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Analista de política internacional

O primeiro dia da Hungria pós-Órban

14 abr, 18:26
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A princípio é simples, anda-se sozinho. Também Péter Magyar começou sozinho a autêntica cruzada iniciada contra o seu antigo partido, o Fidesz. Em fevereiro de 2024, rompeu com o regime a que pertencia, sem partido ou estrutura, apenas com a acusação de que o governo de Orbán encobria crimes de abuso sexual contra menores. Dois anos depois, 3,3 milhões de húngaros deram-lhe 138 dos 199 mandatos parlamentares, a maior afluência de sempre (quase 80%) e o mandato mais forte da história democrática do país. O resultado é inequívoco. Mas o que acontece a seguir importa mais do que o que aconteceu domingo.

O Presidente da Hungria dispõe, desde domingo, de 30 dias para convocar a nova Assembleia Nacional. O prazo limite é, portanto, o dia 12 de maio. Na sessão inaugural, os deputados prestam juramento, elegem o presidente do Parlamento e o Presidente propõe formalmente o candidato a primeiro-ministro, cuja investidura é aprovada por maioria simples. O futuro primeiro-ministro Magyar já pediu ao Presidente Tamás Sulyok que convoque o Parlamento o mais depressa possível, fixando como meta a tomada de posse a 5 de maio. Pediu-lhe também que se demita: Sulyok, como quase todos os titulares de cargos institucionais, é um herdeiro do sistema Orbán. Até lá, o governo cessante mantém-se em funções com competências limitadas.

O voto de domingo pode ser lido em três dimensões. Primeiro, os húngaros rejeitaram a narrativa anti-Ucrânia que Orbán montou como eixo central da campanha. Os cartazes que retratavam Zelensky como criminoso e Magyar como agente de Bruxelas não produziram o efeito pretendido. Num dos países mais pobres da União Europeia, os eleitores priorizaram questões concretas como a saúde, a corrupção e a estagnação económica. Segundo, deram uma resposta clara à presença russa. O grito Ruszkik haza! ("Russos fora!"), nascido na Revolução de 1956, tornou-se o som desta campanha, incluindo na noite eleitoral. Terceiro, rejeitaram a interferência americana: JD Vance deslocou-se a Budapeste para fazer campanha aberta por Orbán, chamou-o de "modelo para a Europa" e telefonou a Trump a partir do palco de um comício. Os húngaros declararam nas urnas o que achavam desta ideia. Um dado merece registo à parte: o processo democrático funcionou sem contestação, a transição foi aceite na própria noite eleitoral e Orbán reconheceu bastante cedo a derrota. Num país alvo de desinformação russa e que foi descendo sucessivamente nos rankings sobre a qualidade da democracia, isso não é trivial.

Convém, porém, resistir à tentação de tratar este resultado como um ponto de chegada.

A Hungria é um dos países mais pobres da UE onde, ao longo destes 16 anos, Orbán construiu não apenas um governo, mas um sistema: instalou aliados em instituições chave, da autoridade dos media ao Tribunal Constitucional, com mandatos prolongados para sobreviverem a uma mudança de poder.

E Magyar não é o antípoda de Orbán. É um produto do sistema Fidesz que propõe corrigir-lhe os exageros, não refundá-lo: defende a cerca na fronteira, opõe-se às quotas migratórias e mantém uma posição cautelosa sobre a adesão ucraniana à UE. É, em muitos sentidos, um Fidesz corrigido, o que também ajuda a explicar o seu sucesso junto de um eleitorado conservador que queria mudança, não rutura.

O calendário dos próximos meses definirá o alcance real desta viragem. O primeiro marco é a investidura e a formação do governo, previstas para início de maio. O segundo é o primeiro Conselho Europeu em que Magyar representará a Hungria, o primeiro em vários anos em que Budapeste se senta à mesa sem a garantia de um veto. O desbloqueio do empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, vetado por Orbán em março (voltando atrás com a palavra dada em dezembro), será o primeiro teste. O terceiro é a janela regulatória dos próximos meses: segundo vários analistas, o novo governo terá de aprovar reformas verificáveis até agosto (adesão à Procuradoria Europeia, gabinete de recuperação de ativos, passos concretos em matéria de Estado de direito) para desbloquear cerca de 20 mil milhões de euros em fundos europeus congelados. A primeira viagem de Magyar como primeiro-ministro será a Varsóvia, depois Viena e Bruxelas - o oposto de Orbán, que privilegiou reiteradamente os contatos com Moscovo.

O resultado de domingo é o fim de 16 anos de governação ininterrupta do Fidesz. Não é, em si mesmo, o início da Hungria europeia que muitos esperam, antes o início de um processo cujos resultados dependem inteiramente do que Magyar fizer com o mandato que recebeu. O pior que lhe pode acontecer é ser tratado como se já o tivesse feito

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