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Comentador da CNN Portugal

O fim da Europa é sempre provisório

13 abr, 12:03

Não somos nem um tigre de papel, nem uma União sem destino. As nossas democracias mantêm-se de pé, apesar dos esforços da Casa Branca e do Kremlin. Viktor Orbán não caiu porque a Europa venceu, mas o iliberalismo não é inevitável

A queda de Viktor Orbán oferece à Europa um momento de alívio que pode ser facilmente confundido com uma vitória da União Europeia. É compreensível. Dezasseis anos de poder de um cruzado anticomunista transformado num paladino antiliberal não terminam sem produzir uma sensação de catarse, como se a política voltasse subitamente a respirar. Mas essa leitura, embora tentadora, é redutora. O essencial não se alterou ao ritmo do escrutínio.

O triunfo de Péter Magyar abre uma janela rara, inimaginável há apenas uns meses. A maioria constitucional de que dispõe não é apenas um instrumento de governação. É uma ferramenta de reconstrução. Tribunais, reguladores, meios de comunicação, fundações, estruturas intermédias capturadas ao longo de mais de uma década podem agora ser reconfiguradas. O verbo importa. Reconfigurar não significa apagar. Significa disputar, peça a peça, um sistema desenhado precisamente para sobreviver a derrotas eleitorais e condicionar a democracia liberal.

É aqui que a euforia é contraproducente. Orbán não caiu porque a União Europeia o derrotou. Caiu porque deixou de corresponder ao que sustenta qualquer maioria política duradoura. Durante anos, a narrativa organizou-se em torno de ameaças externas, reais ou fabricadas, numa coreografia repetida com disciplina. Bruxelas, migrações, Zelensky, qualquer elemento servia para sustentar um quadro de cerco permanente. Funcionou, até deixar de funcionar.

O ponto de rutura não foi ideológico. Foi material. Quando os preços sobem de forma persistente, quando os serviços públicos se degradam de modo visível, quando o crescimento desaparece sem explicação convincente, o ruído geopolítico perde eficácia. Não desaparece, mas deixa de decidir o voto. A política regressa ao básico, e o básico vai além das narrativas. O eleitor não abandona convicções, reorganiza as suas prioridades.

Há um momento em que a tolerância ao clientelismo se esgota. Enquanto a economia cresce, ou aparenta crescer, a perceção de corrupção dissolve-se na abstração. Quando estagna, ganha forma. Torna-se visível nos contratos, nas fortunas rápidas, nas desigualdades que deixam de poder ser explicadas como exceções. O sistema continua a funcionar, mas passa a ser lido como um mecanismo de extração. Foi por aí que o edifício construído pelo Fidesz começou a ceder.

Seria confortável tratar este desfecho como inevitável. Não é. E o modelo que Orbán representava não desapareceu com ele. Permanece disponível, adaptável, pronto a ser reativado onde as condições o permitam. Robert Fico já demonstrou a resiliência de uma retórica semelhante na Eslováquia. Andrej Babiš continua uma presença central num sistema político permeável ao populismo como é a Chéquia. Em França, Jordan Bardella espera pela sua oportunidade.

O que a Hungria expõe não é a fragilidade do populismo, mas os seus limites. Não colapsa por incoerência interna. Colapsa quando deixa de produzir resultados mínimos para a sua base eleitoral. Esse detalhe devia alterar a lógica europeia. Esperar pelo desgaste não é uma estratégia, mas um ato de fé que pode demorar demasiado tempo a materializar-se.

A resposta da União Europeia tem sido, até agora, insuficiente. Oscilou entre a tolerância “pragmática” e a reação tardia, condicionada por equilíbrios internos frágeis e pela famigerada unanimidade. Orbán explorou esse espaço com precisão. Bloqueou decisões, atrasou compromissos, testou limites institucionais. Durante demasiado tempo, o custo político dessas ações permaneceu difuso, quase abstrato, até se tornar insustentável no contexto da Ucrânia.

Evitar a repetição exige uma mudança de postura. Exige vontade política no Conselho, na Comissão e no Parlamento Europeu. Os instrumentos existem. Condicionalidade de fundos, mecanismos de supervisão do Estado de direito, capacidade sancionatória. O problema nunca foi a ausência de ferramentas. Foi a hesitação na sua aplicação. A lógica não é punitiva. É preventiva.

Mas essa dimensão institucional, sendo necessária, é, por si só, insuficiente. Existe um problema mais profundo, menos visível e mais difícil de resolver. O substrato da política europeia permanece desigual. Sempre que o crescimento falha, sempre que os serviços públicos se degradam, sempre que a mobilidade social abranda, abre-se um espaço político que não fica vazio. É ocupado. O populismo não cria esse espaço. Explora-o com eficácia. Reduzi-lo exige resultados concretos, não apenas narrativas mais sofisticadas e melhores campanhas.

Convém ainda recordar que a Hungria de Orbán não operava no vazio. Funcionava como ponto de contacto entre projetos políticos mais vastos, de Trump a Putin, de Netanyahu a Meloni, passando pelo Project 2025 e CPAC. A sua derrota enfraquece essa articulação, mas não a dissolve. Washington investiu politicamente neste resultado, enviando J. D. Vance a Budapeste. Moscovo também. Nenhum deixará de olhar para a Europa como uma esfera de influência.

Os húngaros hoje podem celebrar. Os europeus têm de começar já a trabalhar. A Hungria demonstra que é possível derrotar o iliberalismo, mas a transição terá custos elevados, como evidencia a Polónia. Se a UE quiser evitar novas derivas autoritárias terá de agir antes de as instituições dos Estados-membros serem cooptadas e os seus cidadãos manipulados.

Defender o Estado de direito na Eslováquia ou na Chéquia não é interferência – é a obrigação das instituições europeias. É antecipação perante aquelas forças que testam continuamente os limites da União e as pressões externas que as amplificam. Ao fazê-lo, a Europa envia uma mensagem simples ao presidente russo e ao presidente americano: não somos nem uma colónia, nem um museu. Não somos nem um tigre de papel, nem uma União sem destino. As nossas democracias mantêm-se de pé, apesar dos esforços internos e externos. Orbán não caiu porque a Europa venceu, mas o iliberalismo não é inevitável e o fim da União foi manifestamente exagerado.

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