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opinião
Analista de política internacional

Hungria: a eleição mais importante da Europa

10 abr, 11:10

No próximo dia 12 de Abril, os húngaros irão às urnas para eleger o próximo primeiro-ministro. Esta é, sem exagero, a eleição mais importante que a Europa enfrenta este ano, e é, potencialmente, uma das mais consequentes para o futuro da União Europeia em muitos anos e muitas eleições. Isso não acontece pela dimensão do país, mas porque, ao longo dos anos, a Hungria transformou-se num problema estrutural para a capacidade de decisão da União Europeia, senão mesmo para a sua própria segurança.

Órban: de ativista anticomunista a um aliado da Rússia

Parece hoje impossível, mas o partido que Viktor Órban, primeiro-ministro desde 2010, ajudou a fundar, o Fidesz, nasceu como um movimento liberal e anti-comunista. Fundado por estudantes universitários, tinha como um dos principais líderes um jovem Viktor Órban que, em junho de 1989, num célebre discurso, exigiu a retirada das tropas soviéticas do país e a realização de eleições livres. O Fidesz era o derradeiro símbolo de uma geração que queria construir na Hungria uma democracia liberal. E durante a primeira década deste século, a relação de Órban com a Rússia permaneceu distante. Durante a invasão russa da Geórgia, em 2008, Órban criticou, sem rodeios, a agressão russa.

Tudo parece ter mudado em 2009. Ainda líder da oposição, Viktor Órban foi convidado a deslocar-se a São Petersburgo para o congresso do partido de Vladimir Putin, o Rússia Unida, onde se encontrou com Putin. Como afirmou Andras Racz, do Conselho Alemão de Relações Exteriores, “desde então, Órban não fez uma única declaração crítica sobre Putin”.

A Rússia à mesa do Conselho Europeu

Com a chegada ao poder de Órban, em 2010, os sinais de alerta sobre a proximidade de Hungria à Rússia foram-se acumulando, com a Europa a optar sistematicamente por ignorá-los ou por tentar minimizar esse risco. À medida que os relatos sobre a deterioração da democracia húngara se acumulavam, uma investigação do Direkt36 revelou que hackers dos serviços de inteligência russos penetraram as redes informáticas do Ministério dos Negócios Estrangeiros húngaro a partir de 2012, obtendo acesso total aos servidores de correio eletrónico e à rede encriptada usada para transmitir documentos classificados. O governo de Órban não só não contrariou essa presença persistente como encobriu ativamente a situação, recusando-se a partilhar informação sobre os aliados.

Em 2022, Peter Krekó, do think tank Political Capital, indicava que a embaixada russa em Budapeste tinha 56 diplomatas russos acreditados na Embaixada em Budapeste. Por comparação, a 31 de maio de 2022, estavam colocados seis diplomatas russos em Praga, 13 em Varsóvia e três em Bratislava. Um antigo diretor de operações da agência de contra-espionagem húngara, Ferenc Katrein, revelou que foi impedido de montar operações contra a actividade de inteligência russa e que dezenas de oficiais experientes abandonaram a agência, por se sentirem de mãos atadas.

A última revelação é, de todas, a mais inequívoca. Em março de 2026, o Washington Post revelou que, desde há vários anos, o Ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro, Péter Szijjártó, telefonava regularmente ao homólogo russo, Sergei Lavrov, durante os intervalos das reuniões dos Conselhos de Assuntos Europeus da UE, fornecendo a Moscovo relatos em tempo real sobre os assuntos em discussão. Confrontado com estas notícias, Szijjárto desmentiu. Depois admitiu-o, num comício eleitoral. “Falo não só com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, mas também com os da América, Turquia, Israel e Sérvia antes e depois das reuniões”, disse Szijjártó, como se telefonar ao representante de um país contra o qual a UE mantém um regime de sanções sem precedentes fosse uma banalidade diplomática. Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, reagiu dizendo que a revelação “não deveria surpreender ninguém.” Gabrielius Landsbergis, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, disse ter sido alertado para a existência deste canal desde 2024. As revelações continuam – ainda esta semana, foram divulgadas conversas entre os ministros dos Negócios Estrangeiros húngaro e russo em que o ministro húngaro se disponibiliza para partilhar documentos sensíveis discutidos entre os Estados membros da UE.

Significa isto que, durante anos, Moscovo esteve sentada à mesa do Conselho da União Europeia. Involuntária ou deliberadamente – as últimas revelações apontam para esta segunda hipótese - a Hungria serviu como essa plataforma de acesso.

O grau exato de interferência russa na política húngara é difícil de quantificar com precisão. Mas a sua existência é inegável. O mesmo Washington Post revelou que uma unidade do SVR (o serviço de inteligência externo russo) elaborou um plano de nome-código “The Gamechanger”: a encenação de uma tentativa de assassinato contra Viktor Orbán, com o objetivo de desviar a campanha eleitoral do terreno da economia para o terreno emocional da segurança do Estado. Paralelamente, uma rede de bots russos começou a espalhar nas redes sociais a narrativa de que Orbán enfrentaria uma tentativa de assassinato e que a Ucrânia e Zelensky representavam uma ameaça direta à sua segurança. O jornalista investigativo Szabolcs Panyi, que há anos documenta as ligações entre Budapeste e Moscovo, confirmou a chegada à Hungria de operacionais dos serviços de inteligência militar russos - enfrentando, em troca, acusações de espionagem pelo próprio governo húngaro.

Porque é que esta eleição interessa e é diferente das outras

Quando o Fidesz de Viktor Órban venceu as eleições de 2010 com uma supermaioria, o partido desenvolveu uma nova Constituição e um novo sistema eleitoral desenhado para favorecer o partido no poder. Pela primeira vez desde 2010, o Fidesz enfrenta uma ameaça à sua permanência no poder. Péter Magyar, líder do partido Tisza e ele próprio um ex-militante do Fidesz, lidera a maioria das sondagens com margens significativas. A vitória do Tisza seria história e permitiria começar a reverter o processo de definhamento da democracia húngara.

Mas é para a Europa que estas eleições verdadeiramente contam. A Comissão Europeia apresentou a sua proposta para o Quadro Financeiro Plurianual 2028–2034, o orçamento da União, que exige aprovação unânime no Conselho. A Hungria de Orbán já bloqueou a libertação de 90 mil milhões de euros em empréstimos à Ucrânia (voltando atrás com a palavra dada), já atrasou pacotes de sanções, já usou o veto como arma política de forma sistemática. Com o novo orçamento europeu em negociação – e num momento em que a Europa precisa de investir maciçamente em defesa, competitividade e apoio à Ucrânia - a permanência de Orbán no poder representa um risco existencial para a capacidade de decisão europeia.

Há quem argumente que outros líderes poderiam substituir Orbán no papel de voz de Moscovo no Conselho Europeu. É verdade que Robert Fico regressou ao poder na Eslováquia e que Andrej Babiš se tornou primeiro-ministro da República Checa, ambos com retóricas ambíguas sobre a Ucrânia. Mas nenhum deles tem com a Rússia as “sinergias” que a Hungria desenvolveu ao longo da última década e meia. Robert Fico regressou ao poder há relativamente pouco tempo; a Eslováquia teve antes disso governos assumidamente pró-Ucrânia. A República Checa de Babiš, apesar da retórica eurocéptica, acabou por manter a iniciativa checa de munições para a Ucrânia e tem um presidente, Petr Pavel, que funciona como contrapeso institucional. Nenhum dos dois tem um Szijjártó ao telefone com Lavrov. Nenhum dos dois alberga uma embaixada russa com 56 diplomatas. Nenhum dos dois teve os seus sistemas informáticos diplomáticos comprometidos durante uma década sem que o governo se dignasse reagir.

A Hungria não é apenas uma pedra no sapato da Europa. É por onde países como a Rússia conseguem aceder a informação sensível europeia e onde é minada a capacidade de decisão colectiva e credibilidade geopolítica da União. As eleições de 12 de abril não decidem apenas quem governa um país de menos de dez milhões de pessoas. Decidem se a União Europeia consegue agir com clareza num mundo que lhe é cada vez mais hostil.

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