexo atribuído à nascença é diferente do género com que se identifica, sendo também uma autoidentificação. Quando existe sofrimento associado a essa condição, falamos de disforia de género”. 

Quem sente angústia pela inconformidade do género com o sexo não tem necessariamente de querer uma redesignação sexual. Essa mesma angústia pode ser resultado da sua incapacidade de mostrar oficialmente ao mundo o seu eu – e uma mudança de nome e género no registo civil é, para muitas pessoas, uma grande vitória. 

“O processo de transição é a forma de aliviar essa disforia de género com o intuito de reconhecimento da sua identidade de género, que pode ser social (e implicar, por exemplo, uma mudança do nome no registo civil, a escolha dos pronomes), hormonal (com recurso a terapia hormonal) e/ou física (envolvendo cirurgias). Nesse sentido, cada pessoa pode e deve escolher qual ou quais os processos de transição de que necessita”, continua o psicólogo. 

Em alguns casos, como acontece com Kiko e Leonor, a disforia de género manifesta-se apenas com a consciência de que o sexo biológico não coincide com a identidade de género. O psicólogo destaca que “é importante fazer a ressalva de que nem todas as pessoas trans e não-binárias desejam fazer tratamento hormonal e/ou cirurgias de redesignação sexual”. 

É o caso de Kiko. “As operações duríssimas”, para si, “não fazem sentido, isso seria eu a querer encaixar” nos padrões da sociedade com os quais não se identifica. 

Embora agora se sinta segura no seu corpo e na sua identidade, e mesmo que aos olhos de muitos estes não coincidam, Leonor admite algumas lutas internas. Já teve de procurar ajuda para conseguir lidar da melhor forma com a incongruência de género e tudo o que ela traz, muitas vezes silenciosamente. “Sempre que procurei ajuda psicológica foi por estes fatores que poderiam surgir pela disforia [de género], mas é algo a que me habituei”. 

Leonor Ribeiro participou na marcha LGBTIQ+ que decorreu no início do mês na Covilhã. "Sentiu-se um peso a sair dos ombros das pessoas”, conta-nos. Fotografia: Instagram

O que sente uma pessoa com disforia de género? 

Em alguns casos, a disforia de género pode levar a que procurem tratamentos hormonais ou cirurgias para mudar o corpo, algo que já é possível fazer em hospitais públicos portugueses, como o Santo António, no Porto, e no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, na Unidade de Reconstrução Genito-Urinária e Sexual (URGUS), por exemplo. 

Noutros casos, a disforia revela-se através da vontade de ser de outro género (ou de nenhum género) e de ser tratado como tal, sendo nestes casos a psicoterapia um apoio para reduzir a angústia e melhorar o bem-estar da pessoa. 

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, pode haver ainda uma forte convicção de que se tem os sentimentos e reações típicos de outro género diferente daquele que lhe foi atribuído. 

Nas crianças, continua o mesmo organismo norte-americano, a quem foi atribuído um género masculino pode dar-se uma “forte preferência” por roupas femininas, por se identificar mais com elas, e a quem foi atribuído o género feminino pode ocorrer “uma forte preferência por usar apenas roupas masculinas típicas e uma forte resistência ao uso de roupas femininas típicas”. 

A preferência por jogos e brinquedos socialmente destinados ao género oposto àquele que foi atribuído à criança está também entre os critérios de avaliação da disforia de género, tal como “uma forte aversão à anatomia natural” e o desejo pelas características físicas do sexo que correspondem ao género com o qual se identificam e que não é o seu. 

Quando a disforia de género se prolonga no tempo, sem que haja o devido acompanhamento e aconselhamento, há o risco de desenvolvimento de problemas de saúde mental, que, por seu turno, podem agravar ainda mais o isolamento social no qual muitas pessoas se refugiam por se sentirem incompreendidas. Depressão, estados de ansiedade, pensamentos ou tentativas de suicídio são algumas das consequências mentais mais diretas. 

“Quando existe sofrimento associado a essa condição, deve garantir-se o direito de acesso à proteção da saúde. Dessa forma, para responder às necessidades de saúde de pessoas trans e não-binárias, os/as profissionais de saúde competentes redigem um relatório com esta condição, facilitando o acesso aos serviços de saúde especializados para responderem a essas necessidades de saúde”, diz o psicólogo Daniel Seabra. “Não se trata de um “diagnóstico” numa ótica patologizante, mas sim de facilitar o acesso de uma pessoa trans e não-binária aos cuidados ao nível da saúde que necessita”.  

Maria Joana Almeida, psicóloga e sexóloga, com consultas relacionadas com a não conformidade e identidade de género também rejeita o conceito de diagnóstico. “Custa-me falar de diagnóstico, porque é uma questão sensível em termos sociais. Se uma pessoa tem ou não covid-19, fazemos um teste e é positivo ou não. Na diversidade do género, a  diversidade é tão grande que a autodeterminação da pessoa é muito grande também”, diz. 

No seu consultório surgem vários tipos de pessoas: pessoas que sentem “a vida inteira” que a sua identidade de género não concorda com o sexo, “outras que chegam confusas e outras que já fizeram um percurso de questionamento e estão seguras”. Todas elas, beneficiam do acompanhamento ao longo de todo o processo, seja de aceitação e de revelação, reduzindo a angústia muitas vezes associada à não conformidade, diz a especialista. 

“Não é tanto fazer ou não um diagnóstico, mas sim perceber quais as necessidades e, dentro da diversidade, como se pode ajudar a uma adaptação, para que a pessoa explore a sua diversidade sexual e de género”, continua a especialista. 

Nem todas as pessoas trans ou não-binárias passam por uma fase de disforia de género. Kiko não se identifica com este diagnóstico. “Talvez seja um rótulo, para mim é uma palavra que não faz sentido, não é uma disforia para mim. A minha perceção de mim próprio é uma questão não-binária, disforia parece estar noutro campo”. 

Emily Tressa, de 18 anos, olha-se ao espelho antes de um desfile de moda com modelos trans e não-binários, em Boston. Foi ainda no ensino primário que Emily pediu para ser identificada como rapariga. Em junho fez a cirurgia de cirurgias de redesignação sexual (Foto AP/Wong Maye-E)

Vidas escondidas 

As redes sociais permitiram a Kiko ser Kiko is Hot, mas isso não o livrou de comentários maliciosos, que, a seu ver, “já foram piores” e são ainda o espelho da incompreensão e do estigma. Quando publicou os primeiros vídeos no YouTube, “os insultos eram mais gratuitos e o que mais ouvia na altura era que era gay, isso era o insulto”, exemplifica. “Hoje em dia, esta história de as pessoas estarem sempre a discutir umas com as outras nas redes tornou-as muito pouco razoáveis, mas hoje não está mais agressivo do que estava antes”. 

Mas não é apenas no mundo digital que o estigma sobrevive. A incompreensão da família, dos colegas, dos amigos ou da sociedade em geral é para a psicóloga e sexóloga Maria Joana Almeida o maior entrave ao bem-estar de uma pessoa não-binária. “Cada pessoa tem de fazer o seu caminho, mas um jovem, um adulto ou uma pessoa com mais idade, muitas vezes sentem que estiveram a esconder qualquer coisa a vida toda e isso é que é pesado”, diz. 

No caso de Leonor, a sua identidade foi construída em  silêncio muitas vezes e a sua revelação foi feita por “camadas”. “É um processo difícil”, admite. “Para os meus amigos, deixei de esconder aos 15, 16 anos”. Já com a família a história foi mais complexa e “foi ao longo dos anos” que se foi revelando. A irmã mais nova soube ao mesmo tempo que os amigos, já a mãe soube apenas “recentemente e ainda estamos a trabalhar nisso”. 

“Com a minha irmã foi mais simples, já não era um choque para ela, a mentalidade em pessoas mais novas muda muito a questão. Para as pessoas mais velhas foi um choque maior, há menos disponibilidade para aprender, simplesmente não conhecem e não se sentem abertas para explorar”, lamenta Leonor. 

 

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