Covid-19: países pobres receberam 0,6% das vacinas mundiais até final de novembro

Agência Lusa , AM
15 dez 2021, 06:53
Vacinação no Brasil
Vacinação no Brasil

Human Rights Watch revela que grande maioria das vacinas produzidas pela Pfizer, Moderna e Janssen teve como destino países desenvolvidos

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Os países pobres receberam até final de novembro apenas 0,6% das vacinas contra a covid-19 produzidas no mundo, revelou hoje a Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch, que alertou para um acesso “extremamente desigual”.

“O acesso às vacinas [contra a] covid-19 é extremamente desigual globalmente e a escassez de suprimentos ameaça a saúde, vidas e meios de subsistência à medida que novas variantes surgem”, alertou a ONG num comunicado a que a agência Lusa teve acesso.

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Até 29 de novembro, os países pobres tinham recebido apenas 0,6% das vacinas mundiais e a grande maioria das vacinas produzidas pela Pfizer, Moderna e Janssen teve como destino países desenvolvidos, segundo dados recolhidos pela empresa de análises e informações cientificas, Airfinity, citados pelo grupo People’s Vaccine Alliance.

Em 12 de outubro, governos de países desenvolvidos comprometeram-se a doar 1,8 biliões de doses de vacinas, mas apenas 14% foram entregues, de acordo com os dados do Airfinity.

Previsões enganadoras

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As previsões de uma produção global que previam que o mundo em breve teria uma quantidade suficiente de vacinas contra a covid-19 são enganadoras, alerta a ONG.

“A produção de vacinas tem ficado repetidamente aquém das projeções. Em setembro, a COVAX, a iniciativa global de aquisição de vacinas, anunciou uma redução de 25% na sua angariação de vacinas previsto para 2021”, salientou a Human Rights Watch.

As previsões não têm em consideração as doses de reforço necessárias, a vacinação de crianças ou a vacinação contra as novas variantes, bem como aquelas que são perdidas em desperdícios.

“Estes fatores aumentam significativamente a necessidade global”, referiu a ONG.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os dias há seis vezes mais doses de reforço a serem administradas globalmente do que as primeiras doses em países pobres.

A “maioria das doações” de vacinas para África “têm sido ‘ad hoc’, fornecidas com pouca antecedência e com uma vida útil curta”.

“Isto tornou extremamente difícil para os países planear campanhas de vacinação e aumentar a capacidade de absorção”, relataram num comunicado conjunto, divulgado em 29 de novembro, o African Vaccine Acquisition Trust (AVAT), os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças, reunidos no Africa CDC, e a COVAX – o mecanismo internacional, criado pela Aliança para as Vacinas (Gavi) e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para permitir a 92 países e territórios desfavorecidos receberem gratuitamente vacinas financiadas por países ricos.

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Mais de cem empresas capazes de produzir vacinas

Mais de 100 empresas da África, Ásia e América Latina têm potencial para produzir vacinas mRNA contra a covid-19, revelou a Human Rights Watch, que instou os países desenvolvidos a partilharem o seu conhecimento e tecnologia.

Uma lista divulgada por especialistas aponta potenciais fabricantes que precisam de acesso à propriedade intelectual, tecnologia e materiais para produzir vacinas e dar “uma resposta mais rápida e justa” contra a covid-19.

“Esta nova lista deixa claro que o aumento da produção de vacinas de mRNA é possível fora dos Estados Unidos e Europa. Isto demonstra que as empresas que desenvolveram vacinas de mRNA covid-19 seguras e eficazes não estão a partilhar o seu conhecimento e tecnologia de forma ampla com fabricantes competentes”, alertou.

A ONG, juntamente com outros grupos, apelou aos governos dos Estados Unidos e Alemanha para “agirem” e tomarem as medidas ao seu alcance para “garantir que os fabricantes de vacinas covid-19 transfiram a tecnologia com urgência para outros fabricantes competentes da África, Ásia e América Latina e para o centro de tecnologia da Organização Mundial da Saúde (OMS)”.

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Aumentar vacinas para responder melhor

Para a Human Rights Watch, “diversificar e aumentar a produção global” em países pobres ou em desenvolvimento, através da partilha de conhecimento e tecnologia, especialmente de vacinas mRNA, permitiria aumentar o número de vacinas disponíveis e deixaria o mundo “melhor posicionado para responder coletivamente à pandemia”.

“As previsões de uma produção global de vacinas, que sugere que em breve haverá vacinas contra a covid-19 suficientes para todo o mundo, são enganosas”, alertou a diretora da Human Rights Watch, Aruna Kashyap.

A responsável, citada na nota de imprensa, referiu que os governos dos Estados Unidos e da Alemanha, que financiaram a investigação e desenvolvimento de vacinas, devem pressionar para a transferência de tecnologia e não permitirem “que as empresas ditem onde e como as vacinas e tratamentos que salvam vidas chegam a grande parte do mundo à medida que o vírus sofre mutações”.

Esta lista de potenciais fabricantes de vacinas foi compilada pelo coordenador do projeto AccessIBSA, responsável pela campanha que defende o acesso a medicamentos na Índia, Brasil e África do Sul, e por um especialista em vacinas dos Médicos Sem Fronteiras.

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“Existem mais de 100 empresas da África, Ásia e América Latina que têm a capacidade de fazer uma vacina de mRNA”, garantiu o responsável do projeto AccessIBSA, Achal Prabhala.

Para o especialista, citado no comunicado, estas empresas podem “superar a enorme desigualdade no fornecimento de vacinas de mRNA em países pobres”.

Libertação das patentes

Uma proposta da Índia e da África do Sul para a suspensão temporária de algumas regras globais de propriedade intelectual e comércio continua paralisada na Organização Mundial do Comércio, destaca a ONG.

Uma suspensão destas regras permitiria aos governos colaborar na expansão do fabrico de vacinas, tratamentos e testes à covid-19 sem temer uma retaliação comercial, pode ler-se.

A Human Rights Watch salientou que mais de 60 governos de países pobres ou em desenvolvimento defendem esta proposta e que os Estados Unidos deram indicações de apoiarem a medida.

Mas países desenvolvidos, como a Alemanha, e a Comissão Europeia, têm bloqueado sistematicamente esta intenção, acrescentou.

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