Hospitais e lares sem sistemas de climatização para fazer face às ondas de calor

22 jul, 07:39

REVISTA DE IMPRENSA. Temperaturas excessivas foram responsáveis pelo excesso de mortalidade registado em 2003 e levaram a que fosse recomendada a instalação deste sistema de climatização nos serviços de internamento. Quase 20 anos depois, há hospitais e lares que continuam sem sistemas de climatização

Os hospitais e os lares portugueses não têm proteção contra as ondas de calor que, segundo um estudo do Instituto Ricardo Jorge (INSA), foi a causa do excesso de mortalidade registado em 2003 e em que a maioria das 2000 mortes ocorreu dentro dos hospitais, avança o jornal Expresso desta sexta-feira. Segundo o mesmo estudo, nesta vaga, a mortalidade era 60% superior nas unidades sem ar condicionado, tendo sido recomendada a instalação deste sistema de climatização nos serviços de internamento.

Mas, 20 anos depos, há hospitais que continuam sem ar condicionado nos seus serviços, como é o caso da Neonatologia do Hospital de Faro, onde os pais temem pelos bebés internados.

Também no Centro Hospitalar Tondela-Viseu, vários serviços continuam sem ar condicionado e durante a última vaga de calor houve doentes que se sentiram mal e que tiveram "complicações clínicas provocadas pela subida abrupta das temperaturas".

Nesta unidade, a ventilação é feita com recurso a ventoinhas ou "equipamentos portáteis", havendo mesmo profissionais que levam aparelhos de casa para tentar garantir uma melhor climatização.

Segundo o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, em declarações ao Expresso, "alguns hospitais têm problemas estruturais de climatização porque foram construídos há muitos anos. Para as construções novas, a lei estabelece que tem de existir um sistema de climatização, mas para os antigos, que são a maior parte, não, já que não era obrigatório quando foram construídos”.

Por sua vez, Ana Fernandes, da Associação Portuguesa de Engenheiros de Frio e Ar Condicionado, o ar condicionado central, obrigatório nos hospitais construídos a partir de 2008, é muitas vezes ineficiente, como acontece na Urgência do Hospital de São José, em Lisboa.

Já nos lares, a situação é mais grave, uma vez que as recomendações da Administração Central de Sistemas de Saúde (ACSS) para as unidades de saúde "deixam de fora as Estruturas Residenciais para Idosos” e só exigem a existência de ar condicionado no licenciamento de novas unidades "quando não estão garantidas todas as condições de ventilação e arejamento dos espaços”.

440 óbitos num dia

Pelos cálculos da CNN Portugal, entre 9 e 15 de julho de 2021 o país registou 1.990 óbitos, número que disparou 33% para 2.644 no mesmo período de 2022, o valor mais alto desde que existem registos oficiais (2009). 

Aliás, ao longo de quatro dias Portugal bateu máximos de mortalidade para esta época do ano e o pico aconteceu no dia 14 de julho com 440 óbitos num único dia. 

Rui Nogueira, ex-presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, explica que as ondas de calor e sobretudo esta que dura há vários dias são particularmente preocupantes para quem tem insuficiência cardíaca, insuficiência respiratória e hipertensão. 

No caso dos hipertensos, o médico de família recorda que não se lembra de outra altura em que tenha visto tantos doentes com necessidade de mudar a medicação devido ao risco de ficarem com uma tensão demasiado baixa por causa do calor em excesso. 

"Temperaturas acima dos 35 graus já são difíceis para as pessoas idosas e doentes, mas acima dos 40 graus, como temos visto, é avassalador", conclui o médico. 

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