O fenómeno hikikomori, ou porque é que alguns jovens asiáticos se isolam do mundo
Charlie tinha 15 anos quando a sua vida encolheu inexplicavelmente e passou a limitar-se à cama inferior do seu beliche no exíguo apartamento da família em Hong Kong.
“Sentia-me muito deprimido, confuso, como se não soubesse o que queria”, diz Charlie, agora com 19 anos e ainda a aprender a navegar o mundo lá fora.
Charlie está entre milhões de hikikomori, um termo japonês para pessoas que se desligam completamente da sociedade, por vezes durante meses ou anos a fio – muitas vezes millennials ou da geração Z que estão no auge da sua juventude.
O fenómeno emergiu pela primeira vez na Ásia, e está particularmente bem-documentado no Japão – mas há histórias semelhantes a surgir noutras partes do mundo, incluindo nos Estados Unidos, em Espanha e em França.
Investigadores da Universidade de Yale sugerem que a ascensão da internet e o declínio das interações cara-a-cara podem estar a levar o hikikomori a alastrar-se a nível global. Outros dizem que a pandemia de Covid-19 pode ter criado ainda mais enclausurados, já que a maioria das pessoas do mundo se fechou dentro de portas para travar a disseminação do vírus.
Por quase toda a Ásia, governos e organizações estão atualmente a trabalhar para ajudarem os hikikomori a reentrar na sociedade – uma tarefa que se torna cada vez mais urgente agora que muitas nações estão a lidar com populações envelhecidas, uma força laboral a encolher, taxas de natalidade em queda e uma juventude desencantada.
Não é claro quantos mais hikikomori existem a nível mundial, mas calcula-se que mais de 1.5 milhões deles vivem em Hong Kong, no Japão e na Coreia do Sul. Eis algumas das suas histórias.
HONG KONG
O afastamento de Charlie começou no início da adolescência, depois de ter discutido com um professor e ter ouvido os colegas a criticá-lo na escola.
“Sou sensível às palavras das pessoas; importo-me mesmo com o que os outros dizem sobre mim e como me veem.”
A CNN está a identificar Charlie apenas pelo seu primeiro nome por questões de privacidade.
Ao início, Charlie diz que tentou continuar a ir à escola uma ou duas vezes por semana – mas em 2019, já estava completamente fechado no seu quarto. Ali permaneceria durante quatro meses.
Diz que deixou de responder às mensagens dos amigos ou de confidenciar com quem quer que fosse, por sentir que não valia a pena porque ninguém iria entendê-lo. Os pais ocasionalmente pediam-lhe que fosse à rua ou que fosse à escola; mas na maior parte do tempo, deixavam-no em paz.
Mas mesmo assim, havia pouco espaço para se esconder.
Em parte, a escola desempenhou um papel – sentia-se sob pressão para responder às exigências do sistema de educação de Hong Kong.
Os professores “repreendiam e humilhavam os ‘maus’ alunos, dizendo inclusivamente [coisas como] se te portares mal desta maneira, vais acabar a ser um mendigo”, conta. “Na altura, eu acreditava mesmo no que eles diziam.”
Paul Wong, professor associado da Universidade de Hong Kong, calcula que haja até 50 mil hikikomori a viver em Hong Kong – na sua maioria alunos do básico e do secundário, ainda que pré-pubescentes também já estejam a demonstrar sintomas.
Muitos pais em Hong Kong estão tão focados no desempenho académico dos seus filhos que as crianças acabam por “não fazer mais nada a não ser estudar”, diz Wong.
Quando os estudantes começam a retrair-se, os pais podem elevar a voz e usar táticas como a culpabilização ou outras formas de castigo – o que só os afasta ainda mais, adianta.
Durante três anos, Ah Mun, residente em Hong Kong, viveu fechado no seu quarto, com os seus pais e irmãos sem saberem o que fazer, conta. A dada altura cortaram-lhe o acesso à internet, na esperança de que ele saísse de casa, mas não funcionou.
“Após determinado tempo começas a sentir que ir à rua é bastante assustador, e quanto mais tempo passa, mais difícil fica ir à rua”, conta Ah Mun, que a CNN identifica aqui pela sua alcunha por questões de privacidade.
“No final, queria ir lá fora, mas não me atrevia… não tinha coragem.”
A resposta chegou quando a sua irmã pediu ajuda à divisão de serviços sociais de uma igreja que ajuda jovens isolados, onde Ah Mun agora trabalha – a mesma que eventualmente ajudaria Charlie.
Inicialmente, Ah Mun tinha demasiado medo de conhecer os assistentes sociais pessoalmente; visitaram a sua casa várias vezes ao longo de vários meses até ele se aventurar a sair do quarto. A sua recuperação total demorou mais de um ano.
“Da primeira vez que voltei a sair à rua, parecia tudo uma novidade… tudo parecia diferente.”
Isto aconteceu há seis anos. Agora, Ah Mun ajuda outros hikikomori a escapar ao isolamento autoimposto. Apesar de as suas circunstâncias variarem, “acho que consigo entender o que sentem”, diz.
JAPÃO
Quando os pais de Toyoaki Yamakawa ficaram doentes, mudou-se de Tóquio para a sua terra-natal, Fukuoka, para tratar deles. Enquanto filho único do casal, sentia um “grande fardo” por ter de cuidar deles, o que também implicava gerir as suas finanças, conta.
“Quando comecei a viver com maior proximidade aos meus pais, tive muitos problemas… que se tornaram muito difíceis de gerir sozinho.”
Ao longo do tempo, retraiu-se e ficou fechado em casa durante cinco anos a partir dos 35 anos.
A mulher de Yamakawa, anteriormente dona de casa, arranjou um emprego para os sustentar durante o seu período hikikomori de cinco anos. A parte mais difícil foi sentir-se impotente face à depressão de Yamakawa, diz à CNN, pedindo para não ser identificada.
“Eu conhecia a sua personalidade original, ele era alegre, acelerado e entusiasmado com o trabalho, então não sabia como lidar com esta mudança que ele atravessou”, conta. “Preocupava-me que ele pudesse realmente desaparecer.”
Desde os seus 20 anos que a mulher de Yamakawa lidava com problemas de saúde – por vezes ficava tão doente que só conseguia ficar deitada na cama, incapaz de procurar trabalho após ter terminado a faculdade, diz. O apoio incondicional dos pais e os cuidados que lhe prestaram na altura, e a sua eventual recuperação, moldaram a sua reação à desistência de Yamakawa.
“Penso que tinha uma convicção mais forte do que as outras pessoas de que, mesmo que levasse tempo, melhores tempos viriam para o meu marido”, diz.
Como Yamakawa, muitos hikikomori adultos do Japão retraem-se após perderem o emprego ou se debaterem com terem de sustentar as suas famílias, indica Teppei Sekimizu, professor associado de Sociologia na Universidade de Meiji Gakuin. A tendência reflete problemas económicos mais abrangentes como o aumento do custo de vida no Japão e salários estagnados.
Um inquérito governamental recente apurou que o Japão tem quase 1,5 milhões de hikikomori – e ao contrário dos hikikomori adolescentes de Hong Kong, os reclusos do Japão estão distribuídos por uma faixa etária mais alargada, diz Sekimizu. Alguns pais idosos nos seus 80 estão supostamente a ter de suportar os seus filhos hikikomori na casa dos 50 anos, adianta.
Takahiro A. Kato, professor associado da Universidade de Kyushu, diz que os homens japoneses estão particularmente em risco, por causa da “pressão sobre os rapazes para saírem de casa e trabalhar no duro”.
"Aqueles que falham ficam envergonhados e pensam que não são bons o suficiente."
Yamakawa diz que houve aspetos da cultura japonesa a contribuir para o seu isolamento, como a crença de que cada pessoa deve “fazer as coisas por si” e não incomodar os outros, e que desonrar a família é a maior vergonha de todas.
“Provavelmente senti a pressão de, sendo o filho [único], ter de ser eu a tomar conta dos meus pais sozinho, sem ter ajuda de outros”, diz.
A forma como a família de cada pessoa responde à sua retração é fundamental, diz Sekimizu. Se os elementos da família derem apoio emocional, o hikikomori pode ser capaz de voltar à sociedade mais facilmente.
Mas se a sua família “culpar a pessoa por ficar sempre em casa”, é mais provável que o hikikomori ponha fim a relacionamentos, por se sentir “forçado a procurar um sítio … onde possa estar sozinho”, adianta.
Yamakawa diz que perdeu algumas amizades durante aquele período, e que os próprios pais o acusaram de ser preguiçoso e “mentalmente fraco”.
“Eu sabia que não havia maneira de continuar com esta vida, porque não estava a trabalhar e tinha problemas financeiros, mas não conseguia obrigar-me a trabalhar”, diz. “Sentia-me ansioso e amargurado por não conseguir fazer nada em relação a isso.”
Uma coisa que ajudou à sua recuperação foram “folhas de objetivos” sobre o que queria conquistar a cada semana, mês e ano, o que deu estrutura e propósito aos seus dias.
A dada altura, foi a uma loja e começou a conversar com os vendedores, que finalmente o “fizeram sentir como uma pessoa normal novamente”, conta.
Agora com 44 anos, Yamakawa fundou a sua própria organização para ajudar outros hikikomori – e diz que, por mais difíceis que aqueles anos tenham sido, especialmente para a sua família, também o ajudaram a mudar para melhor.
“Para mim, tornar-me um hikikomori foi uma oportunidade de repensar a minha personalidade, a minha forma de trabalhar, e muitas coisas. Se não o tivesse feito, teria ficado preso [ao status quo] à medida que ia acumulando stress”, diz.
“Agora trabalho como freelancer, e penso que encontrei uma nova forma de vida que me assenta, nesse sentido estou satisfeito por me ter retraído da sociedade.”
COREIA DO SUL
Alguns hikikomori retraem-se várias vezes. Sung O-hyun, um sul-coreano de 32 anos, já se isolou cerca de cinco vezes por razões diferentes – perfazendo um total de entre dois a três anos de isolamento.
A sua primeira retração social aconteceu quando estava no ensino básico, altura em que não saiu de casa durante um mês durante as férias escolares. Aos 27 anos, sofreu um revés no trabalho e voltou a retrair-se para um sítio seguro.
“Recebia muito feedback negativo, diziam-me coisas como não ser bom no meu trabalho, sobre cometer erros”, conta. “Estava muito desapontado comigo próprio, tornei-me muito deprimido e perdi a confiança no trabalho novamente, então decidi simplesmente fechar-me no meu quarto.”
Na altura, Sung vivia com a família. Sentia-se envergonhado quando os via e só saía do seu quarto para comer ou usar a casa de banho quando os familiares estavam fora de casa ou a dormir.
"Acho que dormia muito porque assim conseguia esquecer-me dessas coisas dolorosas."
Os dias e as noites começaram a fundir-se.
“Quando ouvia o barulho dos meus pais a saírem para o trabalho ou das pessoas a acordar, sentia vergonha.”
Diz que parou de falar com a família, o que levou a desentendimentos entre eles.
“Como estava sozinho em casa, muitas vezes pensava coisas como ‘Toda a gente parece estar a safar-se, porque é que eu sou assim?’ Parecia que eu era a única pessoa a passar por um momento difícil daqueles”, conta.
Pesquisou por hikikomori na internet e encontrou uma empresa japonesa, a K2 International, que apoia pessoas jovens que se recusam a ir à escola, que se retraem da sociedade ou que enfrentam problemas de desenvolvimento.
A empresa oferece um programa de vida em comum, ou ‘sharehouse’, em países como o Japão e a Coreia do Sul – ao qual se juntou em 2019.
A ‘sharehouse’ da Coreia do Sul é agora gerida pela Not Scary Company, que é liderada por um ex-enclausurado.
As estatísticas sugerem que os seus residentes não estão sozinhos na luta contra o isolamento. Em 2022, 2,4% dos coreanos com idades entre os 19 e os 34 anos viviam em reclusão, de acordo com um inquérito do Instituto Coreano de Saúde e Assuntos Sociais. Isso representa cerca de 244 mil pessoas em todo o país.
No ano passado, o governo aprovou uma emenda que torna alguns jovens a viver em reclusão elegíveis para receberem apoio financeiro, incluindo até 650 mil won (cerca de 434 euros) por mês para despesas, por forma a ajudá-los a “reentrar na sociedade”.
Muitos Millennials e membros da Geração Z têm “preocupações perfecionistas”, diz Hur Ji-won, professor associado de Psicologia na Universidade da Coreia.
As pessoas com “preocupações perfeccionistas” são tipicamente sensíveis a críticas, demasiado autocríticas e temem o falhanço.
Quando pessoas com essas características tentam novas coisas e falham em alcançar resultados que cumpram os seus padrões, “ficam muito desanimadas e ansiosas”, diz Hur.
Famílias mais pequenas também contribuem para o problema, diz Yoon Chul-kyung, diretor executivo do G’L Out of School Youth Research Institute.
“No passado, como tínhamos famílias maiores e muitos irmãos, éramos capazes de aprender muito sobre como nos relacionarmos”, diz Yoon. “Dado que o ambiente de vivência mudou, há menos experiências de formação de relações comunitárias do que havia no passado.”
An, um residente da ‘sharehouse’ de 22 anos, debatia-se há muito com a comunicação com outros – a um ponto em que passou a limitar quase todas as suas atividades no exterior, como ir ao barbeiro ou comer em restaurantes sozinho.
An deu início à sua reclusão de seis meses mesmo antes da altura de entrar na faculdade, em 2020.
"Não queria mesmo ir, não queria ter de me cruzar pessoas que não conhecia."
An ficava sobretudo em casa, no quarto, e passava o tempo no telefone ou ao computador, a ler romances e ocasionalmente tinha algumas aulas online. Estas atividades eram a única forma de “aguentar… ficar parado”, diz.
Foi a irmã de An que recomendou que ele fosse para uma sharehouse, onde começou a viver em 2020 durante a pandemia. “Havia muita gente com quem eu podia partilhar a minha história de forma honesta e que tinham preocupações semelhantes, portanto na realidade foi algo reconfortante”, partilha.
An diz que tem intenção de eventualmente arranjar um quarto para viver em Seul e tentar tornar-se um YouTuber.
“Quero arranjar uma namorada. Quero simplesmente ser saudável”, diz. “Só quero fazer muitos bons amigos. É isso que quero fazer.”
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Durante anos, os investigadores achavam que o hikikomori só acontecia no Japão como um fenómeno “ligado à cultura”. Mas histórias de reclusão extrema a nível mundial mostram que o problema não se limita à Ásia.
Os especialistas dizem que pode haver mais casos de hikikomori a nível mundial que estão mal diagnosticados como depressão ou ansiedade.
Embora muitos hikikomori se debatam com estas doenças, a retração social é uma síndrome específica e única que merece um tratamento especial, dizem os especialistas.
Charlie levou quase um ano a recuperar – e quando finalmente emergiu do seu quarto em 2021, o mundo era diferente.
As fronteiras de Hong Kong continuavam fechadas por causa da pandemia, com restrições a ajuntamentos sociais. As pessoas podiam juntar-se em pequenos grupos, o que significou que Charlie conseguiu dar os primeiros passos rumo à recuperação.
Começou a encontrar-se com um assistente social no centro da igreja, e inicialmente só se sentavam a conversar debaixo de uma árvore ao pé da sua casa. Gradualmente, começou a participar nas atividades do centro paroquial – a fazer terapia com animais, artes e ofícios e trabalho voluntário.
Diz que ainda se sente ansioso quando tem de conhecer pessoas novas, e que é mais solitário do que antigamente, mas também percorreu um longo caminho.
Kato, um especialista japonês, diz que, com o tempo, o isolamento autoimposto de semanas ou meses poderá não parecer assim tão invulgar. “No futuro, digamos que em 2050, após vários eventos como pandemias e guerras, pode tornar-se normal não sair de casa.”
"Penso que alguém tornar-se um hikikomori vai transformar-se num estilo de vida no futuro."