Uma investigação que o ativista Gabar Choli foi alimentado à força de forma intermitente durante quase oito meses, entre o final de maio de 2025 e janeiro deste ano
Gabar Choli, um cineasta e ativista curdo de 40 anos, diz ter sido submetido durante meses a alimentação forçada enquanto estava detido pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE), nos Estados Unidos. Em greve de fome durante mais de dois meses, Choli afirma que os guardas o imobilizavam e levavam à enfermaria, onde lhe introduziam repetidamente um tubo pelo nariz até ao estômago para lhe administrarem líquidos nutritivos.
“Dois guardas seguravam-me nos pés, outros dois nas mãos e um na cabeça e enfiavam-me tubos pelo nariz”, contou Choli, recordando um dos episódios. “Não é fácil ser imobilizado no chão duas vezes por dia por homens mais fortes do que nós. E simplesmente temos de suportar. São 60 centímetros de tubo a atravessar-nos o corpo e sentimos cada centímetro.”
Segundo o seu relato e documentos judiciais analisados pelo The Guardian, as sessões chegaram a acontecer duas vezes por dia.
A investigação do mesmo jornal concluiu que Choli foi alimentado à força de forma intermitente durante quase oito meses, entre o final de maio de 2025 e janeiro deste ano, altura em que foi deportado para o Canadá. Durante esse período, terá sofrido hemorragias no nariz, problemas nos seios nasais, lesões no esófago, complicações no estômago e sofrimento psicológico.
“Percebi que era necessário lutar por aquilo que era justo”, afirmou Choli, numa conversa telefónica com o Guardian. “Fui respeitador. Disse-lhes apenas que estava a protestar por um tratamento humano, nada mais. Mas estavam determinados a quebrar-me”, contou.
Especialistas médicos ouvidos pelo The Guardian classificaram o procedimento como extremamente doloroso e traumático. Chanelle Diaz, médica e professora na Universidade de Columbia, considerou que o caso “provavelmente equivale a tortura”.
"Isso destruiu-me. Destruiu-me mentalmente”, descreveu Choli, ainda em choque. Depois das sessões, o ativista contou que o levavam para uma cela de isolamento. "Eu ficava simplesmente a engasgar-me com o meu próprio sangue, chegando a engoli-lo”.
O cineasta estava retido no centro de processamento de Port Isabel, no sul do Texas, depois de ter sido detido pelo ICE em fevereiro de 2025. O também ativista chegou a viver no Canadá, onde trabalhou pela independência do Curdistão. Em 2022, atravessou a fronteira para os EUA para pedir asilo. O pedido foi rejeitado em 2024, embora um juiz lhe tenha concedido proteção contra a deportação para o Irão.
Depois de ser detido, Choli afirma ter sido pressionado por funcionários do ICE para assinar uma ordem de deportação para o Irão, o que recusou. Começou então a greve de fome, em 24 de março de 2025, como forma de protesto contra as condições de detenção e o tratamento do seu processo de imigração.
Durante a greve, o ICE recorreu aos tribunais para obter autorização para tratamentos médicos involuntários. Um juiz federal autorizou a alimentação forçada e prolongou posteriormente as ordens. Choli não tinha advogado durante o período de detenção e o pedido que fez para lhe ser atribuído um defensor foi recusado pelo tribunal.
O Departamento de Segurança Interna norte-americano afirmou que o ICE respeita o direito de uma pessoa recusar tratamento médico quando apropriado, mas pode pedir autorização judicial para intervenções involuntárias quando exista um risco grave de morte ou danos permanentes. Entre janeiro de 2025 e 4 de agosto de 2026, o ICE obteve, segundo fontes do departamento, ordens judiciais para tratamento involuntário de 18 pessoas em greve de fome.
Gabar Choli acabou por ser deportado para o Canadá a 6 de janeiro, onde se reencontrou com os irmãos. No dia seguinte. “O preço da greve de fome foi a minha vida”, lamentou, acrescentando que pretende falar sobre o que viveu para ajudar outras pessoas detidas pelo ICE.
