Depois de ter garantido que a Hungria "é um país hostil", Dmitry Peskov mostrou-se satisfeito com a disponibilidade de Péter Magyar para participar num diálogo pragmático.
No rescaldo da eleição de Péter Magyar como novo primeiro-ministro da Hungria, as atenções viram-se para a Rússia, que acaba de perder o seu principal aliado na Europa, segundo uma análise do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês).
Foi pela voz de Dmitry Peskov que o Kremlin deu os primeiros sinais de que está a minimizar o impacto da derrota eleitoral de Viktor Orbán, o governante europeu que se opôs repetidamente aos esforços da União Europeia para fornecer apoio militar e financeiro à Ucrânia, alinhando os seus interesses com os de Vladimir Putin. Esta proximidade foi aliás revelada recentemente, através de áudios divulgados de contactos entre o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Peter Szijjarto, e o homólogo russo, Sergei Lavrov, que comprovam o acesso de Moscovo a informações confidenciais da União Europeia.
“Por enquanto, podemos observar com satisfação, tanto quanto entendemos, a sua disponibilidade [de Magyar] para se envolver num diálogo pragmático", disse esta terça-feira o porta-voz do Kremlin, mostrando-se satisfeito com a abordagem do mais recente chefe de governo húngaro.
Peskov acrescentou mesmo que “há uma disposição mútua”, e que Moscovo procederá agora “com base nas medidas específicas tomadas pelo novo governo húngaro”.
As mais recentes declarações parecem alinhar-se numa lógica de cooperação, mas o discurso era diferente na segunda-feira.
“Não enviamos felicitações a países hostis. A Hungria é um país hostil - apoia sanções contra nós”, afirmou Peskov, reforçando que a Hungria deixa de beneficiar de qualquer estatuto especial, passando a integrar a categoria de “países hostis”, escreveu o Novaya Gazeta Europe.
De acordo com o jornal britânico The Guardian, o porta-voz do Kremlin foi ainda mais longe, declarando que a Rússia “nunca" manteve uma relação de amizade com o ex-primeiro-ministro”: "Nunca fomos amigos de Orbán".
Ainda assim, há registos de que Vladimir Putin tenha enviado uma mensagem pessoal a Viktor Orbán a felicitá-lo após o seu partido vencer a reeleição, em abril de 2022. Recorde-se que, por esta altura, a Hungria já tinha sido incluída na lista oficial russa de “Estados hostis”. O ISW acrescenta ainda que este ano Orbán recebeu o apoio pessoal de Vladimir Putin para as eleições de 2026.
A aparente satisfação de Peskov em relação ao novo primeiro-ministro húngaro surge depois de Magyar ter assegurado que não é expectável que a Hungria conduza uma rutura dramática com a Rússia, sugerindo que o país deverá manter uma política externa pragmática.
“Não podemos mudar a geografia”, disse Péter Magyar, citado pelo The Guardian, acrescentando que o governo terá de encontrar uma solução para as importações provenientes da Rússia, atualmente responsável pelo fornecimento de mais de 80% do gás e petróleo da Hungria.
À agência russa TASS, Peskov admitiu que “não sabe” como irão evoluir as relações entre Moscovo e Budapeste daqui para a frente, embora os dois países “tenham algo em que trabalhar em conjunto”, referindo-se a projetos entre as partes.