Com as sondagens a anteverem a derrota do primeiro-ministro húngaro, o grande aliado do Kremlin dentro da UE, uma unidade dos serviços secretos russos terá proposto uma "encenação de uma tentativa de assassinato" para "alterar fundamentalmente todo o paradigma da campanha eleitoral". Kremlin fala em "desinformação" antes das legislativas da Hungria, marcadas para 12 de abril
A menos de um mês das eleições legislativas na Hungria, as primeiras em que Viktor Orbán não segue à frente nas sondagens desde que entrou de rompante na política do país, uma unidade dos serviços de informações externas da Rússia (SVR) está preocupada com a real hipótese de o atual primeiro-ministro não ser reconduzido no cargo, tendo sugerido que se recorra a uma estratégia conhecida como “Viragem do jogo”, envolvendo uma “ação drástica” que reúna o eleitorado em torno de Orbán.
Essa “ação drástica” passaria por encenar uma tentativa de assassinato do atual primeiro-ministro para o ajudar a recuperar eleitores, como noticia este sábado o Washington Post com base num relatório interno do SVR obtido e autenticado por uma agência de informações europeia e analisado pelo diário.
No documento, os agentes daquela unidade de informações russa sugerem uma maneira de “alterar fundamentalmente todo o paradigma da campanha eleitoral”, por via da “encenação de uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán”, o grande aliado de Vladimir Putin dentro da União Europeia (UE), que ainda esta semana voltou atrás no compromisso de não bloquear a aprovação de um empréstimo europeu de 90 mil milhões de euros à Ucrânia.
“Um incidente como este deslocará a perceção da campanha do âmbito racional das questões socioeconómicas para um âmbito emocional, onde os temas principais passarão a ser a segurança do Estado e a estabilidade e defesa do sistema político”, escreveram os agentes no relatório em questão, que segundo o Washington Post foi preparado para a principal unidade de operações de influência política do SVR, a Diretoria MS, ou Departamento de Medidas Ativas.
Esta alteração da esfera dita racional para a esfera emocional foi o que, em 2024, também ajudou à eleição de Donald Trump, o atual presidente dos EUA, que foi alvo de uma alegada tentativa de assassinato durante a campanha às presidenciais desse ano – o que conduziu a uma enorme subida nas intenções de voto, contribuindo em última instância para que derrotasse a rival democrata, Kamala Harris.
Com interesses em jogo, Moscovo não comenta relatório
O primeiro-ministro da Hungria, cuja popularidade continua em queda devido ao fraco desempenho económico do país, não sofreu quaisquer ataques físicos até à data – “mas a mera sugestão de um atentado contra a vida de Orbán ressalta o quão importantes são os interesses de Moscovo na corrida eleitoral húngara”, destaca o diário norte-americano.
As sondagens mais recentes mostram que Péter Magyar, antigo aliado de Orbán tornado seu rival há mais de um ano, continua à frente do primeiro-ministro e do seu partido, o Fidesz – com os inquéritos de opinião a figurarem no relatório dos agentes secretos russos. “Uma maioria (52,3%) está insatisfeita com a situação do país; a insatisfação prevalece não apenas nas cidades, mas também nas áreas rurais (50,8%), onde tradicionalmente a posição do partido no governo Fidesz é forte.”
O porta-voz de Orbán, Zoltan Kovacs, não respondeu a um pedido de comentário do Washington Post sobre o relatório do SVR, a alegada interferência da Rússia nas eleições legislativas húngaras ou a relação do primeiro-ministro com Moscovo. Não é certo se a proposta dos agentes do SVR foi analisada pelo governo russo. Contactado pelo jornal, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, rejeitou responder a perguntas sobre o documento estratégico, dizendo simplesmente que se trata de “mais um exemplo de desinformação”; o próprio SVR recusou comentar o assunto.
Nas últimas semanas, Orbán e o Fidesz têm tentado cada vez mais desviar a atenção do eleitorado dos problemas económicos para supostas ameaças externas à segurança do país. Esta semana, o primeiro-ministro húngaro não só bloqueou o empréstimo de 90 mil milhões a Kiev como acusou a Ucrânia de interromper o fornecimento de petróleo russo barato para a Hungria através do oleoduto Druzhba, que atravessa o território ucraniano — apesar da interrupção ter sido inicialmente causada por um ataque russo que atingiu aquela infraestrutura.
Em 2022, nas últimas legislativas da Hungria, o Fidesz de Orbán conquistou 54% dos votos, a sua quarta supermaioria consecutiva de dois terços no Parlamento. Agora, a cerca de três semanas das legislativas de 12 de abril, Orbán e o Fidesz surgem atrás de Magyar, candidato pelo Tisza, que se apresenta como um reformista anticorrupção – e que, nas eleições europeias de 2024, já tinha conseguido conquistar quase 30% dos votos.
