"Plano de paz" de Viktor Orbán para a Ucrânia "já está nas secretárias de todos os primeiros-ministros da UE"

CNN Portugal , JAV
15 jul 2024, 12:50
Balázs Orbán, diretor político do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán (Pier Marco Tacca/Getty Images)

Numa longa entrevista a um dos principais jornais húngaros, o diretor político do governo acusa nações europeias e a atual administração norte-americana de continuarem a "votar pela continuação da guerra" e diz que "a Hungria é o único país com informações novas e concretas sobre como as partes envolvidas pensam"

Para Balázs Orbán, a Hungria é neste momento o único país em posição de negociar com todas as partes envolvidas na guerra da Ucrânia.

Numa entrevista ao jornal "Magyar Nemzet", um dos principais do país, o diretor político do primeiro-ministro Viktor Orbán defende o que classifica de "missão de paz" do chefe do governo húngaro, que já o levou em viagens oficiais a Kiev, Moscovo, Pequim e Washington, e critica os aliados da NATO por serem "pró-guerra".

A "missão de paz" de Orbán e aqueles que "votam pela guerra"

"Há duas partes em guerra, a Ucrânia e a Rússia, e há três ou quatro grandes potências interméditas que podem desempenhar um papel decisivo enquanto mediadoras: Estados Unidos, Europa, China e também, por exemplo, a Turquia, cuja ajuda serviu para firmar o único acordo parcial até agora para a questão dos corredores de cereais no Mar Negro", diz Balázs Orbán.

Para o responsável político, estes países são "cruciais" para se alcançar a paz na Ucrânia. "Fomos a todo o lado com o objetivo de mapear quais as hipóteses de paz. A missão de paz chegou primeiro aos dois países em guerra. A partir dali, pode ver-se que Ucrânia e Rússia estão determinadas nos combates, e sem a entrada de mediadores externos, infelizmente, vamos experienciar uma dura destruição nos próximos meses."

Orbán diz que apenas a China, a Turquia e Donald Trump, candidato às presidenciais norte-americanas, estão empenhados na paz e que, se Trump vencer em novembro, "vai criar a paz por si mesmo num curto período de tempo". Pelo contrário, "os europeus e a atual administração norte-americana votam pela continuação da guerra".

Ainda sobre o "plano de paz" húngaro, Balázs diz que Orbán informou os líderes do Conselho Europeu "por escrito" sobre as suas pretensas negociações, sobre a "primeira fase" dessa missão e sobre as propostas que a Hungria trouxe para a mesa.

"Se a Europa quer paz e quer ter uma palavra decisiva a dizer sobre a resolução da guerra e o fim do derramamento de sangue, uma mudança de rumo deve ser planeada e implementada já. O plano de Orbán já está nas secretárias de todos os primeiros-ministros da UE. A nossa abordagem é baseada numa avaliação realista da situação, em objetivos realistas e num calendário apropriado."

(AP)

Hungria como mediadora: "Único país com informações novas e concretas"

O responsável do governo húngaro sublinha que o papel de Budapeste "não pode ser sub nem sobrevalorizado" e que as recentes viagens de Viktor Orbán mostram que, "neste momento, o nosso país é o único que tem informações novas e concretas sobre como as partes em guerra e os principais mediadores pensam, e como navegar entre estes diferentes interesses".

"O facto de estas reuniões terem tido lugar no espaço de duas semanas mostra que a Hungria pode desempenhar um papel sério de mediação. A maioria dos países do mundo espera muitos anos para que encontros como estes tenham lugar. A experiência tem peso na política. [...] O primeiro-ministro húngaro é o decano da política europeia, é o político com a maior rotina e a mais ampla rede de contactos pessoais, que abre mais portas que nunca seriam abertas para outros."

Orbán também dz acreditar "que todo o período da presidência da UE pelo nosso país deve ser usado, num sentido político, paa criar as condições para as negociações de paz" e deixa um aviso aos parceiros europeus: "Se a UE não agir agora, pode não poder atuar mais tarde. [...] Ainda há viagens e negociações por fazer. Estamos a meio de um período muito intenso."

Sobre as críticas que o primeiro-ministro húngaro tem recebido pelo seu périplo internacional, o diretor político refere que "essas declarações mostram claramente quem está a falar da paz da boca para fora e quem está a falar a sério sobre isso".

O papel da Hungria na NATO

Também adianta que os resultados das eleições europeias mostram que os cidadãos do bloco apoiam a via húngara e que, sem as propostas da Hungria, "a política europeia continua vazia" enquanto os EUA desempenham um papel.

"A autonomia estratégia europeia é um mito. Os europeus estão a seguir a administração Biden, que está ocupada com a sua própria sobrevivência política."

No rescaldo da recente cimeira da NATO em Washington, diz que "a aliança quer forçar os Estados-membros a agir em conjunto em cada vez mais áreas", como o Pacífico e as relações com países que não pertencem à NATO. "Estes tópicos não deviam fazer parte das negociações da NATO", defende.

"Se transformarmos a aliança de defesa numa organização que apoia o bloqueio e a lógica da Guerra Fria, que regularmente conduz operações militares fora do seu território, então vamos ter graves problemas nas próximas décadas."

Atentados contra Robert Fico e Donald Trump

(Evan Vucci/AP)

Sobre o recente atentado contra Donald Trump e aquele que teve lugar há alguns meses contra Robert Fico, o primeiro-ministro da Eslováquia, Balázs Orbán fala em ataques "aos que defendem a paz".

"Nós, húngaros, conhecemos a natureza da propaganda de guerra: nada é caro demais no que toca a silenciar ou a desacreditar vozes pró-paz. E isto envia ondas de choque para a vida pública, no fim das quais se sucedem atos violentos como estes."

O responsável húngaro termina a entrevista a dizer que a equipa de Viktor Orbán jantou com Donald Trump dois dias antes da alegada tentativa de assassinato e que o candidato republicano "estava ciente de tudo o que pode ser feito para o impedir de voltar [à Casa Branca] e limpar as cosas. Mas já se viu que tem tanta força e vontade que não vai ceder com facilidade. Felizmente para nós, as coisas acabaram [com Trump a sobreviver]."

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