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Comentador da CNN Portugal. Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE. Diretor do European Observatory on Illiberalism and Culture Wars. Estuda a crise da democracia liberal, com foco nas guerras culturais, na polarização e nos impactos nos direitos fundamentais. Analisa, ainda, questões de geopolítica contemporânea

Os dois primeiros sinais de Péter Magyar: entre o regresso da Mitteleuropa e a preservação da gramática nacionalista

27 abr, 11:56

A vitória do liberalismo na Hungria seria sempre manifestamente exagerada. Uma sociedade com uma história complexa, entre traumas pós-soviéticos, nostalgias de grandeza imperial, memórias de fronteira entre impérios e assimetrias sociais e regionais profundas, dificilmente viraria a página face a 16 anos de um longo mecanismo de reversão do Estado de Direito, concentração de poder, controlo sobre a informação e sobre as instituições públicas.

Mas a vitória do Tisza de Péter Magyar não foi sobre mudança drástica, foi sobre capacidade de acomodar a gramática nacionalista como marca de água da identidade húngara a um alinhamento pró-europeu, sem dependência estrutural de Bruxelas e independente da tutela russa de Vladimir Putin. Trata-se de um equilíbrio entre proximidades e distâncias políticas que preservem o orgulho nacional, afastem tutelas políticas e garantam o devido crescimento económico.

É por isso que as suas primeiras escolhas temáticas são centrais para compreendermos para onde vai a Hungria nos próximos anos. 

A gramática nacionalista via imigração

Uma das alavancas da direita radical populista e etnonacionalista que tem assolado a Europa e os EUA é a articulação entre imigração, multiculturalismo e desarticulação das identidades nacionais. Isto tem permitido a eleição de líderes demagógicos que oferecem aos seus eleitores um culpado simples para problemas complexos: o imigrante. Este facto entra no território do que, em Ciência Política, se chama «competição étnica», ou seja, a ideia de que os grupos migratórios oriundos de outras culturas introduzem duas ruturas sociais: a precariedade económica, por meio de mão de obra mais barata; e a perda de identidade cultural, especialmente diante de fluxos migratórios elevados. 

Segundo o Guardian, Magyar afirmou que a Europa “geriu mal” a crise migratória e que o problema deveria ter sido tratado sobretudo nos países de origem, sem importar para a Europa as populações. Este posicionamento apresenta um cenário racional – o dos desafios de integração perante fluxos migratórios elevados – com uma solução que se apresenta como humanista: ajudar a resolver os problemas nos países de origem. 

Este tipo de narrativa é defensável, porém pode funcionar como uma forma politicamente aceitável de fechamento de fronteiras pela via do auxílio humanitário. E isso é, precisamente, uma forma suave de salvaguardar o etnonacionalismo contornando o multiculturalismo e a necessidade de mão de obra na Europa. 

Isto enquadra-se numa leitura evidente: Magyar percebeu que Orbán não caiu por ser nacionalista, mas por corrupção, cansaço, captura institucional e degradação dos serviços públicos. Portanto, não vai deixar esse espaço no vácuo, mas antes separar o soberanismo cultural como marcador identitário húngaro do autoritarismo doméstico que foi a curva do iliberalismo de Orbán. 

Making Mitteleuropa Great Again

O regresso de Magyar à Europa não é um mero realinhamento depois do interregno do “cavalo de Troia” russo que foi Orbán. Em rigor, Magyar quer redesenhar a política regional europeia a partir de uma reaproximação à Áustria e ao Grupo de Visegrado. Trata-se, portanto, de uma forma de reimaginar a Europa, não como uma soma de capitais obedientes a Bruxelas, como outrora foram perante Roma, nem uma Europa de nacionalismos ressentidos na esteira de Orbán e pós-2008, mas uma Europa de regiões históricas com peso próprio.

Isto significa que a agenda política de Magyar não é a do clássico alinhamento à burocracia de Bruxelas, mas antes a de uma nova Europa mais autonomizada internamente, enquanto se apresenta coletivamente como eixo entre as potências. Ou seja, Magyar não quer reproduzir o comportamento dos países curvados e de mão estendida aos fundos europeus e aos países “frugais” do Norte, mas antes o sinal de uma estratégia mais profunda que jaz numa simples pergunta: e se a Europa Central não quiser escolher entre o isolamento nacionalista de Orbán e a obediência burocrática ao centro europeu?

Isto significa um reposicionamento da gramática ideológica de Orbán baseada na soberania de trincheira e ressentimento face a Bruxelas, alavancada na experiência histórica da Europa Central – impérios, ocupações, fronteiras móveis, tutela soviética, periferização económica –, para uma gramática europeísta em que essas memórias históricas e sociais são convertidas não em paranoia nacionalista, mas numa valorização acérrima da Europa pluralista e multipolar, que vai de Paris a Zagreb, de Berlim a Bratislava, de Roma a Budapeste, de Copenhaga a Liubliana, de Bruxelas a Praga. 

É, pois, a Europa que tem uma Mitteleuropa dentro e que não é um vazio entre a Alemanha e a Rússia, nem uma periferia a quem Bruxelas concede certificados de bom comportamento, mas antes uma região complexa, importante, com orgulho nacional e sentido de missão europeia. 

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