Maioria das sondagens antecipa o fim do reinado do Fidesz com a vitória de Péter Magyar, do partido centrista Tisza, nas legislativas do próximo domingo. Mas ao final de 16 anos de poderio Orbán, perante potenciais irregularidades e alterações ao sistema eleitoral que favorecem o atual primeiro-ministro, nada pode ser dado como garantido no Estado-membro que mais dores de cabeça tem dado à UE. Em “eleições normais”, a vitória da oposição seria mais do que certa. A grande questão é se Magyar vai mesmo vencer
Era a reta final da campanha para as eleições legislativas deste domingo quando, em entrevista ao canal polaco TVP World, uma ex-deputada da Hungria e atual diretora do Instituto de Democracia da Universidade Centro Europeia (CEU) alertou que tudo pode acontecer na ida às urnas no seu país-natal. “Em eleições normais”, disse Zsuzsanna Szelényi, “poderíamos dizer hoje que a oposição provavelmente vencerá na Hungria - mas não podemos afirmar isso” neste caso.
Estas não são eleições normais, adiantou a autora do livro Tainted Democracy (Democracia Contaminada, numa tradução livre), porque a Hungria deixou há muito de ter condições eleitorais normais. Em 16 anos com Viktor Orbán e o seu Fidesz ininterruptamente no poder, o sistema político húngaro foi profundamente remodelado, desde as regras do sistema eleitoral até ao controlo dos media. E isso torna o resultado destas eleições muito difícil de prever, apesar de muitos inquéritos de opinião dos últimos meses preverem o que, durante mais de uma década, parecia impensável: o fim do governo Orbán.
“A partir de 2010, o nome de Orbán tornou-se sinónimo do Estado húngaro e o seu controlo sobre o país beirava o autocrático”, escreve Szelényi, ex-aliada tornada rival de Orbán, no prefácio de Tainted Democracy, publicado em 2022. “Para aqueles de nós que se lembram da coragem e da astúcia que Orbán demonstrou nos seus primeiros anos, a sua completa reviravolta política é desconcertante.” No ano em que Szelényi publicou o seu livro, passavam-se 12 anos da ascensão de Orbán ao poder e “era altamente duvidoso que outra força política pudesse substituí-lo de forma pacífica e democrática”.
É, contudo, isso que poderá acontecer agora, pela mão de um partido que, até há cerca de dois anos, era relativamente residual na cena política húngara antes de ter sido tomado em mãos por outro ex-aliado tornado rival do primeiro-ministro: Péter Magyar. Sob a promessa de “drenar o pântano de corrupção” criado e cimentado por Orbán e de construir uma “Hungria europeia e moderna”, Magyar conseguiu transportar o centrista Tisza de uns meros 21% de intenções de voto em maio de 2024, pouco antes das eleições europeias, para uma vantagem confortável sobre o Fidesz a poucos dias das legislativas - uma média das sondagens recentes aponta para 47% de votos no Tisza contra 42% no Fidesz.
Como referia Zsuzsanna Szelényi há duas semanas, e a julgar pelo grosso das sondagens, Magyar podia já estar a cantar vitória numa situação normal. Mas esta está longe de ser uma situação normal - a começar pelas alterações ao sistema eleitoral que Orbán firmou quando regressou ao poder em 2010, após um primeiro mandato isolado entre 1998 e 2002.
“Além de dominar os meios de comunicação, Orbán garantiu para si mesmo vantagens eleitorais injustas”, ressalta a Economist num artigo a invocar “as eleições mais importantes da Hungria desde o fim do comunismo em 1989”. Após uma vitória expressiva do Fidesz em 2010, o primeiro-ministro reformou o sistema político, reduzindo o número de assentos parlamentares para 199, mas aumentando a proporção de distritos uninominais - onde o Fidesz, por ser o maior partido da Hungria, tem um melhor desempenho.
Foi graças a isso, e à reforma eleitoral que introduziu um sistema de compensação para o vencedor, que Orbán conseguiu conquistar uma maioria confortável nas últimas três eleições ao parlamento; nas últimas, em 2022, o Fidesz ganhou 135 dos 199 assentos parlamentares com apenas 54% dos votos. Do total, 106 deputados são eleitos em distritos uninominais pelo sistema maioritário simples, com os restantes 93 eleitos por representação proporcional com base em listas partidárias nacionais.
Como refere Paul Gradvhol, professor de História da Europa Central na Universidade Panteão-Sorbonne, “em distritos onde o Fidesz venceu por uma grande margem, foram adicionados distritos menos favoráveis e, em troca, a oposição perdeu assentos onde tinha hipóteses de vencer” - o que, na prática, significa que, mesmo que Magyar vença nas principais cidades e receba mais votos a nível nacional, Orbán ainda pode vencer no interior, entre a sua base rural, onde está concentrada a maioria dos distritos uninominais.
Como referem os especialistas, é um sistema que aumenta as maiorias do partido de Orbán, ao qual se junta a busca de votos entre húngaros étnicos em países vizinhos. Cerca de 250 mil deles vão votar nestas eleições e foi isso que, no ano passado, levou o líder da oposição a percorrer a pé 250 quilómetros de Budapeste até Oradea, no noroeste da Roménia.
Braço-de-ferro com a UE
A tarefa do Tisza está longe de ser fácil e, para vencer, os analistas calculam que o partido precisa de conquistar uma vantagem de, pelo menos, entre três a seis votos percentuais em relação ao Fidesz para conseguir a maioria no parlamento. Mas as dúvidas permanecem sobre quais serão os reais resultados eleitorais, não só por alegações de irregularidades em eleições passadas que podem repetir-se nesta ida às urnas, mas também pela variedade de sondagens que foram sendo divulgadas nos últimos meses.
Inquéritos de opinião financiados pelo governo, algus dnas quais pagos com verbas estatais, dão a Fidesz uma margem considerável sobre o Tisza, e a McLaughlin & Associates, uma empresa de sondagens alinhada com o movimento MAGA de Donald Trump, aponta ao partido de Orbán cerca de 10 pontos percentuais de vantagem sobre o partido de Magyar. Já sondagens de institutos neutros ou alinhadas com a oposição dão a Magyar uma forte vantagem - segundo a Economist, resultando numa média de mais de dez pontos percentuais para o Tisza.
Talvez por isso, e pela primeira vez, Viktor Orbán e o Fidesz parecem estar assustados com a iminente possibilidade de uma derrota - e não só eles. Grandes apoiantes do atual governo húngaro também estão, como a Rússia de Vladimir Putin e os Estados Unidos de Donald Trump.
Com as eleições a aproximarem-se, foi revelado que uma das secretas russas sugeriu um atentado encenado contra Orbán para o ajudar a subir nas intenções de voto, a par de notícias sobre um acordo de 12 pontos para aproximar ainda mais Budapeste do Kremlin - que, segundo o Financial Times, apostou numa forte campanha cibernética encoberta para ajudar a campanha de Orbán.
Da mesma forma, a cinco dias da ida às urnas, Donald Trump enviou o seu vice à capital húngara para uma operação de charme contando que isso também ajudasse a reeleger o atual primeiro-ministro. Ao lado de Orbán, no que muitos analistas dentro e fora da Hungria classificaram como uma flagrante interferência externa nas eleições do país, JD Vance acusou a União Europeia (UE) de ser ela a interferir no processo eleitoral do Estado-membro - e garantiu que, se os húngaros votarem em Orbán, as dificuldades económicas que o país está a atravessar vão ser amenizadas, porque Budapeste vai comprar petróleo a preço de amigo aos EUA.
No rescaldo da visita de Vance a Budapeste, surgiu nas redes sociais uma alegada notícia sobre uma sondagem húngara que mostrava que a ida do vice-presidente norte-americano à Hungria tinha levado o Fidesz a perder 3% de apoios. Nada indica que esse inquérito de opinião tenha de facto existido - mas isso não significa que o apoio MAGA vá servir de alavanca a Orbán ao final de 16 anos de poucas conquistas domésticas e de uma campanha de demonização do Ocidente liberal e progressista e de uma Ucrânia que, na visão do atual chefe do governo húngaro, quer “colonizar” a Hungria.
Desde 2010, quando o Fidesz obteve a sua primeira vitória esmagadora na sequência da crise financeira global - que teve um enorme impacto na economia da Hungria, bem como na reputação das suas elites políticas - Orbán passou a dominar por completo a política do país, mas ao final de 16 anos a população está a acusar muito cansaço e frustração. O esvaziamento das instituições estatais fomentou a corrupção, o clientelismo que o líder do Fidesz tinha prometido combater e o retrocesso democrático levou Bruxelas a congelar fundos comunitários que, pelo menos em parte, teriam ajudado o país a controlar a inflação e o aumento do custo de vida.
Orbán espera que retratar Magyar como um fantoche das elites liberais o ajude a manter-se no poder, e para isso contou com a ajuda da Rússia e dos EUA, ambas com óbvios interesses nestas eleições - no caso de Moscovo para continuar a ter ao seu lado o grande obstrutor da UE, no caso de Washington porque Trump encara o bloco europeu como o seu grande rival. Mas até que ponto é que essa ajuda terá valido de alguma coisa?
“Apesar do apoio internacional e da campanha de informação orwelliana, a estratégia até agora não parece estar a funcionar”, escreveu no final de março Péter Krekó, cientista político e diretor do Instituto de Capital Político, um think tank independente com sede em Budapeste. “Sondagens confiáveis sugerem que Orbán está em apuros, com uma diferença crescente – de até 15 pontos percentuais - entre o partido no governo e a oposição. Mesmo no sistema eleitoral distorcido da Hungria, esse défice nos inquéritos será difícil de superar. E as sondagens também mostram que os eleitores estão muito mais preocupados com os temas internos (inflação, corrupção, saúde) nos quais a oposição se concentra do que com as batalhas geopolíticas que Orbán tanto alardeia.”
As "armadilhas" de Viktor Orbán
É a mesma ideia defendida pela jornalista Lisa Martin numa análise publicada esta semana, a poucos dias das legislativas, sob o título “Europa sustém a respiração antes das eleições na Hungria”. “A estratégia do governo de transformar a Ucrânia na grande vilã pode não conquistar os eleitores que se debatem com problemas básicos do dia a dia”, sublinha Martin. “Caso Magyar consiga uma vitória eleitoral milagrosa, isso poderá representar um ponto de viragem nas relações entre Budapeste e Bruxelas, com um tom provavelmente mais ameno e maior cooperação. Mas a tarefa de governar poderá ser complexa - Orbán terá deixado para trás armadilhas por meio de uma rede de aliados infiltrados em altos cargos na sociedade.”
Exemplos recentes, como o da Polónia, não auguram bons ventos para Magyar caso consiga derrotar o rival. Nas legislativas de 2023, o pró-europeísta moderado Donald Tusk conseguiu destronar o governo nacionalista do PiS mas deparou-se com obstáculos significativos para reverter medidas controversas implementadas pelo antecessor, inclusivamente no que toca à independência dos tribunais. E segundo a analista húngara Zsuzsanna Végh, “o nível mais profundo de captura institucional na Hungria sugere que os desafios seriam ainda mais acentuados” caso se confirme a vitória do Tisza.
Sem certezas sobre quem sairá vencedor, a UE tem estado, apesar de tudo, a preparar-se para a possibilidade de Orbán continuar no poder e em rota para se tornar um dos líderes políticos europeus há mais tempo à frente de um governo nacional. É o que o Politico define como “planos de contingência” com base em entrevistas a três diplomatas europeus.
Se Orbán vencer as eleições, “vai começar a guerra”, diz um dos diplomatas. “Muitos acham que uma linha vermelha foi cruzada [com o último bloqueio de Orbán do empréstimo à Ucrânia] e que algo tem de ser feito – mas não está claro o quê”, adianta um segundo. “Digamos que haverá discussões renovadas e intensificadas sobre como lidar com Orbán, desencadeando um debate mais sincero sobre como enfrentá-lo – e talvez de formas mais criativas”, acrescenta o terceiro.
Após anos a bloquear decisões dentro da UE, particularmente sobre a Ucrânia, a paciência de Bruxelas está a esgotar-se. Como referia Zsuzsanna Szelényi há duas semanas, “se Orbán vencer, será muito difícil consolidar as relações com a UE [e] ele possivelmente irá intensificar ainda mais as tensões e preparar gradualmente a Hungria para uma saída da UE”.
Ainda assim, muitos sentem que há mudanças ao virar da esquina, depositando as esperanças num energético Magyar face à sua ascensão meteórica desde que abandonou o Fidesz em 2024. Mesmo com dúvidas sobre o que esperar do líder da oposição, parece reinar entre uma maioria dos húngaros a sensação de que o tempo de Orbán chegou ao fim. Como referiu recentemente Timea Szabó, deputado húngaro pelo partido Os Verdes, que renunciou ao cargo para abrir caminho a um candidato do partido de Magyar: “Não estamos a votar no Tisza, estamos a votar contra o Fidesz. Esse é o ponto principal. Os húngaros votariam até num bode se ele estivesse a concorrer contra Orbán.”