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Grupo de amigos diz-se vítima de violência homofóbica na noite do Porto e acusa espaço de "má abordagem". "Empurraram-nos para a rua para levarmos mais"

6 fev 2023, 20:15
Noite

Um grupo de jovens que frequenta habitualmente o espaço Maus Hábitos afirma ter sido alvo de agressões homofóbicas dentro do local. O estabelecimento assume que as vítimas "não foram devidamente protegidas"

“Começou a insultar-me. Falei calmamente e pedi para não dizer aquilo, que estava num espaço ‘LGBT friendly’ como sempre considerei ser o Maus Hábitos.” O relato é de Manuel Oliveira, num vídeo partilhado no Twitter, onde revela ter sido alvo de violência homofóbica neste espaço de “intervenção cultural” no Porto.

Era uma sexta-feira dedicada ao funk eletrónico no quarto andar do número 178, na Rua Passos Manuel. O lugar que se descreve como “inovador, subversivo e transgressor” abria as portas a centenas de jovens que olham para o Maus Hábitos como um porto seguro há mais de 20 anos. Até à noite de 3 de fevereiro.

Manuel dançava livre e vigorosamente com amigos no salão principal, quando fez uma pausa para se dirigir à casa de banho. Na fila, prestes a entrar ao lado do namorado, não queria acreditar naquilo que estava a ouvir: “Um grupo de rapazes disse que éramos uns paneleiros de merda, que aquele sítio estava cheio disso e que estava farto.” Quem testemunhou o sucedido foi Helena, amiga de ambos, também ela no vídeo que denuncia o ataque. “Estava à espera que eles saíssem, e assim que o fazem voltamos a ouvir os comentários. Foi quando nos começaram a empurrar e a agredir”, conta a jovem aos seguidores. “Não percebia o que se estava a passar. Levei uma bofetada e caí para trás, ao ponto de outro miúdo que eu não conhecia me perguntar se eu estava bem.”

A certa altura, elementos da segurança do espaço acabaram por intervir, mas, de acordo com Helena, “a abordagem não foi a melhor”. “Vieram ter connosco e expulsaram-nos. Foram super agressivos, como se tivéssemos sido nós a procurar confusão”, acusa. Já Manuel garante nunca ter recorrido à violência, tampouco os seus amigos, e sugere que a solução adequada teria sido expulsar os agressores e chamar a polícia.

A verdade é que a violência não terminou por ali, uma vez que foram seguidos até ao exterior do estabelecimento. Helena tentava acalmar o amigo transtornado enquanto aguardavam a chegada de um TVDE, mas as agressões prosseguiram assim que foram avistados novamente pelos agressores. “Só não nos bateram mais porque me meti na frente”, diz. “Basicamente, os seguranças empurraram-nos para a rua para levarmos mais na boca”, acrescenta Manuel, que foi fortemente atingido no nariz.

Imagens de hematomas e de sangue nas mãos de uma das vítimas circulam agora, como prova, nas redes sociais. Manuel revelou, entretanto, à CNN Portugal que já apresentou queixa às autoridades, e que foi contactado pelo espaço com um pedido de desculpa.

Imagem: DR

Daniel Pires, diretor e fundador do Maus Hábitos, lamenta o incidente e confirma que os instigadores não eram, de facto, assíduos naquele espaço. O responsável garante, contudo, que “em nada altera” as políticas habituais daquele que é para si “um oásis” onde situações como esta são “raríssimas” e não devem acontecer. "Quem vem por curiosidade pode confrontar-se com uma realidade diferente de outros espaços noturnos, o que dá origem a estas situações”, explica.

A propósito da atuação da equipa de segurança, declara que foi feita uma avaliação posteriormente ao sucedido, e que foi aplicado “o protocolo normal”. O problema é que “a violência escalou na rua”, após os lesados terem sido afastados do local. “A ideia era fazer um compasso de espera, para que tivessem tempo de ir às suas vidas, mas ficaram lá fora a conversar”, critica. “Se tivéssemos mandado os agressores embora, estes podiam ter esperado lá fora e tínhamos de ficar com os agredidos até a casa fechar.”

Admite ainda que um segurança possa ter sido “um pouco mais mal-educado”, após ter pedido a um dos agredidos para parar de filmar. “Já o tinha pedido, inclusivamente citou a lei, mas ele não parou”, alega.

Um comunicado foi emitido pelo Maus Hábitos no Instagram, esta segunda-feira, com garantias de que estão a ser tomadas medidas "exemplares em relação aos intervenientes" e que os protocolos de gestão estão a ser reforçados. "Constatamos que, apesar da experiência dos nossos colaboradores, a situação não foi gerida da melhor forma, não protegendo devidamente as vítimas." 

“Tanto o meu grupo, como o grupo do Manuel, como vários grupos de amigos nossos, frequentamos o Maus há anos”, conclui Helena no vídeo. “Somos clientes da casa às sextas-feiras e aos sábados. Portanto, nunca nos deparámos com uma situação destas. Foi um caso claro de homofobia e é gravíssimo.”

Recorde-se que em outubro do ano passado, a CNN Portugal divulgou um caso de violência contra a comunidade LGBTQIA+, pela voz de Pedro Colaço. O artista de 29 anos revelou que foi forçado a mudar de cidade ainda criança para fugir à homofobia, até ser violentamente agredido em 2019, nas Caldas da Rainha.

Na mesma notícia, a presidente da ILGA Portugal previu um crescimento da intolerância e explicou que “os retrocessos nos direitos em vários países da União Europeia e o crescimento da extrema-direita no nosso país são sinais de alerta e de grande preocupação”.

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