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Este casal tentou comprar um iate de luxo e acabou com um barco cheio de mofo. Agora, é a sua casa flutuante

CNN , Tamara Hardingham-Gill
15 mar, 17:00
Janis e Blaine Carmena (Onboard Tangaroa)

Apesar da aparência da embarcação, o casal sentiu uma atração imediata - sabiam que eram “as pessoas certas” para assumi-la

Janis e Blaine Carmena não pretendiam voltar à vida no mar quando encontraram um iate de 23 metros a motor abandonado, que se tornaria a sua nova casa enquanto navegavam por anúncios classificados.

O casal canadiano - que se conheceu enquanto trabalhava num iate de luxo há cerca de duas décadas - há muito que tinha trocado as travessias oceânicas pela vida em terra.

Casaram-se em 2002, criaram dois filhos e construíram novas carreiras, com Janis a trabalhar como agente da polícia e Blaine a gerir uma empresa de construção e personalização de carros de alta performance.

“Foi uma mudança bastante extrema para nós”, admite Blaine.

Mudança extrema

Janis e Blaine, que anteriormente trabalhava como engenheiro, realizaram grande parte do trabalho de renovação por conta própria. A bordo do Tangaroa

Tudo mudou em 2019, quando Blaine encontrou a embarcação, então chamada Wind Barker - um iate de alumínio de 1969 construído pelo estaleiro Stephens Bros. em Stockton, Califórnia - enquanto procurava no YachtWorld, um mercado marítimo para compra e venda de barcos e iates.

Intrigados com o que descrevem como um “barco bonito” com “linhas clássicas”, os dois voaram de desde casa em Victoria, na Colúmbia Britânica, para Wragnell, no Alasca, para vê-lo pessoalmente.

O que encontraram estava longe da descrição impecável do anúncio online.

“Eu pensei: “Este não é o mesmo barco que aparece nas fotos. Não é possível”, lembra Janis. A embarcação estava “coberta por uma lona” e estava “destruída”, diz - “coberta de mofo preto”, sem “luzes funcionando” nem aquecedores.

“Estava literalmente presa ao fundo do mar com algas e mexilhões.”

Apesar da aparência da embarcação, o casal sentiu uma atração imediata - sabiam que eram “as pessoas certas” para assumi-la.

Embora não tivessem intenção de voltar a “viver na água”, Janis, que foi diagnosticada com TEPT (Transtorno de stress pós-traumático) há alguns anos, explica que sentiu que voltar a morar num barco seria melhor para o seu bem-estar.

“Depois de 20 anos em terra firme e com carreiras, era como se 'isso já não fosse mais divertido'”, acrescenta, admitindo que a vida tinha sido “solitária” e que sentia falta da “sensação de paz” que vinha de estar no oceano.

“Acho que foi uma espécie de destino”, acrescenta. “Acho que éramos loucos, mas a embarcação precisava de pessoas como nós, que sabiam o que fazer com ela e podiam consertá-la.”

Um projeto enorme

A embarcação estava “coberta por uma lona” e estava “destruída” quando a recolheram no Alasca em 2019, diz Janis. A bordo do Tangaroa

Ofereceram 200 mil dólares canadianos, cerca de 127 mil euros na época - significativamente abaixo do preço pedido. A oferta foi inicialmente rejeitada, mas o vendedor acabou por aceitar.

“Então pensámos: “Meu Deus, em que é que nos metemos?...”“, diz Janis. “Este barco é enorme e nós não somos milionários. Mas sabíamos que poderíamos consertá-lo e que poderíamos fazer tudo sozinhos.”

Assim que a venda foi finalizada, Blaine voltou ao Alasca para preparar a embarcação para um teste no mar. Em dezembro de 2019, o casal voltou para buscar o seu novo barco, agora rebatizado de Tangaroa, em homenagem ao deus maori do mar.

“Depois de três dias a bordo, sem saber muito sobre o barco, trouxemo-lo de volta”, explica Janis, observando que algumas pessoas acharam que eles “foram um pouco tolos” ao tentar a viagem, dado que “os motores não funcionavam há muito tempo”.

A confiar nas suas experiências - Blaine como engenheiro e Janis como imediata (função abaixo do comandante) -, completaram a viagem até ao Canadá em dez dias e começaram a transformar o iate numa casa para eles e os filhos, Josh e Izzie.

A sua primeira prioridade era tornar o barco habitável. Enquanto instalavam aquecedores, continuavam a viver em casa, em Victoria, durante a semana, e dormiam num colchão no salão principal do iate aos fins de semana, “porque era o único lugar que tinha aquecimento”.

Quando as condições melhoraram e os filhos terminaram o ano letivo, a família mudou-se definitivamente para o barco.

Nos anos seguintes, Janis e Blaine enfrentaram uma longa lista de projetos - instalar sistemas solares e de baterias, reparar o casco, reformar o interior e lidar com a corrosão inesperada na área superior do convés traseiro.

“Viver na água”

O filho do casal, Josh, é visto a ajudar a desmontar a cozinha. A bordo do Tangaroa

Também removeram a tinta do casco, um trabalho tão grande que acabaram por contratar ajuda externa.

Entretanto, lançaram um canal no YouTube, The Never-Ending Sea Trial, sobre o seu projeto. Publicaram o primeiro vídeo em outubro de 2020 e rapidamente conquistaram seguidores dedicados.

“Nós apenas fazemos o que fazemos normalmente, mas colocamos no YouTube e transformamos numa história”, conta Blaine. “E muitas pessoas dizem que gostam disso, porque somos genuínos.”

Quando as primeiras viagens revelaram que os motores a diesel consumiam cerca de 10 galões de combustível por hora (cerca de 38 litros), realizaram uma grande revisão do sistema de energia, reduzindo o consumo para 4,5 galões por hora (cerca de 17 litros) com a instalação de novos motores.

“Quando fizemos a repotenciação, foi um grande impulso para o canal”, explica Blaine. “Isso proporcionou um enorme aumento na audiência.

As pessoas realmente gostam de coisas relacionadas com remodelação. Então, ficámos no estaleiro por quatro, cinco meses a trabalhar nos motores e ganhámos muitos assinantes.”

O casal afirma que está muito mais feliz “vivendo na água” e sente-se em paz. A bordo do Tangaroa

O sucesso online proporcionou rendimentos suficientes para Blaine deixar os empregos em julho. Embora tenham garantido patrocínios, dizem que são cautelosos quanto às parcerias que fazem, porque “é muito difícil não parecer que estamos a vender-nos”.

Hoje, o Tangaroa continua visivelmente desgastado - algo que o casal aceita. Apesar de terem gasto cerca de 200 mil dólares canadianos em renovações, Blaine diz que o barco ainda se destaca dos iates reluzentes em que trabalhavam antes.

“Se atracássemos numa marina em Fort Lauderdale, na Flórida, seríamos os estranhos no ninho”, afirma Blaine, especulando sobre as reações do tipo “o que estão a fazer aqui?” que provavelmente receberiam dos espectadores. “E eu adoro isso.”

Houve algumas melhorias. Depois de fazerem a sua primeira grande viagem para Princess Louisa, um fiorde na Sunshine Coast da Colúmbia Britânica, em 2020, e mais tarde navegarem de volta para o Alasca, Janis e Blaine começaram a discutir maneiras de tornar a sua embarcação menos impactante - reduzindo o ruído para causar menos impacto na vida marinha, como as baleias.

Desde então, começaram o processo de transformar o Tangaroa num barco elétrico híbrido - instalaram um banco de baterias que lhes permitirá mudar de diesel para elétrico e navegar silenciosamente por várias horas seguidas. Também estão a fazer melhorias cosméticas no interior, com novos trabalhos em madeira. A sala de máquinas agora está “imaculada”.

Atualização híbrida

Rebatizaram o navio de Tangaroa, em homenagem ao deus maori do mar. A bordo do Tangaroa

“Quando terminarmos esta repotenciação, será como um iate novinho em folha”, aponta Blaine.

No entanto, o exterior “áspero” do Tangaroa permanecerá como está no futuro próximo. O casal tem pouco interesse em pintar o exterior, apontando que “manter a pintura é um saco” e que prefere concentrar as suas energias em viagens de exploração.

“Talvez o polamos um pouco mais, mas nunca será um barco do tipo ‘vamos ao Miami Boat Show para ver barcos bonitos’”, refere Blaine. "Não ter que se preocupar com tinta arranhada ou qualquer risca dá-lhes “muita liberdade”, acrescenta.

O casal diz que muitas vezes é reconhecido nos portos por pessoas que acompanham a sua história nas redes sociais, com algumas até visitando-os a bordo para tomar uma cerveja.

“Onde quer que viajemos, somos reconhecidos, o que é muito estranho, porque somos apenas duas pessoas normais”, recorda Janis.

Após vários anos a viver novamente num barco, ambos dizem que estão muito mais felizes e não conseguem imaginar voltar à “vida normal”.

“Há algo especial em viver na água”, acrescenta Janis. “Os sons e a vida selvagem ao redor do mar...

“Atracar nos portos e ir a uma praia onde as pessoas caminham há séculos, e então poder lançar uma vara de pesca ao mar... É uma vida libertadora. É uma vida simples.”

A filha ainda mora a bordo com o casal, juntamente com a cadela Maggie, enquanto o filho voltou para a “terra firme”.

Refletindo sobre a decisão de comprar o barco há pouco mais de seis anos, o casal diz que não tem absolutamente “nenhum arrependimento”.

“Tem sido uma grande curva de aprendizado”, diz Janis. “Tem sido divertido.”

Atualmente, estão a planear a sua próxima grande viagem e pretendem partir ao pôr do sol “assim que a embarcação estiver híbrida elétrica”, regressando a Wrangell antes de seguirem para as Ilhas Aleutas, atravessando para o Japão e, mais tarde, rumando às Filipinas, Indonésia e, depois, Austrália.

Janis e Blaine esperam viver cada vez mais aventuras a bordo do Tangaroa no futuro, enfatizando que estão determinados a aproveitar o dia em vez de esperar pelo momento perfeito.

“Se esperares até que a tua vida esteja perfeita, ou o teu barco esteja perfeito, nunca sairás do cais...”, aconselha Janis. “Ou nunca farás o que queres fazer, porque pode não haver um amanhã... A vida não é garantida.”

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