Sem hipótese de defesa, o realizador Ico Costa passou de vencedor reconhecido do IndieLisboa, e não só, a agressor de mulheres, com filmes cancelados. Bastou uma denúncia, assinada com o nome de uma mulher. Uma mulher que nunca ninguém viu, com quem ninguém falou e que, na verdade, não existe. O principal suspeito da falsa acusação é um homem
Bastou um email, assinado com um nome feminino - Joana Sousa Silva - e uma alegação de violência doméstica para que a vida de Ico Costa, realizador de cinema desde 2012, ficasse enredada numa história real e dramática que parece não ter fim.
Sem nenhuma prova de uma queixa oficial às autoridades, o cineasta viu, por exemplo, o festival IndieLisboa cancelar dois filmes ligados a si no ano passado. De vencedor em 2024, Ico Costa passou a agressor em 2025, sem hipótese de defesa. E a “mulher” nunca apareceu. Foi apresentada queixa por denúncia caluniosa e há uma investigação em curso. A CNN Portugal teve acesso ao processo e sabe que o principal suspeito de ser o autor das falsas acusações é alguém do sexo masculino e está ligado ao meio artístico.
Desde 17 de abril de 2025, dia em que foi enviado o primeiro email, que Ico Costa não tem descanso e tenta provar a sua inocência. Em pouco tempo o assunto era tema de conversa nas redes sociais e no meio cinematográfico. Um meio mais fechado e em que, mesmo sem nunca ter chegado qualquer queixa oficial às autoridades, as consequências não se fizeram esperar.
Neste enredo é impossível separar o lado pessoal do profissional. Em 2024, Ico Costa conquistou o prémio para melhor longa-metragem portuguesa na 21.ª edição do IndieLisboa International Film Festival. E em março de 2025 soube que tinha sido selecionado para a Competição Nacional do 22.º IndieLisboa, com o filme "Balane 3". Do sonho ao pesadelo foi um pequeno salto e o filme foi afastado da competição. Bastou um comunicado do IndieLisboa e o assunto tomou novas proporções, com notícias em muitos órgãos de comunicação social.
"Joana" sempre recusou encontros e telefonemas
Mas vamos aos factos.
A 17 de abril de 2025, alguém que se apresentava com o nome de Joana Sousa Silva enviou um email para dezenas de pessoas e entidades ligadas ao mundo do cinema em Portugal e além-fronteiras. Mas também para a página de Instagram maisumcasting, que está ligada à área e, entre outras coisas, costuma dar voz a crimes de violência de género. Esta foi a porta aberta para uma primeira publicação pública sobre o tema que se foi espalhando nas redes sociais.
A mensagem foi enviada de um endereço “Proton Mail”, que é o maior serviço de e-mail encriptado e que permite um registo anónimo aos seus utilizadores.
O título do primeiro email, a que a CNN Portugal teve acesso, era sugestivo: referia a palavra "agressão”. O primeiro parágrafo referia de imediato que o IndieLisboa tinha no programa um filme realizado por Ico Costa. Em seguida descrevia-o como “um agressor em série de mulheres”, entre as quais a própria “Joana” estava incluída. “As suas agressões são verbais, físicas e psicológicas, e ele usa estratégias de intimidação, de chantagem emocional e de vitimização para se justificar dos seus atos”, continuava a alegada vítima.
Escreveu ainda que, com ela, sabia da existência de seis vítimas e que as agressões aconteceram, pelo menos, durante dez anos. Mas além de Joana Sousa Silva, mesmo após esta acusação se tornar pública, mais ninguém referiu nada desta natureza. Garante que tentou apresentar uma queixa nas autoridades, mas que a polícia tinha levantado problemas e, por isso, desistiu. Joana garantiu que teve uma relação de seis meses, há quatro anos, mas Ico Costa diz que desconhece por completo esta pessoa. “Joana” dizia ter 28 anos e ser ex-estudante de cinema.
Várias pessoas tentaram contactar a alegada vítima, mas esta sempre recusou encontros ou chamadas telefónicas. Num desses emails, que trocou com quem tentou falar com ela, chegou mesmo a indicar que ia realizar-se um encontro na Mutim - Mulheres Trabalhadoras das Imagens em Movimento -, uma associação de mulheres que trabalham no cinema e audiovisual, com todas as mulheres que tinham tido experiências traumáticas com Ico Costa. Todavia, a CNN Portugal sabe que a MUTIM não tinha muitas informações sobre o caso, não conhecia a “Joana” e não sabia de nenhum encontro.
Nos dias 19 e 20 de abril (2025) foram enviadas mais mensagens que chegaram mesmo às caixas de correio de vários festivais de cinema internacionais. Além de escrever e enviar os emails, a mesma pessoa terá criado vários perfis falsos em redes sociais para comentar e ajudar a difundir aquela informação. Sendo que em algumas situações não foi difícil perceber que estavam ligados entre si, de acordo com o processo a que a CNN Portugal teve acesso.
"Joana" acusou Ico de ir a sua casa num dia em que ele não estava no país
O IndieLisboa acabou por retirar da programação de 2025 a longa-metragem de Ico Costa, "Balane 3", tal como uma longa-metragem produzida por si, mas realizada por Inês Alves. Uma decisão acompanhada de um comunicado, que acabou por levar esta situação a ser divulgada por diversos órgãos de comunicação social, alastrando ainda mais as acusações de agressões e causando um novo impacto na sua vida, com danos patrimoniais e não patrimoniais.
“Joana” volta a dar sinais de vida em junho. Ico Costa soube que esta enviou um novo email, a algumas pessoas, com o que dizia ser novos factos que tinham acontecido na noite de 13 de junho.
Esta relatou que Ico descobriu onde era a sua casa e lhe fez uma espera. Que fugiu e ele correu atrás dela e apenas escapou por causa de um senhor que estava a fechar um café. Mas o que “Joana” desconhecia era que Ico tinha viajado para Marrocos e, por isso, nunca lhe poderia ter feito uma espera porque na noite de 13 de junho não se encontrava no país.
Os factos até agora descritos podem enquadrar três tipos de crimes: falsidade informática, denúncia caluniosa e, ainda, difamação agravada.
A longa-metragem Balane 3, cancelada no ano passado pelo IndieLisboa, acabou por chegar às salas de cinema no passado dia 26 de fevereiro. Quase um ano depois do que devia ter acontecido.
Para David Silva Ramalho, advogado de Ico Costa, a gravidade das falsas alegações é grande e o impacto será difícil de avaliar no seu todo. No entanto, em declarações à CNN Portugal, há um aspeto que o advogado faz questão de ressalvar: “O único motivo pelo qual a denúncia falsamente apresentada contra Ico Costa teve a repercussão que teve foi a decisão precipitada do IndieLisboa.”
“Em qualquer outro cenário, perante uma denúncia apresentada a partir de um email descartável, por uma pessoa com um nome fictício, que sempre se recusou a aparecer ou a falar, haveria lugar a uma averiguação prévia, por mais pequena que fosse, sobre o mérito das alegações”, explica o advogado.
Por isso mesmo, considera que “o IndieLisboa, na sua ânsia de exibição de virtude, acabou por tomar a pior opção possível: dar palco a uma denúncia falsa”.
Desde que representa o realizador, David Silva Ramalho tem tentado minimizar a repercussão dos emails, mas nem todos se mostraram recetivos. A página de Instagram “maisumcasting” acabou por retificar a informação publicando um esclarecimento sobre o tema.
E é por isso que, para o advogado, “se este erro já era grave, o que lhe seguiu talvez seja pior, pelo que revela”, afirma, acrescentando que, “mesmo confrontado com provas de que a mesma pessoa, com o mesmo email, fez – mais tarde - outra denúncia comprovadamente falsa, o IndieLisboa recusou-se a assumir o erro, e limitou-se a eliminar, silenciosamente, a possibilidade de o seu comunicado incendiário aparecer em pesquisas nos motores de busca”.
No comunicado divulgado publicamente pelo IndieLisboa, referindo o cancelamento dos filmes onde participava Ico Costa, o festival considerou que a situação exigia “integridade e responsabilidade social”. Assumindo serem “profundamente sensíveis a denúncias de violência” e terem “consciência de que o contexto social e legal da violência de género é, muitas vezes, revitimizante na forma como trata quem denuncia”.
Desta forma, para David Silva Ramalho, foi atribuída credibilidade a uma alegação que não tinha fundo de verdade e mesmo que o IndieLisboa tenha admitido emitir novos comunicados no fim das investigações à violência doméstica, parece ter-se esquecido, que não se pode esperar pelo fim de algo que nunca começou. A defesa de Ico Costa desconhece, por completo, a existência de um processo contra Ico Costa por suspeita de violência doméstica.
“Ficamos a saber, portanto, que para se excluir alguém da competição, talvez para sempre, basta que se crie um email anónimo e se apresente uma denúncia, que o IndieLisboa tomará medidas imediata e irrefletidamente”, lamenta o advogado à CNN Portugal, escusando abordar mais pormenores sobre o caso.