Exigiu dormir oito horas por noite e foi despedida. Polémica em Wall Street leva políticas sobre o descanso à Justiça americana

20 fev, 14:31
Os especialistas avaliam uma tendência das redes sociais centrada na otimização da qualidade e quantidade do sono. skynesher/E+/Getty Images

Empresa responsável alega que as horas longas e imprevisíveis de trabalho representam uma componente crucial da função de analista de mercado. O julgamento que chega agora à Justiça americana pode vir a redesenhar a cultura de trabalho extenuante em Wall Street e responder a uma simples pergunta: "É realmente essencial que alguém esteja disponível às três da manhã para trabalhar?"

A cultura de trabalho em Wall Street pode estar prestes a mudar, depois de uma jovem bancária ter processado a firma onde trabalhava por ter sido despedida após exigir dormir entre oito a nove horas por noite.

Kathryn Shiber, de 21 anos, juntou-se à Centerview Partners, uma empresa de consultoria especializada em Fusões e Aquisições, como bancária júnior, em julho de 2020, noticiou esta sexta-feira o Financial Times. Indo ao encontro dos hábitos no setor da banca, Shiber chegou a trabalhar vários dias seguidos além da meia-noite, um regime que dizia não ser compatível com a sua perturbação de humor e ansiedade diagnosticada.

No segundo mês de trabalho, enquanto trabalhava num projeto para a empresa, Shiber terminou a sessão depois da meia-noite sem notificar dois colegas seniores que a acompanhavam na tarefa. Foi repreendida na manhã seguinte e decidiu entrar em contacto com o departamento de recursos humanos para comunicar uma necessidade médica de dormir.

A empresa concedeu um programa de adaptação que dispensava Shiber do trabalho entre a meia-noite e as 9:00. Em troca, a recente bancária deveria estar disponível para trabalhar em todos os outros momentos - sete dias por semana. Mas bastaram três semanas para ser despedida, com a firma a alegar que a funcionária não conseguia desempenhar as funções essenciais do cargo.

“Os banqueiros juniores obviamente não precisam de autorização para ir dormir, mas espera-se que trabalhem em conjunto e comuniquem adequadamente com os colegas de equipa”, escreveu a Centerview em comunicado.

Ainda segundo a empresa, as horas longas e imprevisíveis de trabalho configuram uma componente crucial da função de analista, tal como os seus pares em Wall Street. E foi precisamente nesse sentido que o diretor de operações da firma censurou a jovem, por se ter candidatado a um emprego em banca de investimento, tendo em conta as suas necessidades de descanso.

A Centerview afirma agora que a janela de nove horas de sono garantida à trabalhadora foi desenhada apenas como uma solução de curto prazo, que rapidamente se tornaria inviável a longo prazo. Nos documentos do processo, a empresa argumentou que não existia “nenhuma adaptação razoável disponível” para Shiber que lhe permitisse desempenhar funções caso necessitasse de oito a nove horas imprescindíveis de sono por noite.

Empresa acusada de violar a lei federal

A defesa de Kathryn Shiber assenta essencialmente na Lei dos Americanos com Deficiência, que terá invocado para abrir um processo judicial contra a empresa, por discriminação.

De acordo com Katherine Macfarlane, professora de Direito e diretora do programa de Direito e Política da Deficiência na Faculdade de Direito da Universidade de Syracuse, citada por aquele jornal, era “incrivelmente invulgar” que um caso deste tipo saísse do papel para a sala de tribunal, com base no historial de decisão dos juízes que rejeitam frequentemente ações judiciais ao abrigo daquela lei.

Contra as expectativas, o juiz federal Edgardo Ramos ordenou que o caso avançasse, argumentando que “existe uma disputa genuína [sobre] se a capacidade de estar disponível a todas as horas do dia e de trabalhar durante muitas horas irregulares é uma função essencial do cargo de analista”.

Ao rejeitar o pedido da empresa para obter uma decisão sumária a seu favor, o juiz constatou que a firma nunca formalizou quais eram as expectativas de horário de trabalho a cumprir para os analistas juniores. Shiber reforçou a acusação, dizendo desconhecer que pudesse ser exigido aos trabalhadores que prolongassem o horário de trabalho até de madrugada.

Macfarlane considera que seria “ligeiramente absurdo [estar] em tribunal a argumentar que as pessoas têm de estar disponíveis 24 horas por dia e que essa é a expectativa. O número de pessoas que isso excluiria é bastante elevado”.

A jovem bancária exige agora auferir o salário que teria recebido nos próximos dez anos, ordenados em atraso e indemnizações por “danos emocionais”, argumentando que o seu despedimento arruinou permanentemente a sua carreira em banca de investimento.

“O ato da Centerview de despedir Shiber no início da sua carreira teve e continuará a ter um impacto devastador nos seus rendimentos durante o resto da sua vida profissional”, confirmam os seus advogados num documento judicial.

John Jacobi, professor visitante na Faculdade de Direito de Columbia, também antecipa o julgamento, que tem início previsto para a próxima semana, e acredita que este será marcado por uma questão central: “É realmente essencial que alguém esteja disponível às três da manhã ou isso é simplesmente uma norma cultural?”

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