“Quando uma mulher ouve estas notícias de urgências fechadas, de bebés a nascerem em ambulâncias e de mulheres em trabalho de parto a andarem de hospital em hospital, obviamente que prefere ir para um hospital privado. E os privados nota-se que não estavam preparados”
Uma grávida de seis semanas entra nas urgências de um hospital privado com um sangramento abundante e dores pélvicas. É recebida de imediato pela triagem, onde uma enfermeira a classifica como doente “urgente” e a encaminha para uma sala, onde pode “estar mais tranquila e deitar-se um pouco”. Espera…, espera…, espera… durante duas horas. Tem 32 anos e é engenheira bioquímica. Prefere manter o anonimato e não identificar a unidade de saúde onde foi assistida porque se “sente mais confortável nessa condição”.
Durante a espera foi chamada outra paciente, que chegou depois mas foi considerada “ainda mais urgente”. Durante a espera o acompanhante da doente, perante o desconforto e desespero crescente da mulher, pediu ajuda por duas vezes à enfermeira da triagem e a uma assistente operacional, que consultam o computador: “Sabe, os médicos que estão aqui a fazer urgências também estão a fazer cirurgias e partos… mas ela é já a seguir, se não vier mais ninguém considerado mais urgente do que ela”.
São 15:00. A sala de espera das urgências, comum às análises clínicas e às ecografias obstétricas, está a abarrotar de mulheres grávidas e respetivos acompanhantes. Não há cadeiras vazias.
Ao fim de duas horas, a grávida de seis semanas com sangramento abundante e dores pélvicas é vista por uma obstetra, que diagnostica “irregularidade no saco gestacional”, mas deteta batimentos cardíacos “normais” do feto e crescimento “compatível com a idade gestacional”. Envia a paciente para casa, com indicação de “repouso absoluto” e de regresso às urgências, caso o sangramento “não pare, aumente ou seja acompanhado de coágulos”.
A jovem futura mãe veio para casa com o coração mais tranquilo, mas assustada: se um seguro de saúde e uma instituição privada já não lhe garantem um atendimento tão célere quanto o desejado ou sequer quanto o estipulado pelos protocolos médicos e o SNS está como relatam as notícias, quem lho garantirá? De acordo com a triagem de Manchester, o sistema usado para classificar a gravidade dos casos e determinar a prioridade no atendimento de urgência, a situação de uma grávida com sangramento abundante e dores pélvicas seria considerada uma situação grave e urgente. Seria classificada com pulseira laranja (prioridade 2), indicado para situações que requerem atendimento urgente, mas não são de risco iminente de vida, podendo esperar no máximo 10 minutos. Foi o caso da grávida que esperou… duas horas.
Corrida ao privado
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), admite que haja “esse risco” da “fuga de grávidas” para o setor privado, “perante a instabilidade que continua a haver nos serviços de obstetrícia do SNS”. “É natural que algumas grávidas procurem programar os seus partos no privado”, resume, mas sublinha que “números concretos só o Ministério da Saúde é que os terá”.
“Todos ouvimos situações desse género. Todos conhecemos casos de mulheres que optaram por programar os seus partos nos hospitais privados. Mas são casos pontuais, que não podemos extrapolar”, considera o responsável.
Contudo, os médicos, que estão no terreno diariamente, têm a “plena consciência” que “há cada vez mais grávidas” a procurar cuidados de saúde no setor privado. “Quando uma mulher ouve estas notícias de urgências fechadas, de bebés a nascerem em ambulâncias e de mulheres em trabalho de parto a andarem de hospital em hospital, obviamente, que prefere ir para um hospital privado”, reconhece Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos.
“Indiscutivelmente que sim [há cada vez mais grávidas a recorrer aos cuidados de saúde privados]. É por demais evidente. E os privados nota-se que não estavam preparados para esta procurar crescente”, corrobora Fernando Cirurgião, médico obstetra e diretor do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa.
Fernando Cirurgião acredita que a causa para este fluxo de grávidas a procurarem instituições privadas está nesta “instabilidade assistencial”. “Muitas delas acreditam e sentem confiança nas instituições publicas. E o seu plano 'A' é serem seguidas no serviço público. Não acreditam é nesta instabilidade de encerramentos. Tudo isso acaba por fazer com que, ao longo da gravidez, muitas grávidas irem fazendo o plano 'B' para fazerem o nascimento no privado”, relata Fernando Cirurgião.
O médico, que também presta saúde no privado, considera que “são vários os fatores que contribuem para isto”. “Nos últimos dois anos, tem sido de uma forma crescente e mantida”, garante. “As próprias grávidas não sentem que a situação melhore e a verdade é que, nos últimos nove meses, nada mudou.”
“Eu interrompi férias para vir fazer urgências, para não entrarmos naquela situação de encerramento [no São Francisco Xavier]”, exemplifica Fernando Cirurgião.
O “papel crucial do privado”
E o que procuram as grávidas que deixam o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para serem assistidas no privado. O obstetra não tem dúvidas: “Procuram estabilidade e personalização dos cuidados. É procurar aquele médico que a vai acompanhar e a quem ela possa ligar quando precisa. Isso deixa-as mais confortáveis e mais tranquilas, num período de grande ansiedade que é a gravidez”.
Sem resposta no SNS, “quem precisa, vai recorrer onde pode e vai sobrecarregando o privado”. “Os privados estão a fazer um papel crucial. Não se imagina onde iriam nascer todas estas crianças, se não fossem os privados. Mas eles não estavam preparados para receber este movimento”, considera Fernando Cirurgião.
“As grávidas deslocaram-se para o setor privado. O próprio privado está a ter grandes dificuldades em acompanhar essa deslocação em massa”, concorda Carlos Cortes.
Os números não enganam. O número de partos continua a ser maior no sistema público de saúde, mas tem vindo a crescer, de forma substancial, no privado. De acordo com a Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), desde 2019, que o crescimento anual anda perto dos 800 partos.
Em 2019, realizaram-se 11.209 nos hospitais privados. Em 2020, registou-se um aumento de 734 partos (11.943). Em 2021, ano de pandemia, houve 12.810 partos nas instituições privadas (mais 867). O crescimento, em 2022, foi menor – registam-se 13.135 partos (mais 325 do que no ano anterior). Mas em 2023, o aumento foi de quase 1.200 (um total de 14.314 nascimentos). No ano passado, houve um aumento de 778, face a 2023, com o registo de 15.092 nascimentos.
De acordo com os dados da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), no total dos partos efetuados em Portugal continental, nos anos de 2023 e 2024, cerca de um quarto foram realizados no privado. De acordo com a contabilidade da ERS, os números de nascimentos no privado são até ligeiramente maiores do que os contabilizados pela APHP (15.127, em 2023, e 15.715, em 2024).
“Como se poderá constatar, o número de portuguesas e famílias que confiam nos hospitais privados para o nascimento dos seus filhos tem aumentado de forma consistente nos últimos cinco anos. Em 2024 ultrapassamos os 15 mil partos e os hospitais da Luz, da CUF e dos Lusíadas, em Lisboa, são das maiores maternidades do país”, conclui Óscar Gaspar, presidente da APHP, numa resposta escrita à CNN Portugal.
Óscar Gaspar assegura que “este aumento de acompanhamento de grávidas e de partos tem sido planeado e, embora seja um serviço com picos de atividade, entende-se que a capacidade instalada tem respondido de forma adequada às necessidades”.
Ao contrário de Carlos Cortes e Fernando Cirurgião, Óscar Gaspar não vê “qualquer efeito direto entre notícias sobre o SNS e a preferência pelas maternidades privadas”.
Ainda não há números relativos a 2025, mas Fernando Cirurgião não tem dúvidas em afirmar: “Este ano está a ser pior do que nos outros anos. É o que se sente no terreno”.
Os casos “nem”… nem no privado, nem no público
Para o bastonário da Ordem dos Médicos, o grande problema não está na “deslocação em massa” de grávidas para o setor privado: “Essas estão a ser assistidas”. Carlos Cortes sublinha que “a situação mais preocupante é a das grávidas que não vão a lado nenhum”. “São mulheres que perderam a confiança no SNS e não têm recursos financeiros para recorrer ao privado. Têm partos em casa, com a ajuda de pessoas sem qualificação, gravidezes que não estão a ser seguidas de forma adequada. Depois, chegam às urgências públicas com consequências graves, para as mães e para os bebés, de partos caseiros, sem assistência adequada”, alerta o bastonário.
A gerir os serviços de Obstetrícia de um dos maiores hospitais do país, Fernando Cirurgião corrobora: “Não é de todo inédito aparecerem, nas urgências, grávidas que nunca fizeram uma ecografia. (…) Também têm aumentado os casos de ambulâncias com a mãe e com o bebé que nos aparecem nas urgências a precisar de assistência”. O obstetra fala e “descalabro completo”.
Carlos Cortes fala em “retrocesso” na saúde materno-infantil. Justifica que “o grande problema” é a falta de médicos, pede “uma nova carreira médica, com progressão baseada no mérito, e formação médica contínua”.
Mas o bastonário dos médicos aponta o dedo também a uma “gestão arcaica que é feita dos hospitais”. “A estrutura dos hospitais é a mesma de há 40 ou 50 anos e não tem havido adaptação à população. (…) É inadmissível que o nosso SNS não esteja já dotado de um sistema integrado de telemedicina e de teleconsultas. (…) O SNS não se soube desenvolver naquilo que é a capacidade de atração de médicos e outros profissionais. Onde está a direção executiva do SNS?”, questiona Carlos Cortes.
Nascer em Portugal não é igual em todo o lado
Os números da ERS não metem. Há regiões do país onde não há sequer recurso ao privado para nascer, ou, simplesmente, porque nem há oferta privada ou porque a oferta pública se revela suficiente. E há também a situação de regiões onde os nacimentos no privado serem residuais. É o caso da região Centro do país, que, em 2023, registou 57 partos no privado (num total de cerca de 12 mil nascimentos) e, em 2024, registou apenas 15 partos (num total de 11.443).
Na região Norte, o número de nascimentos total é ligeiramente inferior aos da Grande Lisboa (Norte: 26.654, em 2023, e 25.968, em 2024; Grande Lisboa: 27.491, em 2023, e 28.091, em 2024). Contudo o número de nascimentos no serviço privado de saúde é muito superior na região da capital: 10.254, num total de 27.491 nascimentos, em 2023; e 10.766, num total de 28.091partos, em 2024.
“Não podemos, de todo, estar a colocar no mesmo saco o ‘nascer em Portugal’. Porque é diferente nascer na região da Grande Lisboa e Vale do Tejo e nascer no resto do país. E Portugal é tão pequeno… Isto é absurdo”, reflete Fernando Cirurgião.
O obstetra considera que há falta de médicos no setor público e que há aqui uma espécie de “círculo vicioso”: “Há cada vez mais médicos a perceberem as necessidades do privado, que remunera melhor, e a irem também para o privado”.
“Alguma coisa nesta equação, neste ciclo, tem de ser quebrada”, sublinha.
A corrida aos seguros de saúde
Quem recorre aos hospitais e clínicas privadas tem de pagar do próprio bolso ou ter um seguro de saúde que lhe permita suportar as despesas.
A Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) informa que o “aumento da procura dos seguros de saúde tem sido acentuado nos últimos anos, tendo atingido 1,7 mil milhões de euros de prémios brutos emitidos em 2024 (830 milhões de euros em apólices individuais e 870 milhões em apólices de grupo), o que representa um crescimento de 18,9% face ao ano anterior (16,9% nas apólices individuais e 21,0% nas apólices de grupo)”.
A ASF esclarece que “não são recolhidos dados junto das empresas de seguros sobre as intenções de aquisição de seguros de saúde, pelo que não é possível apurar qual a percentagem desse aumento que corresponde a mulheres grávidas ou que pretendem engravidar e que, para tal, procuram cobertura para parto”.