A próxima grande discussão sobre IA ao nível dos conteúdos pode não ser tecnológica, mas sim económica. Muito se debate sobre inteligência artificial em torno da produtividade, do emprego, dos direitos de autor ou da qualidade dos modelos, mas existe uma questão igualmente relevante e que ainda recebe pouca atenção.
Num mundo de conteúdos gerados por I.A e resumos que retiram tráfego às fontes originais, quem terá incentivo para continuar a produzir conteúdo humano original?
O contrato invisível da internet
Durante mais de três décadas a internet funcionou com um equilíbrio relativamente simples. Milhões de pessoas, empresas, jornalistas, especialistas, criadores e organizações produziam conteúdos e em troca recebiam algo de valor:
- atenção
- notoriedade
- reputação
- audiência
- influência;
- oportunidades de negócio
- publicidade
- retorno financeiro pelo tráfego
- ou simplesmente reconhecimento
Os motores de busca e as redes sociais foram funcionando como intermediários deste ecossistema. Tinham um enorme poder, mas existia uma lógica relativamente equilibrada: ajudavam os utilizadores a descobrir conteúdos e devolviam tráfego às suas fontes.
A Google mostra(va) links.
Os agregadores mostra(vam) links.
O Facebook distribuía links.
No final, o utilizador chegava normalmente à origem.
Era esse fluxo de atenção que alimentava economicamente grande parte da Web.
Um paradoxo pouco discutido
Hoje assistimos a um fenómeno curioso. O tempo disponível dos utilizadores não cresce significativamente. Ninguém ganhou mais horas por dia. A atenção continua a ser um recurso escasso. Mas, ao mesmo tempo, o número de criadores continua a aumentar.
Nunca houve tantos:
- youtubers
- podcasters
- autores de newsletters
- criadores de TikTok
- streamers
- bloggers
- especialistas a partilhar conhecimento.
E agora surge uma nova vaga impulsionada pela IA. Ferramentas que permitem criar texto, vídeo, imagem, áudio e software com uma rapidez nunca antes vista. A oferta de conteúdo continua a aumentar muito mais depressa do que a procura, o que significa que a competição pela atenção será cada vez maior…
…e naturalmente a remuneração média de quem cria tende a tornar-se mais difícil.
A mudança trazida pela IA
A inteligência artificial introduz uma alteração importante neste equilíbrio. Pela primeira vez, o intermediário não precisa apenas de encaminhar o utilizador para a fonte. Pode responder diretamente. Em muitos casos, a resposta é suficientemente boa para que o utilizador nunca visite a origem. Do ponto de vista da experiência do utilizador, isto representará um passo adicional que deixa de executar, ficando-se pela resposta resumida. Do ponto de vista económico, no médio & longo-prazo, levanta questões novas.
Se o criador deixa de receber:
- visitas;
- interação;
- notoriedade;
- subscrições;
- oportunidades comerciais;
Então uma parte importante do valor gerado deixa de regressar à origem. Não é difícil perceber porque este tema preocupa publishers, meios de comunicação, fóruns especializados e criadores de conteúdo.
Q: então se a IA reduzir os incentivos, deixará de existir conteúdo suficiente para alimentar a própria IA?
Pode não ser o cenário mais provável.
Os seres humanos criam por muitas razões para além do dinheiro:
- identidade;
- estatuto;
- curiosidade;
- pertença;
- expressão pessoal;
- paixão
- …
A internet (utilizadores/criadores) continuará certamente a produzir enormes quantidades de conteúdo. Aliás, provavelmente produzirá mais conteúdo do que nunca.
A questão relevante é outra: que tipo de conteúdo continuará a valer a pena produzir? Pois existe uma diferença enorme entre quantidade e originalidade (o conteúdo que a IA mais necessita).
Grande parte do valor da internet não vem do volume de conteúdo. Vem do conteúdo difícil de produzir.
- Uma investigação jornalística.
- Uma reportagem no terreno.
- Uma análise técnica especializada.
- Uma descoberta científica.
- Uma experiência pessoal genuína.
- Uma comunidade que acumula conhecimento durante anos.
- …
Tudo isto exige:
- tempo;
- investimento;
- especialização;
- experiência humana.
E é precisamente este tipo de conteúdo que alimenta o conhecimento coletivo da internet (do nosso, humano). A IA é extraordinária a organizar, sintetizar e recombinar informação. Mas continua profundamente dependente de alguém gerar informação nova.
O risco de um desalinhamento de incentivos
Não acredito que estejamos perante um cenário apocalíptico. A história mostra que os mercados se adaptam. Novos modelos de negócio surgem. Novos sistemas de remuneração aparecem. Novas formas de distribuição substituem as antigas. Mas isso não significa que não exista um risco. Embora o risco não seja um colapso da internet. O risco é um desalinhamento progressivo entre quem cria valor original e quem captura valor económico.
Designaria a situação de “Colapso de Incentivos”.
Não um desaparecimento da criação. Mas uma erosão gradual dos incentivos para produzir conteúdo humano original, especializado e de elevada qualidade de que toda a internet (incluindo a própria IA) depende.
A inovação precisa de incentivos
Nada disto é um argumento contra a inteligência artificial. Pelo contrário. A IA será uma das tecnologias mais transformadoras da nossa geração. Vai aumentar produtividade. Vai democratizar conhecimento. Vai reduzir barreiras à criação. Vai permitir que indivíduos façam o trabalho que antes exigia equipas inteiras.
Mas precisamente porque acredito no potencial da IA, (e também pessoalmente vou alertando aos seus riscos e perigos!) considero importante que o debate inclua estes incentivos que sustentam o ecossistema onde ela opera.
A questão não é travar a inovação.
A questão é garantir que continua a existir um modelo económico capaz de recompensar quem produz conhecimento novo, experiências novas, investigação nova e criatividade genuinamente humana, garantindo que continua a existir incentivo para criar aquilo de que a própria tecnologia depende para este ciclo se alimentar num flywheel recíproco.
Onde reside essa solução?
De novo, em linha com tudo o resto de que se vai falando: na governança dos sistemas de I.A. e de quem os comanda (por um lado) e de quem determina as regras onde eles operam (pelo outro, como Governos e reguladores locais).
…ou isso, ou quem sabe um dia a internet se torne uma gigantesca máquina de reciclagem de conteúdo, onde milhões de algoritmos leem versões resumidas de versões resumidas de versões resumidas.
Se isso acontecer, talvez os utilizadores acabem por fazer a pergunta mais contraintuitiva da década: “Onde estão os humanos?”
Afinal, a inteligência artificial pode ser extraordinária a encontrar padrões, o problema é que as grandes mudanças da história quase sempre começaram com alguém a pensar algo que nunca tinha sido pensado antes.
