MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Mulher da Idade do Ferro terá tido o cérebro retirado antes do enterro, sugere novo estudo

CNN , Issy Ronald e Amarachi Orie
28 jun, 18:00
Mulher da idade do ferro terá tido o cérebro retirado segundo novo estudo
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Uma mulher da Idade do Ferro encontrada no norte da Escócia terá tido o cérebro removido depois da morte, num ritual funerário que revela mais sobre a misteriosa relação desta cultura pré-histórica com os seus mortos

Uma mulher escocesa da Idade do Ferro terá tido o cérebro retirado depois de morrer, como parte do seu ritual funerário, segundo um novo estudo que lança uma nova luz sobre os complexos ritos fúnebres desta cultura pré-histórica.

Investigadores do Reino Unido e dos Estados Unidos descobriram que este indivíduo, muito provavelmente com mais de 30 anos, apresentava cortes no interior do crânio.

Estas incisões retas e paralelas terão sido provavelmente causadas por “raspagem ou corte deliberado” com uma ferramenta “afiada”, segundo o estudo publicado na revista Antiquity.

A base do crânio estava também partida de uma forma “invulgar”, o que sugere que a fratura resultou de “um impacto intencional e direcionado”, notaram os investigadores.

Em conjunto, a fratura e as marcas de corte “sugerem a remoção deliberada do cérebro pouco depois da morte deste indivíduo”, afirmaram.

As marcas de corte estavam “também na parte do crânio onde há ligamentos que prendem o cérebro ao crânio, por isso faria sentido raspar essa zona se a intenção fosse remover o cérebro”, disse à CNN, na terça-feira, Laura Castells Navarro, autora principal do estudo, arqueóloga e investigadora de pós-doutoramento na Universidade de York, no Reino Unido.

Acrescentou que a “forma mais fácil de aceder” ao cérebro preservando o crânio “é pela base do crânio”, e que a fratura parecia “muito, muito recente”.

Fotografias de ossos que mostram indícios de manipulação depois da morte. Rebecca Ellis-Haken/Cortesia Antiquity Publications Ltd.

Os investigadores descobriram também que pelo menos quatro dos ossos longos da mulher — o fémur, ou osso da coxa, os úmeros de ambos os braços e a ulna do antebraço — foram modificados antes de ela ser sepultada.

Embora um relatório inicial de 2003 tenha sugerido que os ossos poderiam ter sido roídos por roedores, Navarro disse que as marcas deixadas por roedores “nunca são lisas” e que “o que estamos a ver é um verdadeiro polimento dos restos mortais”.

“Pensamos que o que aconteceu foi que eles [os ossos] podem ter sido partidos ao meio e depois talhados até ficarem com uma extremidade muito afiada” e afunilados até formarem uma ponta alongada, acrescentou.

É esse o caso da ulna e dos úmeros. O fémur, porém, tinha um acabamento plano e liso, segundo o estudo.

Os investigadores continuam sem saber ao certo quais foram as motivações precisas para esta prática — se era um sinal de respeito por um membro valorizado da comunidade ou “um tratamento deliberadamente abusivo do corpo de um indivíduo estrangeiro ou de baixo estatuto”, lê-se no estudo.

No entanto, apesar destas modificações, os quatro ossos foram recolocados na sepultura na sua posição anatómica correta, o que sugere um sinal de “reverência e não de denegrimento”, acrescenta o estudo.

“Isso foi bastante interessante, tendo em conta quão profundamente modificados foram, porque claramente houve algum tipo de pensamento, respeito e cuidado ao juntá-los”, bem como “um conhecimento absurdo de anatomia”, disse Navarro.

O corpo é um dos dois descobertos em 2000 debaixo de um cairn — um monte artificial de pedras normalmente encontrado em encostas de montanha — no extremo norte da parte continental da Escócia.

O outro, provavelmente um jovem do sexo masculino que teria cerca de 15 anos quando morreu, não parecia ter sofrido quaisquer “padrões complexos de trauma”, segundo o estudo.

Os investigadores realizaram análises de ADN, bem como datação por radiocarbono e análise química dos dentes molares dos dois indivíduos.

A mulher e o rapaz eram provavelmente aparentados e poderiam ter sido tão próximos como primos em segundo grau por via materna, partilhando bisavós. Ambos terão provavelmente morrido entre 50 a.C. e 70 d.C., embora os indivíduos possam não ter sido enterrados ao mesmo tempo.

Os investigadores disseram que, embora o tratamento dado aos restos mortais da mulher “não tenha paralelo em detalhe”, há muitas provas de modificação, conservação e circulação de restos humanos durante aquele período.

Embora existam “alguns exemplos de cemitérios na Escócia” nessa época, “a maior parte dos restos mortais é encontrada em lugares muito improváveis, como dentro de uma casa, à porta de uma casa, em fossas”, grutas naturais e cairns de pedra, disse Navarro.

Partes do corpo modificadas foram encontradas noutras zonas da região, onde existia uma tradição de recolher fragmentos de crânios e fazer alguns buracos neles, que poderiam ser usados para os pendurar, disse Navarro, acrescentando que marcas de corte para abrir um crânio foram encontradas num esqueleto noutro local.

Por isso, embora a descoberta deste estudo seja “muito única” e “invulgar”, Navarro disse que “se enquadra numa interação mais ampla entre os vivos e os mortos, e nesta memorialização e cuidado com os antepassados e os seus restos mortais” na Idade do Ferro nas Ilhas Britânicas.

“As práticas funerárias da Idade do Ferro são absolutamente fenomenais e é realmente preciso ter uma mente muito aberta, porque podiam surgir com todo o tipo de coisas”, continuou.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Ciência

Mais Ciência