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As horas de terror vividas por sobreviventes na noite dos homicídios de estudantes no Idaho

CNN , Taylor Romine
1 jun 2025, 16:00
Consternação dos alunos da Universidade de Idaho durante vigília Foto AP

Duas jovens sobreviventes do massacre que abalou a Universidade do Idaho em 2022 tornaram-se peças-chave no julgamento de Bryan Kohberger. Entre mensagens trocadas em pânico, horas de silêncio e uma chamada tardia para o 112, os seus testemunhos revelam uma noite marcada pelo terror — e estão agora no centro de uma disputa judicial sobre o que realmente aconteceu naquela madrugada

Eram cerca de 4:00 quando Dylan Mortensen, estudante da Universidade do Idaho, acordou com ruídos estranhos na casa onde vivia fora do campus.

A jovem e as colegas tinham regressado à habitação após uma típica noite de sábado numa cidade universitária. Mas os sons que ouviu desencadearam momentos de pânico, trocas de mensagens frenéticas e chamadas que nunca foram atendidas.

Na manhã seguinte, a 13 de novembro de 2022, três das suas colegas de casa e o namorado de uma delas seriam encontrados mortos dentro da casa – assassinados à facada, sem sinais de arrombamento.

As investigações acabariam por levar à detenção de Bryan Kohberger, estudante de doutoramento em Criminologia, de 30 anos. Em tribunal, foi apresentada uma declaração de inocência em seu nome pelos homicídios de Kaylee Goncalves, Madison Mogen, Xana Kernodle e Ethan Chapin.

Dylan Mortensen e Bethany Funke, as duas colegas sobreviventes que também estavam na casa de três andares em Moscow, Idaho, são as únicas testemunhas diretas dos acontecimentos.

À medida que se aproxima o início do julgamento, mais de dois anos depois, os testemunhos e a atividade telefónica das duas jovens ajudam a traçar um retrato do que poderá ter acontecido nas primeiras horas daquela madrugada – enquanto a defesa tenta descredibilizar os seus relatos e questionar por que motivo esperaram oito horas até chamar o 112.

Os documentos judiciais descrevem uma noite marcada por sons estranhos, vozes desconhecidas, mensagens de pânico, chamadas ignoradas e a presença de uma figura encapuzada no corredor – numa cidade onde não se registava um homicídio desde 2015.

Dylan Mortensen e Bethany Funke mantêm-se longe dos holofotes, impedidas de falar publicamente sobre o caso devido a uma ordem de silêncio imposta pelo tribunal. No entanto, os registos da investigação divulgados, entretanto, revelam detalhes importantes.

A defesa sublinha que ambas terão passado demasiado tempo ao telemóvel antes de ligar para o número de emergência, colocando em causa a linha temporal apresentada. Mas, segundo a professora de psicologia Elizabeth Cauffman, da Universidade da Califórnia em Irvine, a forma como cada pessoa reage ao trauma varia e não existe uma resposta “certa”.

“Perante o medo ou uma situação traumática, os nossos sistemas de resposta são diferentes. Não há uma única forma correta de reagir”, explica Cauffman.

Eis o que se sabe sobre a noite dos homicídios:

Estudantes regressam a casa após saída à noite

Na madrugada de 13 de novembro, após uma noite em festas e bares, as estudantes voltaram à sua casa de seis quartos. Xana Kernodle e o namorado, Ethan Chapin, tinham estado numa festa numa fraternidade. Madison Mogen e Kaylee Goncalves passaram por um bar e pararam numa roulote de comida antes de regressarem.

Segundo os documentos, por volta das 4:00, Xana Kernodle ainda se levantou para receber um pedido da DoorDash. No segundo piso estavam os quartos de Dylan Mortensen, Xana Kernodle e Ethan Chapin. Kaylee Goncalves e Madison Mogen ocupavam o terceiro andar. Bethany Funke ficava no rés-do-chão, junto à porta da frente.

Colega de casa diz que ouviu choro

Dylan Mortensen, que dormia no segundo andar, acordou com barulhos e pensou que Kaylee Goncalves estivesse a brincar com o cão. Momentos depois, ouviu uma voz feminina dizer algo como “há alguém aqui”. Espreitou pela porta, mas não viu nada.

Ouviu então choro vindo do quarto de Xana Kernodle e, mais tarde, uma voz masculina – que não era a de Ethan Chapin – dizer “está tudo bem, vou ajudar-te”. Quando abriu novamente a porta, viu uma figura vestida de preto, com máscara a tapar a boca e o nariz.

A jovem congelou. A figura passou por ela e saiu pela porta de vidro para o quintal. Dylan Mortensen trancou-se no quarto.

Mais tarde, descreveu-o como alguém da sua altura ou ligeiramente mais alto, com constituição magra, roupa preta e uma sobrancelha espessa. Admitiu, no entanto, que as memórias estavam turvas – acabara de acordar e ainda podia estar sob o efeito de álcool.

Uma câmara de segurança instalada a menos de 15 metros da casa captou, às 4:17, sons distorcidos semelhantes a vozes, um gemido, um baque forte e um cão a ladrar.

"Ninguém atende... Estou a entrar em pânico"

Às 4:20, Dylan Mortensen começou a ligar desesperadamente para as colegas – Xana Kernodle, Kaylee Goncalves, conseguiu uma breve chamada de 41 segundos com Bethany Funke, depois novamente Xana Kernodle. Ainda tentou contactar Madison Mogen  antes de enviar uma mensagem a Bethany Funke, a dizer "ninguém responde".

Bethany Funke também tentou contactar Madison Mogen, Xana Kernodle e Ethan Chapin durante aquele período.

“Kaylee. O que se passa?”, enviou Dylan Mortensen por mensagem.

Ficou por responder. Os investigadores acreditam que os quatro colegas de casa foram mortos entre as 4:00 e as 4:25. 

Ya, meu, wtf”, continuou Bethany Funke, enquanto Dylan Mortensen descrevia alguém a usar “algo como uma máscara de ski”.

Dylan Mortensen e Bethany Funke, identificadas pelas suas iniciais nos documentos do tribunal, continuaram a trocar mensagens sobre o homem no corredor, com os erros ortográficos a tornarem-se cada vez mais frequentes à medida que o pânico aumentava.

BF para DM: “Cala-te.”

DM para BF: “Ele tinha [qualquer coisa] na cabeça e a tapar a boca.”

DM para BF: “Não estou a brincar, estou mesmo em pânico.”

BF para DM: “Eu também.”

Dylan Mortensen indicou que o telemóvel estava prestes a ficar sem bateria, e Bethany Funke respondeu: “Vem para o meu quarto”, no rés-do-chão. “Corre”, escreveu.

DM para BF: “Mas estou tramada.”

BF para DM: “Ya, eu sei, mas é melhor do que estar sozinha.”

Segundo documentos apresentados pela defesa, Dylan Mortensen acabou por ir para o quarto de Bethany Funke.

Às 4:27, as duas retomaram as chamadas para as colegas, mas ninguém atendeu. Às 4:32, Dylan Mortensen enviou uma nova mensagem a Kaylee Goncalves: “Por favor atende.”

Os registos mostram que Bethany Funke acedeu ao Snapchat às 4:34 e ao Instagram às 4:37. Depois disso, ambas deixaram de ter qualquer atividade nos telemóveis durante cerca de três horas.

O Ministério Público pretende usar o testemunho das duas sobreviventes, bem como as mensagens trocadas, para estabelecer a cronologia da noite.

No entanto, a advogada de defesa Anne Taylor sublinha que, apesar de afirmarem que estavam em pânico e preocupadas com as colegas, nenhuma delas tentou pedir ajuda.

Usaram redes sociais e telemóveis antes de ligarem para o 112

Segundo a acusação, Dylan Mortensen e Bethany Funke terão acordado por volta das 10:23, momento em que se aperceberam de que as mensagens enviadas às colegas não tinham sido respondidas. No entanto, a transcrição apresentada pela defesa revela atividade telefónica mais de duas horas antes de começarem a tentar contactá-las — e mais de quatro horas antes de ligarem para o 112.

Os registos mostram que, várias horas após a troca inicial de mensagens em pânico, Bethany Funke retomou a atividade no telemóvel com uma chamada ao pai às 7:30. Tanto ela como Dylan Mortensen utilizaram os seus dispositivos naquela manhã: Bethany Funke fez chamadas para os pais e Dylan Mortensen acedeu a várias aplicações de redes sociais. Não é claro o que exatamente estava a fazer nessas apps.

Durante esse período, Bethany Funke falou com o pai por telefone e tirou fotografias. Já Mortensen esteve mais de duas horas no Instagram, além de ter trocado mensagens no Snapchat e acedido à plataforma de emprego Indeed, segundo os documentos judiciais.

Às 10:23, Dylan Mortensen voltou a tentar contactar as colegas:

“Por favor atende”, escreveu a Kaylee Goncalves.
“Estás acordada?”, perguntou a Madison Mogen.
“Estás acordada??”, voltou a enviar a Kaylee Goncalves.

As duas continuaram a utilizar os telemóveis durante cerca de uma hora, trocando mensagens e fazendo chamadas para pessoas identificadas apenas pelas iniciais.

Às 11:56, Bethany Funke ligou finalmente para o 112, relatando que Xana Kernodle estava inconsciente na casa. Na chamada, ouvem-se duas outras pessoas com elas.

O áudio da chamada revela respiração ofegante e choro, com o telemóvel a ser passado entre as colegas sobreviventes e outras duas vozes, enquanto respondem ao operador de forma fragmentada.

“Aconteceu alguma coisa na nossa casa, não sabemos o quê”, disse uma das jovens durante a chamada.

Relataram à operadora do 112 que Xana Kernodle, de 20 anos, estava inconsciente, acrescentando que tinha chegado a casa embriagada na noite anterior.

“Ela não acorda”, disse uma delas.

Quando a polícia chegou ao local, encontrou Xana Kernodle e Ethan Chapin mortos no chão do segundo andar. No piso superior, Kaylee Goncalves e Madison Mogen estavam numa das camas, com ferimentos visíveis de faca.

Ao lado de Madison Mogen, em cima da cama, estava uma bainha de faca em couro castanho. Amostras de ADN masculino foram posteriormente detetadas no botão de fecho — e, segundo os documentos do tribunal, Bryan Kohberger foi identificado como “compatível estatisticamente” com o perfil genético recolhido.

Procuradores querem usar testemunho de sobreviventes

Com o início do julgamento de Bryan Kohberger previsto para agosto, a acusação planeia usar o testemunho das duas colegas sobreviventes para sustentar a cronologia da noite. Mas a defesa está determinada a explorar as discrepâncias na linha temporal e, sobretudo, a razão pela qual as estudantes demoraram cerca de oito horas a ligar para o 112.

“Nenhuma delas saiu da casa”, referiu a advogada Anne Taylor num documento. “Nenhuma contactou amigos, família ou autoridades para pedir ajuda. Em vez disso, ambas mostraram uma quantidade significativa de atividade no telemóvel menos de quatro horas depois de Dylan Mortensen ter ido para o quarto de Bethany Funke. Comunicaram com amigos, pais, e Dylan Mortensen esteve ativa nas redes sociais.”

Segundo a advogada Misty Marris, a equipa de defesa está a fazer um esforço deliberado para excluir o testemunho de Dylan Mortensen — em particular, o detalhe de que ela viu uma pessoa com sobrancelhas espessas dentro da casa.

“A defesa está, essencialmente, a tentar diminuir a credibilidade do testemunho destas jovens e a questionar o momento exato em que os homicídios terão ocorrido”, diz Misty Marris à CNN internacional.

Contudo, para a professora de psicologia Elizabeth Cauffman, da Universidade da Califórnia em Irvine, a demora em ligar para o 112 não é surpreendente, dado o tipo de situação altamente stressante.

A especialista explica que a amígdala — região do cérebro responsável por ativar o sistema de alarme — pode desencadear respostas de luta, fuga ou congelamento. Por outro lado, o córtex pré-frontal — que ajuda na tomada de decisões — só atinge a maturidade por volta dos 25 anos e pode ser facilmente sobrecarregado pela amígdala em situações de perigo.

“Se estás numa situação perigosa e a tua amígdala domina o sistema emocional, isso sobrepõe-se à tua capacidade racional. Sabemos que jovens entre os 18 e os 25 anos reagem de forma diferente”, afirma Cauffman.

A psicóloga acrescenta ainda que fenómenos como a dissonância cognitiva — mecanismo através do qual o cérebro procura explicações menos ameaçadoras para o que está a acontecer —, combinados com a forma como as mulheres são socializadas para minimizar o medo, podem ajudar a explicar a hesitação das jovens.

“As mulheres são frequentemente educadas para não dramatizar. São vistas como exageradas ou reativas. Se estavam a discutir o que viram, podem ter reforçado mutuamente as dúvidas em vez de agir e pedir ajuda”, acrescenta.

Ainda assim, Cauffman sublinha que não é possível saber exatamente o que se passou com as duas estudantes naquela manhã.

“Pode ter sido por causa da amígdala, da socialização feminina ou do processamento cognitivo ligado à dissonância cognitiva. Há tantas formas possíveis de explicar, que é difícil escolher apenas uma.”

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