Ela foi uma das primeiras hospedeiras negras da Pan Am a viajar pelo mundo

CNN , Francesca Street
22 ago, 09:00
Sheila Nutt, por Philip Keith para a CNN

No verão de 1969, Sheila Nutt era uma das duas mulheres negras num hotel movimentado de Filadélfia à espera da entrevista para um cobiçado cargo de hospedeira da Pan American World Airways.

Nutt era estudante universitária, tinha 20 anos e vivia em Filadélfia. Uns anos antes, fora primeira dama de honor de Filadélfia para o concurso de Miss América.

"Fui a primeira afro-americana a ser selecionada primeira dama de honor ", diz Nutt à CNN Travel. "Apesar de não ter ficado em primeiro lugar, fiquei muito felicíssima com o resultado. Senti-me pioneira."

Durante o concurso, Nutt conversou com as outras concorrentes sobre os seus objetivos de vida, dos seus sonhos de se tornar modelo ou atriz. Uma das raparigas referiu que as companhias aéreas estavam à procura de hospedeiras.

Nutt ficou intrigada com a ideia de trabalhar como hospedeira. Era um bilhete para fora de Filadélfia e para o seu futuro.

"Se me tornasse hospedeira, havia a possibilidade de poder ser descoberta num avião", diz Nutt.

Após o fim do concurso, Nutt lembra-se de fazer recortes do jornal local Sunday com a sua melhor amiga Sandy. Recorriam à página de anúncios de emprego onde viram um anúncio publicado pela Pan Am.

O cargo não era para todas. As candidatas tinham de ter curso universitário, falar uma segunda língua e ter determinada altura e peso, e os óculos eram proibidos. Mas a Lei dos Direitos Civis de 1964 proibira a discriminação contra os candidatos com base na raça, pelo que as candidatas de todas as origens se sentiam encorajadas. A primeira vaga de hospedeiras negras tinha iniciado funções alguns anos antes, e Nutt e Sandy estavam interessadas em fazer parte desse grupo.

Enquanto esperava para ser entrevistada, Nutt folheou os panfletos da Pan Am que estavam na mesinha de apoio à sua frente. Imagens deslumbrantes de Roma, Paris, Istambul e Buenos Aires estavam espalhadas pelas páginas.

"Eu só tinha lido sobre esses sítios nos livros de História", diz Nutt.

A ideia de visitar estes destinos era empolgante.

"Meu Deus, quero mesmo este trabalho", recorda-se Nutt de ter pensado.

Nutt já não via o trabalho como hospedeira como um meio para realizar um sonho maior de ser atriz ou modelo.

"Tradicionalmente, os afro-americanos não viajavam pelo mundo, íamos de Filadélfia para Atlanta", conta. "Então, a ideia de conhecer o mundo era empolgante para mim."

No verão de 1969, Sheila Nutt, de 20 anos, foi selecionada para ser uma das primeiras hospedeiras da Pan American World Airways. Nutt fora primeira dama de honor no concurso Miss Filadélfia, e soube durante o concurso que as companhias aéreas estavam a contratar. Foto Philip Keith para a CNN

A entrevista correu bem. Nutt diz que não se atrapalhou quando a entrevistadora lhe pediu para demonstrar o seu "andar".

"Eu tinha estado em concursos de beleza, sabia andar pela sala de forma a mostrar um nível de elegância e confiança", diz Nutt.

Duas semanas depois, Nutt recebeu um telegrama a informá-la que tinha sido aceite. Faltava apenas passar num exame médico e frequentar o curso de formação da Pan Am.

"Quando recebi o telegrama, corri para o meu quarto, abri-o, gritei e berrei, e disse: 'Oh, meu Deus! A minha mãe pensou que tinha acontecido alguma coisa grave.”

Nutt recorda que os pais inicialmente manifestaram alguns receios relativamente à aceitação do emprego.

"Eles cresceram a apreciar e a compreender o meu desejo de sair de Filadélfia e de ver o mundo. Queria ver os sítios sobre os quais tinha lido. Queria usar a língua que estudara durante quatro anos no liceu", conta Nutt.

A amiga de Nutt, Sandy, não foi contratada pela Pan Am, mas acabou por trabalhar na United Airlines. As duas mulheres continuaram amigas, e pouco depois trocavam histórias das suas aventuras.

Um novo capítulo

Nutt ficou encantada por receber este telegrama a confirmar que tinha sido aceite pela Pan Am. Foto Philip Keith para a CNN

Após o último semestre da faculdade, Nutt viajou para Miami para a formação, em janeiro de 1970.  Ela não se lembra de se ter sentido nervosa antes da formação.

"Aos 21 anos não temos medo", diz Nutt. "Era só excitação."

Devido aos horários dos voos internos da Pan Am em 1970, Nutt teve de viajar de Filadélfia para Miami via Porto Rico. A longa viagem foi o primeiro vislumbre de como seria o próximo capítulo da sua vida.

"Naquele voo de Filadélfia para Porto Rico, informei as hospedeiras da Pan Am que ia para o curso de formação e que elas eram fabulosas. Foram muito amáveis, foram muito encorajadoras e contaram-me as coisas fabulosas que eu iria viver."

Nutt voou para Miami em primeira classe num Boeing 707. Naquela altura, as hospedeiras de bordo confecionavam refeições para os passageiros durante os voos. Sentada no lounge do voo, Nutt ouviu um dos membros da tripulação a dizer o quão cansada estava de comer bifes no trabalho.

Nutt lembra-se de ouvir incrédula. Como é que alguém se fartava de comer bifes?

"Tinha os olhos abertos", diz ela. E estava muito entusiasmada - acho que essa é a palavra adequada, excitação - e ansiosa por descobrir o que o mundo tinha para me oferecer".

A formação em Miami durou um mês. Nutt era a única mulher negra da turma.

Nutt (fila de baixo, quarta a partir da esquerda) foi oradora da sua turma da Pan Am. Foto Philip Keith para a CNN

Na sua infância, Nutt encontrara-se frequentemente em espaços em que era a única pessoa de cor.

"Desenvolvi a capacidade de mudança de códigos, a capacidade de abraçar a diversidade, a equidade e a inclusão e a justiça no início da vida", explica. "Aprendi a acomodar e a superar os preconceitos e o racismo, o bullying e o comportamento desrespeitador que algumas pessoas tentaram ter para comigo."

Nutt aproximou-se de muitas das suas colegas, algumas das quais continua a contactar ainda hoje.

"Mais de 50 anos depois, comunicamos, partilhamos as nossas histórias", diz Nutt. "Estou muito feliz por ter encontrado estas mulheres. Foi uma experiência de aprendizagem muito valiosa para todas nós, porque muitas das minhas colegas nunca tinham visto um afro-americano pessoalmente."

Nutt diz que a maioria das estagiárias estavam "abertas, recetivas e dispostas a incorporar a diversidade na sua esfera de influência pessoal e profissional". Ela teve de enfrentar algum preconceito, e recorda uma estagiária que era mais difícil, e que posteriormente não passou nos testes finais.

"Não permiti que os seus problemas tivessem qualquer impacto na minha capacidade de ter sucesso, na minha capacidade de encontrar felicidade e alegria, e cumprir o meu propósito", diz.

Nutt descreve o currículo de formação como "muito intensivo". As novas recrutas tiveram formação em “gastronomia, línguas, aparência, vinhos - tornámo-nos conhecedoras de vinhos e suas regiões, e dos vinhos que combinavam com as refeições".

Mas a formação não versava aprender apenas em providenciar conforto aos passageiros.

"O nosso foco principal era a segurança dos nossos passageiros", explica Nutt. "Assim, tivemos formação de segurança muito intensiva. Tivemos, obviamente, de fazer exames e de fazer testes."

Voar nos anos 70

Sheila Nutt ainda tem a farda e a mala da Pan Am. Foto Philip Keith para a CNN

Nutt formou-se na Pan Am, foi oradora da sua turma, e começou a voar a partir de Miami.

"Fui uma das primeiras a voar no Boeing 747, por isso era o meu avião favorito - como devem saber, tinha capacidade para mais de 400 passageiros. E esteve na vanguarda da história da aviação na década de 1970", diz Nutt.

"O 747 iria para Itália, para Roma, de que me recordo de ter gostado muito porque adorei a história de Roma. Adorava ser turista lá, adorava comer e fazer compras em Roma."

Nutt também gostava de viajar para Nairobi, a capital do Quénia, e ficar no Hotel InterContinental. O InterContinental era propriedade da Pan Am, por isso as hospedeiras de bordo eram normalmente colocadas em hotéis elegantes durante as escalas.

A bordo, Nutt, que seis meses depois de começar a trabalhar na Pan Am foi promovida a comissária de bordo e, mais tarde, a chefe de cabina, confecionava ótimas refeições para os passageiros que eram servidas em pratos de porcelana.

"Na primeira classe, confecionávamos as refeições a partir do nada", diz, recordando-se de aperfeiçoar meticulosamente o rosbife ao gosto dos passageiros.

Nutt gostava de falar com os passageiros e diz estar orgulhosa de ser uma embaixadora negra da Pan Am e dos EUA de uma forma mais abrangente.

"Éramos as embaixadoras reais dos Estados Unidos nessa altura. Quando as pessoas entravam no avião, era o que viam."

Nutt e as suas colegas hospedeiras negras enfrentavam discriminação dos passageiros brancos às vezes. Nutt recorda uma interação particular com um passageiro branco da África do Sul, que na altura adotava a segregação racial sob o regime do Apartheid.

"Esse passageiro em particular faltou-me ao respeito, por isso ignorei-o e continuei a fazer o meu trabalho", conta.

Nutt diz que outros passageiros ficaram "chocados" com o comportamento do homem.

"Ele voltou à galeria e disse às outras hospedeiras que queria pedir desculpa, mas não tinha capacidade para pedir-me desculpa. Mas percebi a origem do desrespeito, sabia que ele tinha problemas que não eram os meus problemas."

Nutt também recorda que as hospedeiras negras da Pan Am tinham uma dispensa especial para voar para a África do Sul, tendo-lhes sido concedido o “estatuto honorário de brancas".

"Foi muito emocionante. Foi uma experiência muito aberta e educativa ter a oportunidade de ir para a África do Sul durante o apartheid", diz Nutt.

Criar uma comunidade

Em períodos de descanso no ar, Nutt e as suas colegas hospedeiras de bordo falavam sobre os seus empregos e as suas vidas.

Descreve a sua relação com as outras hospedeiras negras da Pan Am como “camaradagem especial".

"Partilhávamos histórias, experiências e encorajamento", diz Nutt.

As restrições de altura e peso da Pan Am não se limitavam ao recrutamento. Nutt diz que tais requisitos eram tolerados pelas tripulações da Pan Am devido às oportunidades de viagem que o trabalho lhes proporcionava.

"Sabíamos das restrições e estávamos dispostas a suportar as restrições, porque achávamos que valia a pena", diz.

"Estávamos dispostas a entrar no jogo. Acho que estávamos dispostas a participar. Mas quero que fique registado, era uma vida fabulosa. Gostei muito. E quando deixei de gostar, fui-me embora."

Partilhar um legado

Sheila Nutt está agora focada em partilhar as histórias de colegas negras hospedeiras da Pan Am e está a trabalhar num projeto de podcast. Foto Philip Keith para a CNN

Nutt saiu da Pan Am nos anos 80. Antes de sair, inscreveu-se num programa da Pan Am que permitia às comissárias de bordo estudar durante a semana e voar aos fins de semana. Doutorou-se pela Universidade de Boston, e escreveu uma dissertação sobre hospedeiras e stresse profissional e, mais tarde, fez um mestrado em estudos teológicos na Harvard Divinity School.

Quando Nutt deixou de voar, começou a trabalhar em educação, e mais recentemente foi durante catorze anos Diretora de Programas de Divulgação Educacional no Gabinete da Faculdade de Medicina de Harvard para a Inclusão da Diversidade e Parceria Comunitária, antes de se reformar em 2020.

Nutt é casada há quase quatro décadas com o marido, que é da Etiópia. O casal viveu em Adis Abeba durante dez anos.

"Adorava ser hospedeira, aprendi muito sobre o mundo e sobre mim a viajar para países estrangeiros", diz Nutt, refletindo sobre a sua carreira hoje. "O meu respeito e apreciação de diferentes culturas contribuiu para o sucesso do meu casamento."

Nutt diz que também vê o impacto dos seus anos a explorar o mundo nos seus filhos.

"Têm duas culturas e adoram viajar pelo mundo", diz.

Nutt também adora viajar, mas diz que está na posição feliz de não ter nenhum sítio no mundo na sua lista de desejos. Quando deixou a Pan Am, o único destino que Nutt ainda esperava visitar era a China, que não aceitava visitantes internacionais durante grande parte da sua carreira no ar. Nutt cumpriu esse sonho quando teve a oportunidade de viajar para Pequim com a Harvard.

Quando Nutt anda hoje de avião, maravilha-se com a diferença da experiência de viagem, e como o papel de uma hospedeira de bordo evoluiu.

"Antigamente, havia a imagem do glamour, que desempenhou um papel importante no transporte aéreo nos anos 60 e 70 e antes", conta. "Hoje em dia, parece que serve basicamente para levar pessoas do ponto A para o ponto B, e ser capaz de lidar com uma emergência."

O serviço a bordo, nota Nutt, também está marcadamente alterado.

"É muito diferente, e estamos a falar há muito tempo, os tempos mudam", diz.

Hoje, o foco de Nutt é reunir e partilhar as histórias das suas colegas hospedeiras negras da Pan Am, que se intitulam "Pan Am Blackbirds".

"Estas histórias de homens e mulheres afro-americanos são parte integrante da história geral da aviação, mas da história da aviação americana em particular", diz Nutt.

Nutt está atualmente a criar um podcast, chamado "Pan Am Blackbirds" que vai transmitir estas histórias. Espera criar um legado duradouro.

"É a oportunidade de ouvir as nossas histórias, nas nossas palavras", diz.

"Senti que era importante que as nossas histórias fossem salvas, que fossem destacadas, respeitadas e reconhecidas."

 

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