O presidente dos EUA passou os últimos dias a tentar deitar água na fervura após a morte de Alex Pretti, um cidadão norte-americano abatido com dez tiros por agentes do ICE em Minneapolis no sábado, antes de voltar a endurecer o discurso. As críticas à atuação da agência federal vêm de todos os lados e os resultados podem ser desastrosos para a administração e para os republicanos nas intercalares de novembro
A morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti, de 37 anos, às mãos de dois agentes federais em Minneapolis no sábado foi a gota d'água que vai, finalmente, fazer transbordar o copo da estratégia anti-imigração de Donald Trump? Há indícios que apontam nesse sentido.
“Não há dúvida de que, após a morte de Alex Pretti, os republicanos e o governo federal, especialmente Donald Trump, estão a perceber que isto não está a ser bem recebido pelo público americano”, ressalta à CNN David Schultz, professor de Ciência Político e Estudos Jurídicos na Universidade de Hamline, no Minnesota. “Inquéritos de opinião pública sugerem que a maioria dos americanos acredita agora que o ICE tem de ser abolido ou alvo de uma significativa reforma em termos das táticas que utiliza. Embora Trump se tenha candidatado com uma plataforma de políticas de imigração mais duras, as evidências indicam que o público não apoia a abordagem atual.”
Num aparente recuo, o presidente dos EUA disse na terça-feira à Fox News que vai “diminuir um pouco a tensão” em Minneapolis, já depois de ter contradito Stephen Miller, um dos seus principais conselheiros e o arquiteto das duras políticas anti-imigração em vigor. Isso aconteceu no dia a seguir a uma reunião de duas horas entre o presidente e Kristi Noem, a sua secretária de Segurança Interna, a quem tinha dado toda a latitude para destacar três mil elementos da agência de imigração (ICE) para Minneapolis-St. Paul, as famosas cidades-gémeas que compõem a capital do Minnesota.
No final dessa reunião, Trump anunciou a retirada imediata de Gregory Bovino, o rosto das ações do ICE no coração do estado de tendência democrata, famoso pela sua “distinta estética” inspirada nos nazis e que Noem nomeara para liderar as operações da agência na cidade. Com a saída de Bovino, o ICE passou para a supervisão de Tom Homan, conhecido como o “czar da fronteira”, que ontem mostrou disponibilidade para retirar parte dos seus agentes de Minneapolis sob a condição de as autoridades estatais e locais colaborarem com as operações federais em curso.
“Trump está a fazer o que faz sempre, que é levar as coisas ao extremo e depois culpar outros e atirá-los para debaixo do autocarro, no caso Noem e Bovino”, diz à CNN Manuel Serrano, analista de política internacional. “Desta vez percebeu, tal como no plano internacional, que quando as medidas são extremas as reações são adversas, e agora está a ser questionado pelo poder atribuído ao ICE, pela escolha de Noem para secretária de Segurança Interna e pela liberdade toda que foi dada ao ICE.”
No dia em que Trump se reuniu com Noem, um dos media conservadores mais proeminentes dos EUA, a The National Review, argumentou que “qualquer esperança de que a presidência Trump consiga sair do buraco em que se meteu começa com a demissão de Kristi Noem” – classificada pela revista como “o maior desastre desta administração no seu primeiro ano” de mandato.
Foi uma pedrada no charco que mereceu destaque em vários jornais da direita à esquerda e que, para David Schultz, mostra a magnitude do volteface. “A National Review é uma voz de tendência republicana a argumentar que um ponto de partida seria Trump demitir Kristi Noem, o que seria uma jogada politicamente inteligente", ressalta em resposta por email. "Trump construiu a sua imagem em torno da frase ‘está demitido’, e este pode ser um daqueles momentos em que esse instinto o pode servir.”
Depois da transferência de Bovino, “há indícios de que Trump pode estar a repensar as suas estratégias de uma forma mais ampla”, adianta Schultz. Com os membros da administração federal num aceso jogo de culpas, continua a ser uma incógnita se Noem vai mesmo ser despedida. Certo é que “a política e a imagem do que aconteceu em Minneapolis não estão a ajudar o Partido Republicano, principalmente aqui no Minnesota”, adianta o especialista. "Os republicanos acreditavam ter uma boa chance de vencer o governo estadual [em novembro], porque Walz está envolvido em controvérsias de fraude. Mas as atividades do ICE parecem ter fechado essa janela de oportunidade. O que parecia ser uma vantagem tornou-se um problema para o Partido Republicano."
Acusando a administração Trump de estar a "usar o dinheiro dos contribuintes como uma arma para matar cidadãos americanos", o líder dos democratas na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, avisou esta semana que, se o presidente não despedir Noem "imediatamente", a oposição avançará com um processo para a destituir. Stephen Miller, que passou de acusar Pretti de querer "massacrar" agentes federais a acusar Noem e a sua equipa de "possível quebra de protocolo" em Minneapolis, "também tem de sair", acrescentou Jeffries.
“Uma mudança subtil, mas importante”
Stephen Collinson, da CNN Internacional, ressaltava na quarta-feira que “o tom que o presidente está a mudar quanto ao Minnesota é o tom que ele próprio estabeleceu”, numa “façanha de escapismo político” notável, após a alocação de culpas a outros que não ele próprio. Nesse sentido, não seria surpreendente que o próximo passo fosse o despedimento de Noem. Mas mesmo isso poderá não ser suficiente para virar a maré a favor do Partido Republicano a nove meses das eleições.
Talvez mais inesperada do que ter uma publicação conservadora de renome a pedir a demissão de Noem foi a postura assumida por vários grupos e associações de lóbi pró-armas, à cabeça a poderosa National Rifle Association (NRA), no rescaldo da morte de Pretti. À falta de argumentos para defender as ações do ICE no caso do enfermeiro de cuidados intensivos, que tinha licença de porte de arma, a administração Trump foi rápida a invocar o facto de ele estar armado, representando por isso uma ameaça aos agentes federais. E o argumento não caiu bem junto dos defensores da 2.ª Emenda.
Questionado pelos jornalistas se Pretti estava no seu direito de transportar a arma de fogo que detinha legalmente (e que, mostram vídeos captados no local, lhe foi retirada do corpo antes de ser baleado dez vezes pelos agentes do ICE), Trump disse que ele “certamente não deveria levar consigo uma arma”. Sobre a mesma questão, Bovino disse que o porte de arma não é aceitável quando se “obstrui e bloqueia agentes da lei”. E Kash Patel, diretor do FBI, adiantou: “Ninguém que queira ser pacífico aparece num protesto com uma arma de fogo e dois carregadores cheios.”
Os comentários foram “claramente equivocados e errados”, reagiu à CNN Dudley Brown, presidente da Associação Nacional para o Direito às Armas, dizendo que transportar armas para um protesto pode, na verdade, ser um “dever moral”. “Podemos absolutamente andar armados e absolutamente protestar pacificamente estando armado”, adiantou ao canal Erich Pratt, vice-presidente do grupo Gun Owners of America. Sem responder a pedidos de comentário da CNN, a NRA escreveu na rede social X: “Vozes públicas responsáveis deveriam aguardar uma investigação completa, em vez de fazer generalizações e demonizar cidadãos cumpridores da lei.”
Desde julho, agentes do ICE dispararam tiros durante detenções ou durante protestos contra as suas operações em 16 ocasiões diferentes – e em todas, incluindo no rescaldo das mortes de Pretti e de Renee Good, outra cidadã norte-americana morta a tiro por agentes do ICE na mesma cidade e em circunstâncias semelhantes, a administração Trump declarou publicamente que as ações da agência eram “justificadas” sem aguardar a conclusão de quaisquer investigações.
“Esse é um ponto de pressão muito interessante, porque a questão da 2.ª Emenda, sobre o direito ao porte de armas, é muito importante para a base de apoio de Trump, do movimento MAGA”, ressalta Manuel Serrano, em referência a uma das três emendas constitucionais que o governo federal é acusado de violar no Minnesota – a par da 4.ª Emenda, que proíbe buscas a casas sem mandados judiciais, e da 10.ª, relacionada com a autonomia e os poderes dos estados federados.
O tiroteio que matou Pretti e as declarações oficiais subsequentes “alienaram uma parte da NRA e dos defensores do direito às armas” e isso “cria a possibilidade de uma mudança política subtil, mas importante”, adianta David Schultz. “Alguns proprietários de armas podem não votar nos democratas, mas podem deixar de apoiar os republicanos que não condenarem as táticas de Noem e de Stephen Miller. E mesmo deserções marginais podem fazer a diferença em distritos disputados.”
“Um cenário político alterado”
Tudo aponta que a estratégia federal em Minneapolis terá impacto nas eleições intercalares de novembro. Como aponta Schultz a partir de St. Paul, 'cidade-gémea' de Minneapolis, “após um ano da presidência Trump, começamos a ver alguns republicanos a discordarem das táticas usadas pelo ICE e a descreverem a agência como estando fora de controlo”. E o presidente está atento.
Sempre de olho nas redes sociais e nos canais de notícias, em poucos dias Trump não só afastou Bovino e encostou Noem às boxes, como pareceu estender um ramo de oliveira aos líderes democratas do Minnesota, incluindo o governador, Tim Walz, e o autarca de Minneapolis, Jacob Frey, aceitando o pedido de ambos para que retire uma parte dos agentes do ICE da cidade.
Ao final desta quarta-feira, numa nova reviravolta, o presidente pareceu voltar atrás com a promessa de "reduzir a tensão" e avisou Frey de que "está a brincar com o fogo" por se recusar a cooperar com as autoridades federais, perante notícias de que os agentes responsáveis pela morte de Pretti foram colocados em licença administrativa.
No mesmo dia, jornalistas da Associated Press foram impedidos por agentes do ICE de fazer o seu trabalho no terreno - e a CNN noticiou que Pretti teria sido agredido por agentes federais que lhe partiram algumas costelas e inseriram o seu nome numa base de dados, o que o teria tornado um "alvo". Contactado por vários media, o Departamento de Segurança Interna disse não ter registo dessa altercação; horas depois, a CNN e outros tiveram acesso às imagens da agressão, que tiveram lugar 11 dias antes do tiroteio fatal.
“A tragédia e o caos que o país está a testemunhar em Minneapolis são chocantes – os agentes do ICE não têm carta branca para exercer as suas funções", defendeu a senadora republicana do Alasca, Lisa Murkowski, tida como moderada e uma das poucas dentro do partido disposta a criticar abertamente Trump desde o seu regresso ao poder. E não foram apenas os moderados do partido do presidente a condenar as ações recentes.
"Há sérias questões sem resposta sobre o uso da força federal no Minnesota”, defendeu o deputado Max Miller, do Ohio, ex-conselheiro de Trump. “Transparência e responsabilização são essenciais.” Andrew Garbarino, de Nova Iorque, que preside ao comité de Segurança Interna da Câmara dos Representantes, pediu uma “investigação completa” ao tiroteio que vitimou Pretti, invocando “a importante responsabilidade do Congresso de garantir a segurança das forças policiais e das pessoas que elas servem e protegem.” Mais longe foi o senador da Carolina do Norte, Thom Tillis, que juntamente com Murkowski exigem a demissão de Noem.
Os dois tiroteios, que vitimaram Pretti e Good, “alteraram claramente o cenário político e tornaram ainda mais difícil para os republicanos manterem a Câmara dos Representantes nas eleições intercalares – quando as tendências históricas já eram desfavoráveis ao partido no poder”, defende Schultz à CNN. “Somado aos baixos índices de aprovação do presidente e à insatisfação pública com a sua gestão da economia, o problema complica ainda mais as perspetivas republicanas.”
“Trump já percebeu que isto está a cair mal junto de muitos americanos, de muitos republicanos, de muitos podcasts que o apoiavam, como Joe Rogan, que veio dizer que o ICE parece a Gestapo”, acrescenta Manuel Serrano. “No fundo, saiu-lhe o tiro pela culatra, mas agora é preciso esperar para ver se os republicanos vão ter espinha dorsal para agir. Acho relevante que senadores e representantes de estados pró-Trump tenham criticado o que se passa. Se vão ganhar coluna vertebral de um dia para o outro? Duvido. Mas vão fazer cálculos, sobretudo se estiverem diante de eleições difíceis e, no limite, afastar-se-ão de Trump mas sem que isso lhes seja imputado.”
Paralisação evitada
Com uma parte dos legisladores republicanos a assumir uma postura crítica em relação aos acontecimentos em Minneapolis e a Kristi Noem, ao final de quinta-feira os dois partidos chegaram a um acordo para evitar uma nova paralisação do governo.
No sábado, horas depois da morte de Pretti e dias depois de um punhado de democratas ter votado com os republicanos da Câmara para renovar o gordo orçamento do ICE, o partido da oposição tinha anunciado que ia chumbar os projetos-lei de financiamento do Departamento de Segurança Interna que previssem mais dinheiro para a agência anti-imigração sem reformas estruturais.
Essa votação terá lugar hoje mas a iminente paralisação foi evitada à última hora, noticiou a CBS News, após os democratas terem aceitado dar luz verde ao financiamento sob o compromisso de dar continuidade às negociações dessas reformas, alcançado horas depois de terem apresentado uma lista de exigências para financiar o DSI, incluindo o uso obrigatório de câmaras corporais por agentes do ICE, a proibição do uso de máscaras no terreno, a proibição de "patrulhas móveis" e regras mais rígidas para mandados judiciais. Há um ano, foi revelado esta semana, a própria administração Trump cortou o financiamento a câmaras corporais para agentes federais e reduziu a sua supervisão, que está a cargo do governo federal.
Antes do acordo, Manuel Serrano destacara o peso de algumas senadoras republicanas, nomeadamente Murkowski, do Alasca, e Susan Collins, do Maine, esta última presidente da comissão de apropriações do Senado e o seu “enorme poder para bloquear a atribuição de fundos", algo que poderia "ter impacto num momento importante". E isso continua a ser válido, sobretudo se algo levar ao colapso do acordo. Talvez Kristi Noem não ser despedida, como pedem Murkowski e outros?
Em última instância, considera Serrano, “Trump vai continuar a fazer o que quer, porque ninguém no Partido Republicano tem a coragem de ir contra ele", o que não invalida que se "preste atenção a alguns legisladores republicanos, sobretudo à senadora Collins – agora que no Maine já estão a começar a acontecer coisas semelhantes às que têm acontecido em Minneapolis com o ICE e as operações anti-imigração”.
"Creio que a questão mais interessante", conclui o especialista, "é que Trump já percebeu que não pode fazer o que lhe apetece, nem interna nem externamente. Só que o controlo, infelizmente, não deverá vir dos próprios republicanos." E isso pode valer-lhe duras derrotas - se não agora, daqui a nove meses.