Ninguém deve ignorar a presença de humidade, muito menos de bolor. Estes são os riscos para a saúde

24 jan, 08:00
Tosse (Pexels)

Mais humidade, mais riscos para a saúde. Há pessoas mais vulneráveis e a máscara nem sempre é opção

Porque é que a humidade faz mal

“A humidade, isto é, a presença de vapor de água no ar que a pessoa respira, quando está em valores elevados, como atualmente, promove o crescimento e reprodução de microorganismos, entre eles os fungos”, começa por explicar David Barros Coelho, pneumologista no Centro Hospitalar Universitário São João e membro da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Os fungos “estão naturalmente presentes em todos os locais, mas numa concentração relativamente baixa e com uma distribuição bastante variada”, sendo na maioria dos casos inofensivos. O mesmo não acontece quando esses fungos, já sob a forma de bolor, estão em grande quantidade e em locais onde a pessoa passa largas horas, como por exemplo, no quarto onde dorme. 

Entre os fungos que podem estar na origem do bolor está o Stachybotrys chartarum, conhecido também como bolor negro.

Quais os riscos da exposição constante

“Quando há muita humidade, os fungos crescem mais e temos colónias que podem ser vistas a olho nu, os chamados bolores. E os fungos em grande concentração podem afetar múltiplos órgãos”, alerta o médico, destacando que é a nível respiratório que as consequências são mais comuns.

Em 2009, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a pente fino alguns dos estudos feitos até então sobre o impacto da humidade e do bolor na saúde e concluiu que há “evidência de uma associação entre fatores relacionados à humidade interna e uma ampla gama de efeitos na saúde respiratória, incluindo desenvolvimento de asma”, que em metade dos casos (50%) leva a um agravamento. A exposição à humidade e ao bolor pode ainda causar “infecções respiratórias” e também fúngicas. 

“Existem doenças ainda mais graves, mas menos comuns, causadas pela exposição aos fungos.” O médico David Barros Coelho dá o exemplo da “pneumonite de hipersensibilidade”. 

Há indivíduos suscetíveis com infecção pulmonar muito exuberante que quando muito expostos podem desenvolver uma fibrose pulmonar, que pode causar incapacidade e fazer com que precisem de oxigénio todos os dias”, esclarece.

David Barros Coelho explica ainda que “há infecções por fungos, como há bacterianas e víricas” e, por isso, “também há pneumonias por fungos”, sobretudo em doentes “com doença respiratória de base, como a doença pulmonar obstrutiva crónica”. Porém, frisa, “acontece em doentes com algum grau de imunossupressão”, como aqueles que receberam um transplante, têm sida ou doença oncológica.

A que sintomas deve estar atento

A exposição contínua a este conjunto de fungos pode causar em pessoas mais sensíveis ao bolor sintomas como congestão nasal e olhos ou pele irritados ou com comichão. “Algumas pessoas, como as que têm alergias aos bolores ou com asma, podem ter reações mais intensas”, diz o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).

David Barros Coelho destaca que “o exemplo paradigmático é a asma, a tosse, a falta de ar, a pieira e o aperto torácico”, sendo que estes sintomas “podem surgir em idade adulta e pediátrica”.

“Nestes casos em que há uma proliferação de fungos, há um agravamento de asma e sintomas de alergia, como corrimento nasal ou comichão no nariz”, adianta o médico.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos acrescenta ainda olhos vermelhos e erupções cutâneas como reações ao contacto constante com fungos, como os do bolor que surgem em locais com humidade. Tosse seca, dor de garganta e sinusite são outras consequências associadas ao contacto com o bolor originário em humidade, sendo que em casos de hipersensibilidade pode dar-se cansaço, falta de ar e emagrecimento progressivo, lê-se no site Medical News Today, que diz que nos animais o contacto regular com humidade e bolor pode causar micotoxicose, um envenenamento por mofo.

Quem são os mais vulneráveis

Algumas pessoas são sensíveis ao bolor e às consequências da exposição constante, como é o caso da infecção fúngica. Aqui, incluem-se as que têm alergias - a fungos e não só -, as que têm imunodepressão ou doença pulmonar subjacente. Diz ainda o CDC que as pessoas com doença respiratória crónica (como doença pulmonar obstrutiva crónica ou asma) são também mais suscetíveis e podem apresentar dificuldade em respirar. “As pessoas com imunodepressão têm maior risco de ter infecção por bolor”, diz o organismo.

Entre os mais vulneráveis, o médico David Barros Coelho refere que “já foi estudado no nosso país que crianças que estão expostas a determinadas espécies de fungos em ambiente escolar têm maior probabilidade de ter sintomas e asma, há uma relação de causalidade e não só de agravamento”.

Há doentes que fazem fármacos imunossupressores a vida toda, como quem tem lúpus, doença intestinal inflamatória, e podem ter mais probabilidade de desenvolver a doença”, sublinha, referindo-se, ainda, à pneumonia por fungos.

O que deve fazer (antes e depois da humidade)

David Barros Coelho diz que a prevenção, numa primeira fase, começa mesmo a nível da construção: “existe um relatório da União Europeia, feito em 2020, que diz que somos o segundo país em que a população mais reporta a presença de fungos e bolores em casa, isto é preocupante e temos de atuar desde início, quando planeamos a construção da casa”.

Nos casos em que a humidade já está instalada, a ventilação é o primeiro passo, sobretudo nos dias em que “os níveis de humidade estão muito altos, acima dos 60% propicia o crescimento de fungos”. O médico aconselha ainda o uso de um desumidificador e “limpar e secar adequadamente as superfícies, como madeira e tetos falsos”, também suscetíveis à humidade e ao desenvolvimento de bolor.

Segundo o médico pneumologista, “os doentes imunossuprimidos, que fizeram transplante ou quimioterapia, em caso de terem de estar invariavelmente em locais com fungos, devem usar máscara, mas devem falar com o médico e com as autoridades de saúde, pois pode ser importante trocar de casa, porque a pessoa vai estar em imunossupressão vários anos”. David Barros Coelho destaca, por fim, que “a máscara é temporária e não definitiva”.

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