Beverly tinha um namorado no Canadá. Num hotel no México, trocou um olhar com um desconhecido e decidiu mudar de vida. Uma história real e improvável.
A primeira vez que Beverly Carriveau viu Bob Parsons, sentiu como se um "raio" tivesse passado entre os dois.
"Aquele homem saiu de um táxi, e ficámos simplesmente a olhar um para o outro", conta Beverly à CNN Travel. "É preciso recordar que estávamos nos anos 60. As raparigas não olhavam assim para os homens. Mas foi mesmo como um raio."
Era junho de 1968. Beverly, uma bibliotecária universitária canadiana de 23 anos, estava de férias em Mazatlán, no México, acompanhada por uma amiga.
Beverly tinha chegado a Mazatlan nessa manhã. Tinha ficado deslumbrada com a vista sobre o Oceano Pacífico, os coloridos edifícios do século XIX, as palmeiras.
Estava a ver a loja de recordações do hotel, a admirar um par de brincos, quando olhou para cima e viu o tal homem a sair de um táxi. A loja ficava de frente para o parque de estacionamento, e lá estava ele.
"Fiquei hipnotizada”, diz Beverly. “Era alto, bonito..."
Beverly acabou por desviar o olhar, comprou os brincos e saiu apressadamente da loja. "Trocámos olhares durante tanto tempo que fiquei envergonhada", recorda.
Não trocaram uma palavra. Nem sequer sorriram um para o outro. Mas Beverly sentiu que algo tinha acontecido, mas não conseguia explicar o que era.
Beverly apressou-se a ir ter com a amiga, ainda visivelmente perturbada. Durante o jantar no restaurante do hotel, confidenciou à amiga aquele momento em que sentiu "como se um raio lhe tivesse atravessado o corpo."
"Disse à minha amiga: 'Aconteceu-me uma coisa. Fiquei a olhar para um homem e não consegui evitá-lo.'"
Foi então que o empregado se aproximou da mesa.
"Disse: 'Tenho um vinho para si, de um senhor que está ali ao fundo'"
O empregado segurava uma garrafa de vinho branco e apontava para o bar, que estava cheio de gente. Por norma, Beverly evitava aceitar bebidas oferecidas por desconhecidos. Nunca se sentiu muito confortável com essa dinâmica de poder — além disso, tinha um namorado de longa data no Canadá.
"Tinha uma relação estável e achava que a minha vida já estava encaminhada", afirma.
Antes de viajar para o México, Beverly tinha passado um ano a explorar a Europa e a trabalhar no Reino Unido. Durante esse período, sempre recusou educadamente as bebidas oferecidas por homens em bares.
"Não é que eu nunca tivesse conhecido homens antes", refere. "Tinha andado por toda a Europa durante um ano."
Mas naquela noite, em Mazatlán, após uma breve hesitação, Beverly e a amiga aceitaram a garrafa de vinho. Nenhuma delas sabia bem porquê. E, assim que o empregado começou a servir, começaram a entrar em pânico.
Para começar, nem sequer sabiam ao certo quem tinha enviado o vinho. O empregado limitara-se a apontar na direção do bar, que estava cheio. O homem do táxi passou pela cabeça de Beverly, mas não conseguia vê-lo, e havia muitas outras pessoas sentadas ao balcão.
"Começámos a falar entre nós: 'O que é que vamos fazer? Temos de agradecer-lhe'", conta Beverly. "O que foi muito engraçado, na verdade."
Por fim, a amiga convenceu-a a ir à procura do misterioso benfeitor. Um pouco apreensiva, Beverly atravessou o restaurante em direção ao bar.
Olhou em volta para as várias pessoas sentadas nos bancos do bar, a beber margaritas e a partilhar aperitivos.
E então, trocou olhares, pela segunda vez, com o homem do táxi.
Ele estava a segurar uma bebida e levantou ligeiramente o copo para cumprimentá-la. Desta vez, sorriu. Beverly sentiu que estava a corar novamente.
"Fiquei toda atrapalhada", diz. "Mas perguntei-lhe se gostaria de sentar-se connosco."
Como um raio
Beverly voltou para a mesa com o homem do táxi, para grande divertimento da amiga. Foi então que ele se apresentou: Bob Parsons, capitão de iate de 30 anos, dos Estados Unidos.
Bob explicou que geria vários iates e que o seu principal barco, o Sugar Shack, estava atracado em Mazatlán naquela altura.
"Tivemos um jantar agradável e conversámos", recorda Beverly. "Era um homem calmo, discreto, muito simples e direto."
Durante a refeição, Beverly e Bob trocaram olhares. Cada vez que isso acontecia, sentia de novo aquela sensação de que era atingida por um raio.
Sentia-se atraída por Bob. Ele era simpático e educado com a amiga dela também. Mas quando a atenção dele se voltava para Beverly, era diferente.
Depois do jantar, Bob sugeriu que fossem até "ao centro, ao Copa de Leche". Um bar junto à praia, explica. Beverly hesitou.
"Não fazia ideia que tipo de lugar era aquele. Era o nosso primeiro dia ali", diz. "Mas a minha amiga queria ir. Então eu disse: 'Tudo bem, mas quero que saibas que não significa nada'. E ele respondeu: 'Só te convidei para beber um copo'."
Bob, Beverly e a amiga passaram o resto da noite a beber, dançar e conversar no Copa de Leche, um clube Art Déco em frente ao mar.
"Divertimo-nos, mas o meu pai sempre me disse para ter cuidado com marinheiros e americanos, e eu tinha o Doug, o meu namorado. Não andava à procura de nada", conta Beverly.
Mas, apesar de todas as reservas e hesitações, Beverly continuava a sentir algo diferente sempre que olhava para Bob, algo que nunca tinha sentido antes.
"Fiquei sem chão, não conseguia pensar noutra coisa", admite.
Durante a semana seguinte, Beverly viu Bob todos os dias. Mas impôs limites — nunca estava sozinha com ele, a amiga acompanhava-os sempre nas saídas à noite.
Mas quando Bob lhe pediu os contactos, Beverly acedeu e deu-lhe o número de telefone e a morada.
Assim que regressou a Vancouver, no Canadá, Beverly foi direita à caixa do correio. Pensara em Bob durante todo o voo de regresso.
"Estava em pulgas", lembra. "Naquela época, não podíamos suportar os custos das chamadas telefónicas, tínhamos de escrever — não havia comunicações como há agora. Esperava ter notícias dele e verifiquei toda a correspondência, mas não encontrei nenhuma carta… No fundo estava um bilhete da minha colega de quarto que dizia: 'Afinal, quem é o Capitão Parsons do Sugar Shack?'"
Quando viu o bilhete, Beverly soltou uma gargalhada. No fundo, ela já sabia que tinha de dar uma oportunidade a esta ligação. O simples facto de ele ter telefonado só veio confirmar essa certeza.
"No dia seguinte, o meu namorado Doug, com quem estava há três anos, foi ver-me. E antes sequer dele tirar o casaco, disse-lhe: ‘Doug, conheci alguém.’"
Explicou-lhe que essa pessoa estava no México, que nada acontecera entre eles, mas que sentira uma ligação impossível de ignorar. Doug ficou surpreendido, mas reagiu relativamente bem.
"Ele disse: 'Bem, isso é uma loucura. Mas é melhor ires lá e perceberes o que se passa.'"
Reencontro na Califórnia
Ao longo de julho de 1968, Beverly e Bob trocaram cartas.
"Mas trocar cartas entre os EUA e o México era uma loucura", recorda. "Demorava uma eternidade."
Perto do final do mês, Beverly recebeu uma chamada de um número desconhecido. Era a mulher do dono do Sugar Shack, que explicou que iam até à Califórnia no fim de semana seguinte para ir buscar um novo iate.
"Disse-me: 'O nosso capitão quer que voe até San Diego nesse fim de semana, e pediu-me para arranjar-lhe um quarto de hotel'", recorda Beverly.
Sem hesitar, Beverly disse que ia.
Ela sabia que era uma "loucura".
"Só estive com ele durante uma semana, nunca tínhamos estado sozinhos…", diz.
Mas não conseguia parar de pensar em Bob.
E mesmo que não tivesse sido amor à primeira vista no México, ela e Bob tinham agora a certeza de que estavam a apaixonar-se, depois daquele fim de semana alucinante em San Diego.
Beverly adorava estar na companhia de Bob.
"Ele era simplesmente um homem muito calmo, direto, discreto", recorda. "Era alto, bonito… e nem se dava conta disso, o que o tornava ainda mais atraente. Tinha presença."
Deu-se simplesmente o clique entre os dois.
"Voei para casa na segunda-feira de manhã e, ainda com o casaco vestido, escrevi a minha demissão e entreguei-a aos três departamentos para os quais trabalhava — ciências políticas, economia e sociologia — e enviei uma carta a todos eles", recorda.
"Liguei para o Doug e disse: 'Bem, disseste-me para perceber o que queria fazer. Não sei o que estou a fazer, mas tenho de fazê-lo'. Os meus pais ficaram chocados, mas os meus amigos ficaram ainda mais chocados, e eu simplesmente não fui capaz de resistir. Sabia que era estúpido e incorreto, porque, sabe, as pessoas não faziam este tipo de coisa naquela época."
Mas sempre que Beverly se deparava com preocupações ou hesitações dos seus entes queridos, lembrava-se do momento em que viu Bob pela primeira vez. Revivia o fim de semana em San Diego na sua mente. Ela sabia que esta era a decisão certa.
"Estava tão entusiasmada", conta. "Não conseguia esperar, então não esperei. Pensei... 'Se não for, vou passar o resto da minha vida a perguntar-me como teria sido.'"
Mudança para o México
Beverly chegou a Mazatlán no final de agosto de 1968. Ela e Bob estavam muito felizes por estarem juntos.
No México, Bob administrava quatro barcos: o Sugar Shack, o El Hefe, o Gold Coaster e o barco da estrela de cinema Jerry Lewis, o Pussy Cat 2, mais tarde chamado Shady Lady. Beverly começou a trabalhar a bordo dos iates de forma informal.
Um dia, estavam ambos a bordo, quando Bob a procurou.
"Ele saiu da sala das máquinas, a limpar a gordura das mãos, e disse: 'Gostava de casar'", lembra Beverly.
Foi apanhada de surpresa. E então surpreendeu-se a si mesma ao pensar em Doug, o ex-namorado na sua terra natal. E nos seus pais.
Em choque, ela até mencionou Doug em voz alta para Bob.
"Ele disse: 'Bem, se estivesses preocupada com Doug, estarias no Canadá, não aqui'", lembra Beverly.
Ainda incrédula, Beverly disse que deveriam ligar para os pais dela. Bob concordou. Então, do barco, eles ligaram para os pais de Beverly, a milhares de quilómetros de distância, no Canadá.
"Ligámos por single-sideband, o que quer dizer que ligas de um rádio para um ponto onde um operador pode ligar-te a um telefone", lembra Beverly. "E, a título de curiosidade, todo o oceano pode ouvir a chamada, porque é pelo rádio."
O operador ligou o telefone e a mãe de Beverly atendeu.
A gritar ao telefone, Beverly disse que ela e Bob iam casar.
"Tinha de dizer ‘câmbio’ quando fosse falar e tudo mais", lembra Beverly. "Então ela ficava a dizer ‘câmbio’ o tempo todo, e nós estávamos a gritar pelo rádio — não sei por que tínhamos de gritar, mas estávamos a gritar."
Por fim, a mensagem foi transmitida. E a resposta da mãe de Beverly foi pragmática.
"Ela disse: 'Bem, se vais casar, vem cá e casa-te na igreja'."
Beverly ficou surpreendida, pois esperava que a mãe se opusesse ou sugerisse que esperasse.
Enquanto isso, o operador de rádio, que conseguia ouvir toda a conversa, "estava a rir-se imensa".
"Toda a conversa foi tão louca", recorda Beverly.
Acordou no dia seguinte a sentir-se vagamente atordoada. Feliz, sim. Mas ainda um pouco em choque.
"Vou casar", pensou. "Preciso de um vestido."
Entretanto, em Vancouver, a mãe de Beverly andava atarefada a organizar uma cerimónia à última da hora.
"A minha mãe, em três semanas, encontrou um local lindo cuja reserva tinha sido cancelada e planeou um jantar com orquestra ao vivo para 90 pessoas, tudo sozinha."
Uma nova amiga que Beverly tinha feito em Mazatlán ajudou-a a costurar o seu vestido de noiva.
"Ia para a casa dela às oito e costurava o meu vestido de noiva, bordando pérolas à mão em todo o véu. Também fiz o véu — renda mexicana."
Enquanto Beverly aperfeiçoava o seu vestido de noiva e procurava tecido para os vestidos das damas de honra, deu por si a pensar na decisão de se casar com alguém que conhecia há apenas alguns meses e a analisar o que isso significava.
"Estava entusiasmada. Estava assustada. Mas o meu pensamento era: segui este homem do Canadá até ao México. Vou segui-lo para onde quer que ele vá. Portanto, devo estar apaixonada, e casar-me é ótimo, é a coisa certa a fazer", recorda
"Então, conhecemo-nos no final de junho, vim para a Califórnia em julho, voltei para o México em agosto e voltei para casar em setembro."
Beverly e Bob chegaram a Vancouver com o vestido feito à mão e os trajes vibrantes das damas de honra na mala. Bob conheceu os pais de Beverly e os amigos canadianos pela primeira vez. Os pais dela ficaram entusiasmados e acolheram Bob de braços abertos, e a mãe prometeu à filha que os planos para o casamento estavam perfeitos.
Para Beverly, na manhã do dia do casamento, tudo parecia surreal. Ela estava entusiasmada, sabia que amava Bob e estava confiante na sua decisão. Mas não conseguia acreditar que aquilo estava realmente a acontecer. E percebia que alguns dos convidados estavam um pouco perplexos.
"Eu não sabia nada sobre o meu casamento e tenho a certeza de que todos os meus amigos estavam lá a perguntar-se quem era aquele homem", diz Beverly. "Eles eram todos amigos do meu ex-namorado, Doug."
Mas, à medida que o dia foi passando, todas as reservas dos familiares e amigos de Beverly desapareceram.
"Bob levantou-se e fez um brinde à noiva. E quando o fez, ficou emocionado, e então todos se encantaram por ele", recorda Beverly.
"Todos os meus amigos e familiares o adoraram desde o início, e isso foi maravilhoso, porque fizemos muitas viagens com os meus velhos amigos, férias, e foi realmente maravilhoso."
Olhando para trás, Beverly está grata por o casamento ter corrido como correu.
"Estou muito feliz que a minha mãe me tenha feito casar na igreja", refere. "Significou muito, na verdade, ter todos os meus amigos lá, e foi positivo que eles também o conhecessem. Por isso, foi bom. Foi tudo muito bom."
A vida no mar
Cortesia de Beverly Parsons.
Beverly adotou o apelido de Bob quando se casaram, passando a chamar-se Beverly Parsons. Juntos, Beverly e Bob voltaram ao México para se reencontrarem com os proprietários do barco.
Desta vez, seguiram para Cabo San Lucas — hoje uma movimentada cidade turística, mas na época uma tranquila vila costeira com pouco mais de 1.700 habitantes.
O casal arrendou uma casa na praia, com um dos marinheiros do iate. Era o local perfeito.
"Bob estava a apenas uma viagem de barco do iate. Ficava mesmo em frente", lembra Beverly. "Comecei a aprender espanhol com o marinheiro que morava connosco. Ele falava comigo em espanhol e eu respondia em inglês, e tínhamos uma conversa em dois idiomas — ainda o vejo de vez em quando quando vou a Mazatlán."
Com o tempo, Beverly tornou-se cozinheira no iate, e ela e Bob começaram a viver a bordo. Tornaram-se muito próximos dos proprietários do barco.
"Eles tinham dinheiro, mas eram pessoas normais", diz Beverly. "Passámos por muitas coisas. Passámos por furacões juntos. Viajámos juntos. Passámos um ano em Acapulco — Bob estava a reconstruir outro barco para eles."
Era um estilo de vida glamoroso e divertido. Às vezes. Beverly sentia-se como se estivesse a viver num filme. Essa sensação era reforçada quando, em mais de uma ocasião, Bob era confundido com uma estrela de cinema.
"Lembro-me de ir a Las Vegas e ele ter ido à casa de banho... e umas raparigas vieram a correr até mim e disseram: 'Sabemos que ele é uma estrela de cinema, mas não conseguimos lembrar-nos do nome dele'", conta a rir.
Beverly e Bob eram felizes juntos. Amavam-se e adoravam estar na companhia um do outro.
Mas, por vezes, Beverly sentia-se pouco realizada a nível profissional.
"Às vezes, sentia-me como um pássaro numa gaiola dourada", diz. "Estava habituada a ganhar o meu próprio dinheiro. Paguei os meus estudos universitários. Fui para a Europa durante um ano.
Mas eu não sabia que estava a preparar-me para a carreira mais incrível que qualquer mulher poderia ter, acho eu."
Uma nova aventura profissional
Depois de alguns anos no México, Beverly e Bob acabaram por se fixar em San Diego, onde Bob trabalhava como capitão e navegador num barco de pesca comercial.
"Um dia recebi uma chamada de uma grande empresa de iates", conta Beverly. "Uma amiga minha que trabalhava lá como gestora da marina disse-me: 'Bev, não temos ninguém para os fins de semana. Podes vir trabalhar aos fins de semana?'"
Esse trabalho temporário marcou o início da carreira de Beverly no setor náutico. E, com o tempo, Bob deixou de trabalhar a bordo e passou a dedicar-se à venda e gestão de iates. O casal assentou em terra firme — embora o trabalho continuasse, por vezes, a levá-los de volta ao mar.
"Podiam comprar um barco ao Bob, tratar do seguro com ele, e depois era comigo que geriam e o alugavam. Éramos praticamente um pacote completo, e tivemos mesmo bastante sucesso," diz Beverly.
No início da relação, Bob e Beverly falaram sobre ter filhos. Quando viviam em iates, parecia que ter filhos estava fora de questão, mas combinaram voltar a falar sobre isso dali a alguns anos.
Quando Beverly fez 30 anos, o casal percebeu que continuava a pensar da mesma forma — não iriam ter filhos. Tinham uma vida plena, feliz e emocionante, e Bob também era muito próximo dos seus sobrinhos e sobrinhas.
Nas décadas seguintes, o casal viajou muito em trabalho, incluindo para a Turquia, Taiti e pelas Caraíbas.
"Tivemos uma vida maravilhosa, rodeados de bons amigos e num meio de que gostávamos muito", diz Beverly. "Fomos sempre felizes… Muita gente diz que não se consegue trabalhar com o marido, mas eu adorei."
Os primeiros anos no iate construíram uma base sólida, conta, tanto para trabalharem juntos como para desfrutarem da vida de casados.
"Quando se vive muito próximo de alguém durante cinco anos num barco, conhece-se essa pessoa. Sabe-se que se pode confiar nela. Eu confiava-lhe a minha vida", diz Beverly. "Confiava totalmente nele em todos os aspetos. E acho que, quando se tem um parceiro, é preciso amor — o que obviamente nós tínhamos — confiança e respeito. Eu tinha todas essas coisas."
Apoio e amor
Ao relembrar o seu encontro com Bob, aqueles primeiros anos, o trabalho conjunto em todo o mundo e os seus 52 anos de casamento, Beverly diz que se sente "uma das pessoas mais sortudas do mundo".
"Amava-o profundamente, e era simplesmente maravilhoso", diz. "Ele teve demência no final, e eu não ia colocá-lo numa instituição. Embora estivesse a trabalhar, reduzi as horas e fiz o melhor que pude por ele e por mim."
Bob viveu com demência durante vários anos antes de falecer no início de 2020.
"Quando Bob tinha crises devido à demência, colocava-me no lugar dele. E eu sabia que ele estava apenas com medo — e quem não ficaria? —, então abraçava-o com força e apenas dizia: 'Amo-te, nunca vou deixar-te e sinto muito'. E ele acalmava-se imediatamente", diz Beverly.
"É tão fácil quando se ama alguém de verdade. E eu sei que essa foi, na verdade, uma parte boa da nossa vida... foi apenas uma fase diferente."
Nos cinco anos que se seguiram à morte de Bob, Beverly continuou no ramo dos iates. Ela faz 80 anos este ano, mas ainda ama a sua carreira e o seu setor.
Em meados da década de 1960, antes de conhecer Bob, Beverly tinha reservas em relação ao casamento. Tinha longas conversas com a sua colega de quarto em Vancouver sobre a importância de permanecer independente, de não ficar presa numa época em que o casamento ainda era encarado sob uma perspetiva patriarcal e com papéis de género muito rígidos.
"Sempre vimos o casamento como uma prisão", recorda.
Mas agora, Beverly reconhece que o seu casamento com Bob a impulsionou para a frente. Ele amava a sua independência, e o amor dele deu-lhe a base e a âncora para explorar o mundo e ser ela mesma, encontrar o seu lugar.
"Na nossa época, podia-se ser professora, secretária ou enfermeira, basicamente. E essas eram as três opções, e eu consegui ser algo diferente, com o apoio e o incentivo dele", diz. "Eu tinha esse apoio. Ele sempre me apoiou."
Hoje, Beverly mora na Califórnia. Ela ainda é próxima de todos os seus velhos amigos — desde aqueles que ficaram sentados, incrédulos, no seu casamento, até às pessoas que conheceu no México, nos iates.
Ela até se tornou, talvez contra todas as expetativas, boa amiga do seu ex-namorado Doug nos últimos anos.
Beverly sempre se sentiu um pouco culpada pela forma como terminaram. Quando voltaram a entrar em contacto, ela pediu desculpa, apesar de terem passado décadas e de ela ter vivido toda a sua vida com Bob nesse intervalo.
Doug disse-lhe: "Não precisas de perdão".
Este ano, Beverly faz 80 anos e vai fazer um cruzeiro pelo Alasca com Doug para comemorar.
"Nascemos no mesmo mês", aponta.
Quando pensa no seu romance de várias décadas com Bob, muitas vezes, Beverly dá por si a pensar numa conversa que teve com o pai no dia do seu casamento — logo depois de Bob ter impressionado toda a gente com o seu brinde sincero e emocionante.
"Quando me casei, disse-me: 'Não consigo imaginar nada pior do que a minha única filha ir para um país estrangeiro, a vaguear num barco, sem poder contactá-la, sem saber onde ela está ou se está segura'", recorda Beverly.
"Mas depois disse: 'Olhei para vocês e... não quis impedir-vos, porque vi o quanto se importavam um com o outro'. E então, quero dizer, quão sortudo pode alguém ser? E poder ter 50 anos? É simplesmente inacreditável quando se pensa nisso. Estou tão feliz por ter arriscado."
Nota do editor: este artigo foi publicado originalmente em março de 2025. Foi republicado em julho de 2025 para incluir um novo episódio do podcast Chance Encounters da CNN, focado na história de amor de Beverly.
