"Lideranças fracas". Palavras da ministra da Saúde motivam demissão do Conselho de Administração do Hospital de Viseu

13 jun, 19:29
Audição da ministra Ana Paula Martins (MANUEL DE ALMEIDA/LUSA)

Responsáveis falam em "falta de confiança manifestada" por parte de Ana Paula Martins

O Conselho de Administração do Hospital de Viseu demitiu-se em bloco. Uma decisão tomada depois de graves críticas da ministra da Saúde, que falou sobre os administradores hospitalares no Parlamento.

Ana Paula Martins disse que há “lideranças fracas” nos hospitais portugueses, o que a administração daquele hospital entendeu como uma “falta de confiança manifestada no nosso desempenho enquanto líderes e gestores”.

Palavras enviadas à ministra numa carta que confirma o pedido de demissão, e na qual também é referida uma “manifesta quebra de confiança política na atual equipa”.

"O conselho de administração da Unidade Local de Saúde de Viseu Dão-Lafões, E.P.E. após ter sido surpreendido e confrontado com as declarações de vossa excelência na Assembleia da República no dia de ontem [quarta-feira], 12 de junho, entende já não reunir as condições para continuar a exercer o seu mandato", afirma, na carta de demissão dirigida à ministra da Saúde.

Neste sentido, "face à falta de confiança manifestada no nosso desempenho enquanto líderes e gestores, vimos apresentar a vossa excelência o nosso pedido de demissão", escreve a administração na missiva dirigida a Ana Paula Martins.

A ministra da Saúde disse, na quarta-feira, na Assembleia da República, que "não é aceitável ter em janeiro hospitais com profissionais já com o valor de horas extra anuais obrigatórias atingido".

Considerando que as lideranças em saúde são "fracas", a governante afirmou que "tem de haver escrutínio, tem de haver avaliação de desempenho para os gestores".

"Não basta que os administradores venham dizer que não têm condições. É preciso perceber de que condições precisam", sustentou Ana Paula Martins, sublinhando que "nestas unidades, três IPO e 39 ULS [Unidades Locais de Saúde], estão 15 mil milhões de euros de impostos dos portugueses".

Sobre as "lideranças fracas", considerou que há necessidade de atualizar a carreira de administrador hospitalar, que data de 1982.

"Precisamos de gestores cada vez mais aptos ao que é um SNS [Serviço Nacional de Saúde] moderno, mais tecnológico e que necessita de mais competências, não só de gestão sobre áreas de produção hospitalar, mas na área da mobilização de recursos humanos, na área das chamadas 'soft skills', das competências de relacionamento e gestão de conflitos e também nas de natureza financeira", afirmou.

A administração da Unidade Local de Saúde Viseu Dão Lafões ativou em 1 de março o plano de contingência, por falta de médicos, que implicou o encerramento exterior das urgências pediátricas de sexta-feira a domingo no período noturno.

Segundo a administração da ULSVDL, a saída de dois médicos e a chegada do período de férias "agravaram" a situação levando ao encerramento das urgências pediátricas, desde 1 de junho, todas as noites da semana, entre as 20:00 e as 08:00.

Numa carta dirigida aos profissionais a que a agência Lusa teve acesso, o conselho de administração lembra que foi “nomeado a 07 de março de 2024 para desenvolver um projeto complexo de integração das instituições de saúde”.

Na missiva, a administração diz que, ao longo de três meses, trabalhou na “reorganização de estruturas, alinharam-se vontades e equipas para projetar o futuro” das ULS.

“As insuficiências de recursos e as limitações da autonomia de gestão continuaram a condicionar este Conselho de Administração que, no entanto, nunca se esquivou aos problemas”, assume.

O conselho termina a carta, lembrando as palavras da ministra em sede parlamentar para justificar aos profissionais que considerou seu “dever apresentar hoje o pedido de demissão”.

“Para facilitar a transição para uma nova equipa que possa liderar esta instituição em condições de perfeita articulação com a tutela”, defende.

As duas cartas terminam de igual maneira, com o conselho de administração a afirmar que deixa funções “com a consciência tranquila e com a certeza de que o trabalho realizado fala” por os administradores.

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