Sistema de inteligência artificial venceu concurso de arte e os artistas estão furiosos

CNN , Rachel Metz
10 set, 13:00


Em agosto, a peça de Jason M. Allen"Théâtre D'opéra Spatial" - que criou com o gerador de imagens de IA Midjourney - conquistou o primeiro lugar na categoria "artes
digitais/fotografia manipulada digitalment" da divisão de artistas emergentes no Concurso de Belas Artes da Feira Estadual do Colorado (Foto: Jason Allen via CNN)

Jason M. Allen estava quase demasiado nervoso por entrar na sua primeira competição de arte. Agora, a sua imagem premiada está a gerar controvérsia sobre se a arte pode ser gerada por computador e o que significa exatamente ser artista.

Em agosto, Allen, um designer de jogos que vive em Pueblo West, no Colorado, conquistou o primeiro lugar na categoria "artes digitais/fotografia manipulada digitalmente" da divisão de artistas emergentes no Concurso de Belas Artes da Feira Estadual do Colorado. A sua imagem vencedora, intitulada "Théâtre D'Opéra Spatial" (francês para "Teatro da Ópera Espacial) foi feita com o Midjourney - um sistema de inteligência artificial (IA) que consegue produzir imagens pormenorizadas quando recebe comandos escritos. A vitória veio acompanhada por um prémio de 300 dólares. 
 
"Estou fascinado por este imaginário. Adoro. E acho que todos deveriam vê-lo", disse Allen, de 39 anos, em entrevista à CNN. A imagem vencedora de Allen assemelha-se a uma mistura brilhante e surreal entre uma pintura renascentista e uma steampunk. É uma das três imagens com que ele participou na competição. No total, onze pessoas forneceram 18 peças de arte para a mesma categoria na
divisão de artistas emergentes. 
Em agosto, a peça de Jason M. Allen "Théâtre D'opéra Spatial" - que criou com o gerador de imagens de IA Midjourney -conquistou o primeiro lugar na categoria "artes digitais/fotografia manipulada digitalmente" da divisão de artistas emergentes no Concurso de Belas Artes da Feira Estadual do Colorado.

Na definição para a categoria em que Allen concorreu lê-se que a arte digital se refere a obras que utilizam "tecnologia digital como parte do processo criativo ou de apresentação".  Allen afirmou que o Midjourney foi utilizado para criar a sua imagem quando entrou no concurso.

A Midjourney faz parte de um número crescente de geradores de imagem de IA - outros incluem Imagen da Google Research e DALL-E 2 da OpenAI. Qualquer pessoa pode usar o Midjourney via Discord, enquanto o DALL-E 2 requer um convite, e a Imagen não foi disponibilizada a utilizadores fora da Google. A novidade destas ferramentas, a forma como são utilizadas para produzir imagens, e, em alguns casos, o controlo do acesso a algumas das mais complexas gerou debates sobre se podem realmente fazer arte ou ajudar os humanos a fazer arte. Isso fez com Allen tivesse muito destaque pouco tempo após a sua vitória.

Empolgado, Allen fez uma publicação sobre a sua vitória no servidor Discord do Midjourney a 25 de agosto,juntamente com fotos das suas três entradas; tornou-se viral no Twitter dias depois, com muitos artistas irritados com a vitória de Allen devido à utilização de IA para criar a imagem, segundo uma reportagem na rubrica Motherboard da Vice, do início desta semana. 
 
"Isto é horrível pela mesma razão pela qual não deixamos os robôs participarem nos Jogos Olímpicos", escreveu um utilizador no Twitter. "Esta é a definição literal de 'pressionou uns botões para fazer uma peça de arte digital'", lia-se noutro tweet. "A IA é agora a 'banana colada à parede' do mundo digital".
 
 
 
No entanto, apesar de Allen não ter utilizado um pincel para criar a sua peça vencedora, houve bastante trabalho envolvido, afirmou. "Não é como se estivesse a juntar palavras aleatoriamente e a ganhar competições", disse. Podemos inserir uma frase como "uma pintura a óleo de um morango zangado" no Midjourney e receber várias imagens do sistema de IA em segundos, mas o processo de Allen não foi assim tão simples. Para conseguir as três últimas imagens com que entrou na competição, demorou mais de 80 horas, afirmou. 
Primeiro, disse ele, brincava com frases que levavam o Midjourney a gerar imagens de mulheres com vestidos rodados e capacetes espaciais - estava a tentar misturar o estilo vitoriano com temas espaciais, disse. Ao longo do tempo, com muitos pequenos ajustes nos
comandos escritos (como ajustes na iluminação e na harmonia de cores), criou 900 iterações do que levou às suas três últimas imagens. Limpou aquelas três imagens no Photoshop, como, por exemplo, dando a uma das figuras femininas na sua imagem vencedora uma cabeça com cabelo ondulado e escuro depois de o Midjourney lhe ter removido a cabeça. Depois, passou
as imagens por outro software chamado Gigapixel AI que pode melhorar a resolução e mandou imprimir as imagens em tela numa gráfica local. 
 
Allen está satisfeito por o debate sobre se a IA pode ser utilizada para fazer arte estar a gerar tanta atenção. "Em vez de odiarmos a tecnologia ou as pessoas por detrás dela, temos de reconhecer que é uma ferramenta poderosa e utilizá-la para o bem, para que possamos todos avançar, em vez de ficarmos amuados com isso", afirmou Allen.
 
Cal Duran, um artista e professor de arte que foi um dos jurados do concurso, disse que enquanto a peça de Allen incluía uma menção ao Midjourney, ele não se apercebeu de que era gerada por IA ao avaliá-la. Ainda assim, mantém a sua decisão de lhe atribuir o primeiro lugar na categoria, afirmou, chamando-lhe uma "bela peça". 
 
"Acho que há muitos elementos envolvidos nesta peça e penso que a tecnologia de IA pode dar mais oportunidades a pessoas que podemos não considerar artistas da forma convencional", disse. Allen não revela ainda o comando de texto que esteve por detrás da sua imagem vencedora - tenciona mantê-lo em segredo até publicar um trabalho relacionado mais extenso que espera que esteja terminado mais para o final do ano.

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