Identidade de género. Devemos passar a dizer “todes” e “alunes”? Duas linguistas discordam: o vocabulário de que precisamos já existe

2 jul, 21:00
Símbolo para casas de banho sem género num parque de Durham, na Carolina do Norte, EUA. Identidade de género, LGBTI+, queer, não-binário. Foto: Sara D. Davis/Getty Images

A questão da linguagem inclusiva tem sido um tema central na luta pelos direitos LGBTQI+, no sentido de procurar novas palavras que deixem de refletir uma visão binária da identidade de género. Em declarações à CNN, duas linguistas argumentam que não é preciso definir novos vocábulos, mas diversificar a linguagem que utilizamos no dia a dia

Nos países de língua inglesa, tornou-se frequente a utilização dos pronomes “they” e “them” para se referir a pessoas que não se identificam nem com o género masculino nem com o feminino. No Brasil, começa a ser comum o Sistema Elu que usa os pronomes “Elu/delu” e “Ile/dile”. E, por cá, que palavras devemos usar na procura de uma linguagem mais inclusiva? 

À CNN Portugal, Maria Antónia Coutinho, docente do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa (CLUNL), mostra “algumas reservas relativamente a uma linguagem neutra” que novas palavras como “todes” e “alunes” procuram refletir. De acordo com a especialista, “a perspetiva de uma linguagem inclusiva não tem necessariamente de ser neutra”. Pelo contrário, deve “encontrar formas de incluir a diversidade” e, assim, não deixar ninguém de fora.   

Também Matilde Gonçalves, do mesmo Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa (CLUNL), adianta que não é “de todo” adepta da linguagem neutra. E explica: “o próprio termo implica que estamos a neutralizar algo, mas o que a linguagem pretende é construir, desenvolver”.   

A questão é o que estamos a neutralizar, tendo em conta que o objetivo é incluir”, destaca Matilde Gonçalves, que entre as suas áreas de investigação está o género textual.  

As duas docentes de linguística defendem que é um trabalho “de todos” lutar pela inclusão e diversidade quando se fala e se escreve, e isso não tem necessariamente de implicar o uso de novos pronomes, mas sim fazer um jogo de cintura com o vocabulário que já existe, usando a panóplia de palavras da língua portuguesa de forma mais inclusiva e diversificada. Esse é, dizem, o primeiro passo para tornar a diversidade e inclusão centrais no discurso. Depois, sim, pode-se dar um passo em frente com a inclusão de novos conceitos, que aos poucos se tornarão comuns.  

Linguagem neutra pode apagar identidades 

“Muitas vezes, as questões de neutralidade acabam por ser mal definidas porque o efeito parece contrário. A neutralidade apaga também algumas identidades”, sublinha Maria António Coutinho, que concorda que é preciso haver um “esforço” por parte de várias entidades para reconhecer as diferentes identidades

“As políticas públicas têm um papel. Quem trabalha em educação tem um papel ao dar visibilidade a estas questões. As universidades têm um papel. Não se consegue sempre, mas podemos pensar em dizer de outra forma, misturar discursos e não usar o masculino. Dizer «participantes», usar genéricos e outras formas mais neutras, diversificar recursos. Isto cria uma visão do mundo que não é só binária”, refere. 

A língua fará o seu caminho. Se, em alguns momentos, em vez de dizer ‘alunos’ disser ‘cada estudante’ estou a ser mais inclusiva”, continua, adiantando que nada impede que novos pronomes e conceitos sejam adotados no futuro. 

Para Maria Antónia Coutinho, “estas questões não se decidem por decreto, mas sim por evolução da língua e esta é determinada pelo uso das pessoas. Se daqui a 50 anos a população que fala português vir normalmente termos como o ‘todes’, ‘alunes’, etc., falaremos assim”. 

O papel da linguagem na formação da identidade 

Para a investigadora e socióloga Maria do Mar Pereira, “a linguagem é uma dimensão extremamente importante da identidade e da interação das pessoas”. É, também, “algo que muda muito rápido. O vocabulário muda muito rápido, mas a estrutura demora tempo a mudar”. 

Este processo acaba por tornar mais morosa a normalização de novos conceitos, como aqueles que estão associados à não-binariedade e que são já frequentes em alguns idiomas, como o inglês, mas não tanto por cá, à exceção das comunidades LGBTI+. 

A investigadora refere ainda que, “em países onde se fala há mais tempo” sobre o tema e onde novos conceitos foram já enraizados, “as pessoas estão mais habituadas a ouvir falar e vão normalizando”. Mas esta não é uma realidade transversal em todo o mundo e não é o caso de Portugal. 

“Noutros países, esse processo já começou, mas é impossível arranjar um atalho. É como a questão do acordo ortográfico: vai causar debate social, resistência, vai demorar tempo e as pessoas vão dar erros e procurar outra solução. Demora tempo, mas para funcionar, de facto, é preciso que toda a gente esteja envolvida. Não se muda a linguagem de um país do nada, é um processo que exige a participação de toda a gente”, continua Maria do Mar Pereira. 

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