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"Já não é daqui a dois anos, está a acontecer agora": a IA vai mesmo "destruir" vários empregos e "o que estamos a ver é a fronteira do que pode ser o nosso futuro"

7 mar, 09:00
Inteligência artificial e automação (Pexels)

O despedimento em massa na Block desvenda uma realidade obscura do mercado de trabalho: a Inteligência Artificial está a "destruir" empregos e "não são trabalhos quaisquer" - programadores e consultores estão entre as profissões mais vulneráveis à substituição pela tecnologia. Quase um terço dos empregos em Portugal está em "colapso" - mas o potencial de inovação é de tal forma que é provável que surjam "profissões com quem nós nem sonhamos"

A Inteligência Artificial (IA) vai mesmo “destruir” vários empregos, mas também vai complementar outros e até vai ser capaz de criar novas profissões. É esta a perspetiva de especialistas em economia e IA, que afirmam que esta mudança já está a acontecer, mas pode ser ainda mais disruptiva nos próximos anos.

Os despedimentos coletivos em massa anunciados pelas grandes tecnológicas nos últimos meses já faziam prever este cenário, mas o grande alerta surgiu há uma semana, quando o CEO da Block, Jack Dorsey, anunciou publicamente, nas redes sociais, que iria despedir quase metade dos trabalhadores da empresa por causa da IA.

Bernardo Forbes Costa, professor da Nova School of Business and Economics e especialista em ciência de dados e Inteligência Artificial, admite que leu a notícia “com choque”. “Parece que já não é daqui a dois anos, três anos, está a acontecer agora”, diz, referindo-se à ameaça da disrupção da IA no mercado de trabalho.

No anúncio, publicado na sua conta particular na rede social X (antigo Twitter, co-fundado pelo próprio Jack Dorsey), o CEO da Block - empresa por detrás da Square, Cash App, Afterpay, TIDAL, entre outras -  assumia que, “dentro do próximo ano, a maioria das empresas chegará à mesma conclusão e fará mudanças estruturais semelhantes”.

Esta até pode já ser a realidade das gigantes tecnológicas norte-americanas, mas a tendência ainda vai demorar a chegar cá, admitem os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, que contextualizam estes despedimentos em massa com a rápida evolução da IA generativa e o reajuste do mercado de trabalho na área pós-covid.

“Estamos a falar de uma empresa naturalmente do meio da tecnologia”, observa Bernardo Forbes Costa, concretizando que “há uma correlação forte entre o nível de adoção tecnológica de uma empresa e o impacto da tecnologia, em particular da IA”, na sua força laboral. Nesta equação, os mais prejudicados são aqueles que ocupam empregos de nível de entrada - uma ideia que desenvolvemos mais à frente.

Estas empresas tecnológicas “expandiram muito a sua força de trabalho na altura da covid”, quando houve uma “aceleração do negócio online”, complementa Hugo Castro Silva, professor no Instituto Superior Técnico (IST) e especialista em economia do trabalho e inovação tecnológica. “Eu acredito que agora muitos destes despedimentos que nós vemos são um reajuste disso."

Embora acredite que esta é “uma realidade muito distante” no mercado de trabalho português, Bernardo Forbes Costa admite que “o que estamos a ver é a fronteira do que pode ser o nosso futuro, vamos supor, da realidade portuguesa ou da realidade europeia, da empresa tradicional, se calhar daqui a cinco anos, talvez, num horizonte de médio e longo prazo”.

Quase um terço do emprego em Portugal é composto por "profissões em colapso"

A velocidade a que a tecnologia está a evoluir, sobretudo a IA generativa, torna quase impossível fazer uma previsão do tempo que vai demorar até começarmos a sentir, em Portugal, os seus impactos no mercado de trabalho, à escala das grandes tecnológicas. Desde logo porque, como explica Bernardo Forbes Costa, há “um conjunto de constrangimentos económicos e estruturais do tecido empresarial português” que o tornam mais resistente a esta tecnologia. 

“É preciso ter infraestrutura, é preciso ter talento, é preciso ter dinheiro, é preciso tempo para fazer esse investimento”, observa Bernardo Forbes Costa. “A perceção que eu tenho do tecido empresarial português é que realmente a adoção de tecnologia não é muito forte, especialmente nas Pequenas e Médias Empresas [PMEs, que compõem a grande fatia do tecido], simplesmente porque é um mercado pequeno, porque os recursos muitas vezes também não são os maiores ou melhores.”

Essa é, em parte, a conclusão de um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) sobre a automação e a IA no mercado de trabalho português. Os autores do estudo, publicado em abril de 2025, referem que “a maior fatia do emprego em Portugal (35,7%) é composta por profissões que não poderão ser substituídas pela automação, mas também não irão beneficiar da digitalização”. Os autores designam-nas como as profissões do “terreno dos humanos”, que não correm risco de substituição pela IA. São empregos caracterizados, em grande medida, pelo trabalho braçal - “trabalhadores de limpeza em casas particulares, escritórios e hotéis; técnicos de atividade física e agricultores qualificados”, exemplificam.

Há, todavia, um lado mais negro nesta equação. De acordo com o mesmo estudo, 28,9% do mercado de trabalho português é composto pelo que os autores designam como “profissões em colapso”, cujos empregos estão “seriamente ameaçados pela automação e pela IA, correndo risco de extinção". Aqui incluem-se, por exemplo, vendedores de call centers, empregados de balcão, operadores de caixa, entre outros. São, geralmente, empregos ocupados por pessoas com mais baixos níveis de escolaridade e de qualificações e que apresentam os rendimentos médios mais baixos.

Mas o caso da Block desvenda uma realidade ainda mais obscura - a IA generativa, em particular os Large Language Models (LLM, ou Grande Modelo de Linguagem, como ChatGPT, Gemini, Claude, entre outros) “estão a destruir alguns trabalhos”. "E não são trabalhos quaisquer”, observa Hugo Castro Silva. São “sobretudo empregos nos níveis de entrada”, mais qualificados, como os programadores - que, presume o investigador, compõem grande parte da força de trabalho de tecnológicas como a Block.

“Estes modelos conseguem substituir em grande medida os programadores, sobretudo os que estão em início de carreira”, afirma o investigador do IST. “Obviamente não os eliminam todos, mas a ideia é que são precisos menos programadores em início da carreira para fazer o mesmo trabalho.”

"Tudo o que envolva produção de texto de forma rotineira é possível que esteja ameaçado" pela IA, admite Hugo Castro Silva, co-autor do estudo sobre automação e IA no mercado de trabalho português, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS)

Ora, isto demonstra que estes modelos de IA generativa não estão a fazer “desaparecer o meio da pirâmide”, mas sim “a base da pirâmide”, observa Hugo Castro Silva. O CEO da Anthropic (uma das maiores empresas de IA do mundo), Dario Amodei, tem vindo a alertar que a IA vai eliminar cerca de metade de todos os empregos de nível de entrada nos escritórios dentro de poucos anos.

Mas também já há evidências da “destruição de emprego no meio da pirâmide”, acrescenta Hugo Castro Silva, apontando a consultoria como exemplo, onde há estudos que revelam que o uso de LLM aumenta a produtividade dos consultores menos experientes. Ou seja, a IA “consegue aproximar os pouco experientes dos mais experientes”. O resultado? As empresas começam a optar por “dispensar os mais qualificados, que são mais caros”, refere o investigador.

Estes exemplos mostram que os impactos da IA no mercado de trabalho não são lineares - enquanto na consultoria se verifica “o desaparecimento ou desvalorização” dos trabalhadores mais qualificados e com experiência, no caso dos programadores assistimos à eliminação do “trabalho menos experiente”.

Esta é talvez uma das particularidades que, no entender dos especialistas ouvidos pela CNN Portugal, mais distingue a IA de outras revoluções para a economia, como a Revolução Industrial ou até mesmo o surgimento da Internet. "A IA é diferente (...). Historicamente, os trabalhos que eram afetados eram os menos nobres e o que vemos agora é que há alguns trabalhos mais qualificados que estão a ser afetados", observa Hugo Castro Silva.

Em contrapartida, há profissões que vão ficar a ganhar com a introdução da IA, ao mesmo tempo que “estão salvaguardadas dos efeitos destrutivos da automação”, referem os autores do estudo da FFMS. São as chamadas “profissões em ascensão”, que correspondem a 22,5% do mercado de trabalho em Portugal e que incluem os trabalhadores “com mais altas qualificações”, como “cientistas, médicos e gestores de topo”, exemplifica Hugo Castro Silva. Estes empregos beneficiam da introdução da IA, complementando o trabalho humano. 

Numa perspetiva mais otimista, Hugo Castro Silva destaca a possibilidade de "criação de profissões com que nós nem sonhamos" à medida que a IA vai evoluindo. Afinal, a IA é considerada uma "general purpose technology", observa o investigador, o que significa que é "uma tecnologia que tem aplicação em imensos setores" e, por isso, é capaz de remodelar toda a economia.

"São coisas que revolucionam a forma de fazer ciência e de fazer inovação. Significa que podemos passar a inovar ainda mais. E o crescimento [económico] vem muito da inovação - novos produtos, novas profissões, etc.", sublinha Hugo Castro Silva, que aponta como exemplo o lançamento da Apple Store em 2008, um ano depois do lançamento do iPhone. "Isto foi há 20 anos. Entretanto, pensemos como a nossa economia mudou com o aparecimento das aplicações", reflete.

Requalificação e adaptação

É por tudo isto que Hugo Castro Silva admite olhar com alguma relutância para estes anúncios de despedimentos em massa atribuídos à IA. “Eu não consigo acreditar que isto seja tudo só por causa da Inteligência Artificial”, assume o investigador, apontando que já há quem use o termo “AI-washing” para descrever estes anúncios. “No fundo, estão a dizer que é tudo culpa da IA, que é uma coisa inevitável, e isto quase que desresponsabiliza os CEOs destas decisões.”

Para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, as empresas têm um papel a desempenhar na adaptação dos trabalhadores a estas mudanças. Bernardo Forbes Costa defende a aposta na "requalificação preventiva" dos trabalhadores, ou seja, "ainda antes da perda de emprego", sobretudo para aqueles que ocupam as chamadas "profissões em colapso". "A empresa que vai adotar tecnologia pode começar a treinar muitos dos seus trabalhadores para usarem as tecnologias que vai adotar e, assim, colhe melhor os efeitos dessa mudança", sugere o professor da Nova School of Business and Economics.

Estes programas de requalificação devem "facilitar a transição para profissões mais resilientes, menos expostas aos riscos da automação e que ofereçam melhores perspetivas de sustentabilidade no longo prazo", vincam os investigadores.

Ao mesmo tempo, os autores consideram "urgente" rever os currículos escolares e académicos, adaptando-os às mudanças impulsionadas pela IA, nomeadamente promovendo a literacia digital, o domínio de ferramentas de IA e competências relacionadas com análise e comunicação".

A adaptação é, portanto, a palavra-chave para não ficarmos para trás. Na perspetiva de Bernardo Forbes Costa, devemos tirar partido do que ainda nos distingue das máquinas. "O que nos torna humanos é a curiosidade e a capacidade de aprender", sublinha, acrescentando que os trabalhadores que vão continuir a ser imprescindíveis serão aqueles que têm "mais capacidade de aprender rápido, de se reinventarem e de continuarem abertos e disponíveis a aprender."

Esta adaptação exige, contudo, uma maior abertura da sociedade para aceitar estas mudanças. Os especialistas ouvidos pela CNN Portugal concordam que a sociedade portuguesa, em particular, é mais conservadora e mais cética em relação a estes avanços tecnológicos, o que traz consequências. "Claro que já há complementaridade [entre trabalhadores e IA], mas ainda estamos numa fase muito incipiente das capacidades", considera Hugo Castro Silva.

Enquanto, por um lado, há empresas que "ativamente bloqueiam o uso destas ferramentas" nos locais de trabalho, por outro, "muitos trabalhadores têm vergonha de dizer que usam" estas ferramentas, com receio de serem penalizados. "Quando ultrapassarmos este tipo de preconceitos, a história vai mudar - e vai mudar bastante", profetiza o professor do IST.

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