Estava a ser o pior voo da vida dele. Até que conheceu a sua futura mulher

CNN , Francesca Street
23 nov, 09:00
Anesu e Hannah (CNN)

Anesu Masube estava prestes a viver o pior voo da sua vida.

No dia anterior, Anesu recebeu a notícia devastadora de que a sua mãe tinha morrido. Anesu morava em Washington, DC. A sua família vivia a 11 mil quilómetros de distância, no Zimbábue. No meio daquela dor profunda, ele precisava de tentar voltar para casa.

Atordoado, Anesu reservou um voo. Era dois dias antes do Natal de 2017. Quase não havia lugares disponíveis.

“Só havia disponibilidade na Virgin Atlantic, com um voo de ligação que ia de Washington, DC para Londres, de Londres para Joanesburgo e, depois, de Joanesburgo para Harare”, conta Anesu à CNN.

“E, por ter reservado à última hora, acabei por ficar sentado num lugar no meio.”

Mas não era um lugar do meio qualquer.

“Nem sei como explicar como eram os lugares, mas nunca me tinha acontecido sentar-me num avião e pensar de imediato: ‘Não vou conseguir aguentar sete horas sentado aqui’”, recorda. “Estava tão apertado, quase sentado de lado, e a viver o pior momento da minha vida, estava de luto pela minha mãe.”

Alguns familiares de Anesu encorajaram-no a esperar até depois do Natal para viajar. A família não estava convencida de que ele chegaria a tempo para o funeral.

“Mas eu teimosamente fiz a reserva, porque não estava a fazer isso por ninguém além de mim mesmo. Eu queria chorar a morte da minha mãe. E sei que, se a minha mãe estivesse viva, ela teria interrompido o funeral para garantir que eu chegava a tempo.”

Sabendo disso, Anesu não tinha outra opção senão espremer os seus 1,90 metros de altura no apertado assento do meio. Tentou bloquear o ambiente ao seu redor com fones de ouvido. Tentou respirar profundamente. Nada disso ajudou.

Tentando manter a calma e a lógica, Anesu pensou no seu próximo passo e lembrou-se que podia tentar perguntar à comissária de bordo se seria possível mudar de lugar. “Mas eu não queria criar um problema sem solução.”

Anesu olhou à sua volta na cabine. Estava bastante cheia. Até que fixou o olhar na fila da saída de emergência. Só havia uma única passageira sentada ali. Parecia ter a fila toda para si.

“Então, pedi à comissária de bordo — primeiro, mostrei-lhe onde estava sentado e expliquei a situação, e depois perguntei se poderiam mudar-me para outro lugar, talvez para aquele assento da saída.”

A comissária de bordo pediu-lhe que esperasse até que o embarque estivesse completo para ver o que podia fazer.

“As portas fecharam-se, e a comissária voltou-se para mim e disse: ‘Tudo certo, pode ir’”, conta.

Anesu pegou na sua mochila e dirigiu-se para a fila de emergência. Preparou-se para pedir desculpas à passageira que havia ganhado a lotaria dos assentos — uma fileira inteira só para ela — e que agora teria de dividir o espaço com as suas longas pernas. Anesu esperava que não fosse constrangedor. Ele só queria concentrar-se em chegar a casa.

“Mas, assim que me sentei, ela foi muito simpática comigo. Tinha um grande sorriso. Acho que ela fez uma piada: ‘Bem-vindo ao paraíso’. Algo desse género. Foi quase o oposto da reação que eu imaginava ou esperava, se é que eu esperava alguma coisa.”

“Só me lembro que, naquele momento, senti uma amabilidade inesperada. Aquela pessoa estava a ser muito simpática comigo num momento em que eu realmente precisava. E nós simplesmente começámos a conversar.”

Uma nova colega de banco

Hannah Brown também estava um pouco apreensiva com o voo daquele dia.

Naquele Natal de 2017, tinham passado dois anos desde que o pai de Hannah morreu inesperadamente. Hannah estava a viver na Tanzânia na altura e teve de viajar sozinha, pelo mundo, para enfrentar o luto.

Dois anos depois, a dor estava menos intensa, mas continuava a ser uma parte inseparável do seu dia a dia, e sempre mais dolorosa por volta do Natal.

“Por isso, decidi que não queria passar o Natal em casa. Era muito difícil estar em casa. Vinham muitas memórias à tona”, conta Hannah à CNN. “Disse à minha mãe e à minha irmã: ‘Vou para França. Vou passar o Natal em Paris e vocês podem vir comigo, ou não, se não quiserem’.”

A mãe e a irmã de Hannah concordaram - criar novas memórias parecia uma ótima ideia. Além disso, o pai de Hannah sempre quisera ir à Normandia. Antes de morrer, ele tinha planos para visitar a região com a mãe de Hannah.

“Então, decidimos que, como parte dessa viagem, também iríamos à Normandia para fazer algumas das visitas que ele sempre quis fazer.”

Quando Hannah partiu naquele dia da sua cidade natal, Washington, DC, para Londres, refletia sobre os Natais passados com o pai e ansiava pelas férias em França. Tudo parecia um pouco agridoce. Era surreal pensar que já tinham passado dois anos desde a morte do pai. Hannah sabia que o pai ficaria orgulhoso da viagem a França. Mas também sentia tristeza por ele não estar lá. Hannah sabia que iria sentir-se sempre triste por ele não estar lá.

Quando entrou no avião e percebeu que tinha a fila de saída de emergência só para ela, Hannah percebeu que tinha tido sorte. Poderia desligar-se e desfrutar do seu próprio espaço.

“Fiquei muito entusiasmada. Acho que já me tinha acomodado e estava confortável, até que olhei para cima e vi um rapaz mais alto no lugar do meio, na secção central, a queixar-se à comissária de bordo sobre o lugar onde estava e a apontar para a minha fila.”

O coração de Hannah afundou.

“Ugh”, pensou. “Eles vão trazê-lo para aqui.”

Quando Anesu começou a caminhar na sua direção, Hannah já tinha mais ou menos aceitado a nova realidade. 

Anesu e Hannah viajavam no mesmo voo naquele dia de 2017 e acabaram por se sentar um ao lado do outro. Cortesia de Hannah K. Brown

Olhando para trás, Hannah concorda com a memória de Anesu de que “talvez tenha feito uma pequena piada” para lhe dar as boas-vindas ao seu novo lugar.

“Mas eu definitivamente já estava com os meus auscultadores e tirei-os por um segundo, apenas para ser educada e dizer: ‘Olá. Como está?’. Para dizer algo breve.”

Hannah é uma pessoa introvertida e a ideia de entrar em qualquer tipo de conversa num voo além dos habituais cumprimentos estava longe de a agradar.

“Mas juro que, quando estava a colocar novamente os auscultadores, ele disse: ‘Olá, sou o Anesu’. E simplesmente começou a conversar. Lembro-me de pensar: “Meu Deus, este tipo é um tagarela”.”

“Tudo o que posso dizer é que não teria continuado a conversar sozinho”, complementa Anesu, entre risos. “Havia alguém a responder. É claro que eu sou definitivamente mais falador do que ela. Mas a conversa continuou porque imediatamente descobrimos que tínhamos muito em comum - tínhamos muito em comum logo à partida.”

Anesu contou a Hannah que estava a viajar para o Zimbábue. Hannah mencionou que já tinha estado lá algumas vezes, pois estudou no estrangeiro, em Botsuana. Na verdade, o pai dela encontrou-a no Zimbábue. Uma das suas memórias favoritas com o pai foi terem ido juntos às Cataratas Vitória e terem admirado a paisagem incrível. Hannah também tinha visitado cidades mais pequenas que não faziam parte do roteiro turístico comum. Anesu ficou surpreendido.

“É muito raro em Washington, DC conhecer um americano que tenha estado no Zimbábue e, especialmente, em cidades pequenas”, confessa Anesu.

Hannah presumiu que Anesu estivesse a viajar para ir de férias, como a maioria das pessoas no avião, que estavam carregadas de presentes e vestiam camisolas festivas.

Anesu fez uma pausa, como se estivesse a debater-se sobre como responder. Decidiu ser sincero com ela. Contou a Hannah, aquela estranha que conhecera minutos antes, sobre a morte da sua mãe no dia anterior.

“E lembro-me de pensar: ‘Este pobre rapaz deve estar a passar por um momento terrível’”, recorda Hannah. “Eu tinha passado pela mesma situação dois anos antes, num voo internacional, sozinha, depois de saber que um dos meus pais morreu. É uma situação muito difícil. Lembro-me de termos tido muitas conversas profundas sobre luto e perda de um dos pais quando se está no outro lado do mundo, e como isso é difícil e solitário.”

“Ela compreendia o que eu estava a passar”, conta Anesu. “Parecia que já nos conhecíamos, e, para ser sincero, eu precisava de ter aquele momento, mas não sabia na altura.”

Hannah quis saber como era a mãe de Anesu. Encorajou-o a partilhar algumas histórias. Em pouco tempo, os dois estavam a rir e a chorar juntos.

“Depois da morte do meu pai, lembro-me que o que realmente me ajudou e me fez sentir que estava a superar aquilo foi lembrar-me de histórias e poder partilhá-las sobre ele”, confessa Hannah.

Às vezes, em momentos de luto, as pessoas não sabem o que dizer ou o que perguntar. O que é compreensível, porque as pessoas não querem falar de assuntos difíceis. Mas, mais uma vez, acho que, na minha experiência, o que realmente ajudou foram as pessoas que perguntaram sobre o meu pai e pediram para ouvir histórias. Por isso, a minha reação foi: ‘Vamos celebrar a vida da tua mãe. Fala-me sobre ela’.”

“Lembro-me de estarmos sentados, a beber garrafinhas de vinho no final, a brindar à vida da mãe do Anesu e provavelmente a beber um pouco demais no avião.”

Enquanto brindavam, Hannah estudou o rosto de Anesu. “Ele é giro”, pensou. “Não é apenas giro. Ele é atraente, sedutor.”

Aquele pensamento surgiu-lhe assim que Anesu se sentou ao seu lado - numa mistura de sentimentos entre o aborrecimento por já não ter uma fila só para ela, a empatia que sentiu quando soube do que acontecera com a mãe de Anesu, a surpresa pela facilidade com que se deram bem. Mas a atração potencial estava longe de ser a sua prioridade.

“Senti que tínhamos tanto em comum. Nunca consegui conectar-me assim com alguém, ainda para mais durante um voo.”

Além disso, Hannah percebeu que a conversa sobre luto e perda estava, de certa forma, a ajudar Anesu. E isso também a confortava.

“Aquela conversa ajudou-me na minha jornada com o luto”, reflete Hannah, em retrospectiva.

Quanto a Anesu, também ele ficou impressionado com a conexão que sentiu com Hannah. Mas o romance não era exatamente a sua prioridade.

“Não estava exatamente à procura de raparigas num avião a caminho do funeral da minha mãe. Acho que o encontro foi apenas uma conexão. E como a Hannah me fez sentir. E eu achei mesmo que ela era uma pessoa muito bonita, tanto por fora como por dentro, e fez-me sentir confortável e acolhido.”

Anesu e Hannah conversaram durante todo o voo. Ambos tinham a intenção de tentar dormir em algum momento durante aquelas sete horas fechados num avião. Acabaram por nunca afastar o olhar um do outro.

Até a comissária de bordo que mudou Anesu para a fila levantou as sobrancelhas enquanto lhes servia mais vinho. “Vocês deram-se mesmo bem”, comentou a comissária.

Quando o voo aterrou em Heathrow, Anesu e Hannah trocaram números de telefone antes de seguirem para as próximas etapas das suas viagens.

“Morávamos ambos em Washington, DC”, indica Anesu. “Por isso, eu sabia que queria vê-la assim que voltássemos.”

Hannah não esperava que a conexão que sentiu com Anesu fosse além disso. Quando embarcou no voo para Paris, sentia-se mais leve, esperançosa. “Lembro-me de pensar: ‘Uau. Que encontro bonito. Se eu nunca mais o vir, ou se nunca mais conversarmos, foi apenas um encontro bonito com um estranho’.”

Quando a família de Anesu o foi buscar, no dia seguinte, ao aeroporto no Zimbábue, ele começou logo a falar sobre Hannah.

“Eles vieram buscar-me ao aeroporto e lembro-me de lhes ter falado sobre a Hannah. Depois, lembro-me de contar aos meus amigos assim que cheguei ao Zimbábue - falei sobre o que aconteceu, sobre aquela misteriosa rapariga americana branca que conheci no avião.”

Os amigos de Anesu não resistiram à tentação de gozar com ele.

“Acabaste de chegar de avião para o funeral da tua mãe e a primeira coisa que nos contas é sobre uma rapariga?”. Os amigos de Anesu riram-se. “Eles estavam a gozar comigo por causa disso”, conta, encolhendo os ombros. “Mas eu tinha de partilhar isso com eles.”

Um reencontro inesperado

Anesu e Hannah trocaram mensagens durante os 10 dias seguintes. Hannah disse-lhe que estava a pensar nele no dia do funeral da mãe de Anesu. Ele perguntou-lhe como estava a correr a viagem em França.

“Dez dias depois, tive de apanhar um voo de volta para Washington DC”, recorda Anesu. “Usei a mesma rota — Virgin Atlantic, Harare, Zimbábue para Joanesburgo, depois de Joanesburgo para Londres Heathrow.”

Anesu chegou a Heathrow logo de manhã, nos primeiros dias de 2018. O seu voo final para Washington DC era pouco antes do meio-dia.

“Eu estava num bar, à espera do meu voo”, recorda Anesu. “E foi então que a vi entrar.”

Hannah e Anesu nunca tinham falado sobre os seus planos do voo de regresso. Mas, de repente, estavam frente a frente em Heathrow. Cruzaram o olhar, sorrindo, incrédulos.

“Eu perguntei-lhe: ‘Vais voltar hoje? A que horas, em que voo?’ Às 11:30, no mesmo voo. Virgin Atlantic, de volta a Washington. 'Qual é o número do teu lugar?' Ela estava sentada no 60A. Eu estava sentado no 61A. Um à frente do outro.”

Hannah juntou-se a Anesu no bar, a sorrir. Ela acabara de se despedir da mãe e da irmã, que moravam na Califórnia e estavam a voar para San Diego. Hannah enviou-lhes uma mensagem rápida e discreta: “Não vão acreditar com quem estou sentada no bar. Estou com o rapaz do avião”, escreveu.

“E, clássico, a minha mãe respondeu: ‘Meu Deus, talvez isso se transforme num romance’”, lembra Hannah, a sorrir.

Hannah revirou os olhos ao ler a resposta. Mas, em parte, estava a pensar o mesmo. Olhou para Anesu com novos olhos. Anesu devolvia-lhe o olhar.

“Também nos demos muito bem no bar”, recorda Anesu. “E quando entramos no avião, as pessoas que estavam sentadas nos lugares 60B e 61B, sem que tivéssemos dito nada, automaticamente perguntaram-nos se queríamos sentar-nos juntos.”

No voo de volta para Washington, DC, Anesu e Hannah não pararam de conversar. Sobre as suas respectivas viagens. Sobre as suas famílias. Sobre as suas vidas em casa. Até que descobriram que moravam no mesmo bairro em Washington, DC.

“Apanhámos o mesmo Uber do aeroporto para casa, deixei-a primeiro e depois fui para casa”, recorda Anesu. “Senti que aconteceu tudo tão rápido, no espaço de 10 dias, e foi inexplicável. Mas o que era tão real era apenas a conexão e o sentimento. Não parecia que a conhecia há 10 dias, nem sequer 10 dias, apenas dois dias de viagem daqueles 10 dias. Foi assim que começámos a namorar, dias depois de aterrarmos em Washington, DC.”

A vida em Washington, DC

A abertura que ambos demonstraram durante a viagem de avião fez com que Anesu e Hannah sentissem que tinham passado à frente da fase inicial e embaraçosa do namoro. O relacionamento tornou-se sério rapidamente. Cortesia de Hannah K. Brown

As primeiras semanas de namoro em Washington, DC não foram “normais”, como Anesu descreve. O casal passou rapidamente à frente de toda a conversa fiada constrangedora. Hannah conheceu-o num dos piores dias da vida dele. Ele só a viu em modo avião.

“Quando tivemos o nosso primeiro encontro, por assim dizer, no sentido tradicional, num bar, já sabíamos muito um sobre o outro”, conta Hannah. “Tínhamo-nos aberto tanto um ao outro no avião, aquele tipo de relação em que se testa a outra pessoa para ver se podemos ser vulneráveis com ela, se podemos partilhar certas coisas com ela, aquela fase de ‘isto é uma entrevista ou um encontro’, que nunca aconteceu connosco.”

Hannah sentia que Anesu era alguém com quem ela podia ser totalmente vulnerável, totalmente ela mesma. Ele conheceu-a quando ela estava “com uma aparência muito má”, vestida com um fato de treino. Não havia necessidade de fingir ser alguém que ela não era.

Para Anesu, parecia que Hannah representava um novo capítulo na sua vida, uma esperança inesperada na escuridão da dor pela perda da mãe.

“Parecia que a minha mãe tinha enviado alguém, porque achava que eu provavelmente precisava disso”, assume Anesu.

O resto da família de Anesu presumiu que ele estava numa “trajetória diferente, numa linha do tempo diferente” dos seus colegas no Zimbábue. Eles sabiam que ele estava focado nos estudos e em construir uma carreira nos EUA, pelo que assumiram que ele não se casaria nem se estabeleceria com alguém, ao contrário dos seus colegas de vinte e poucos anos no seu país natal.

Por isso, quando Anesu lhes contou que estava num relacionamento sério, todos ficaram surpreendidos, mas ainda viam o relacionamento com Hannah como pouco convencional.

“Culturalmente, não é muito comum no Zimbábue haver casais mistos. Não há muitos relacionamentos entre negros e brancos no próprio país”, explica Anesu. “Pode ser comum quando alguém sai do Zimbábue, mas no próprio país não é muito comum.”

Mas Anesu diz que a sua família percebeu que isso era apenas mais uma das muitas maneiras pelas quais ele era “não convencional — tanto na carreira, na vida” como no facto de já não viver no Zimbabué há décadas.

A família de Anesu ficou feliz por ele parecer ter encontrado a felicidade após a tragédia. “Acho que ficaram felizes por eu ter encontrado alguém e foram muito solidários, a minha avó, as minhas irmãs mais novas.”

Uma coisa que as famílias de Anesu e de Hannah tinham em comum era uma incredulidade sobre as circunstâncias do encontro do casal.

“Todos os meus amigos, a minha família, a minha irmã, a minha mãe, todos reagiam com: ‘O quê? Isso é loucura. Isso é coisa de filme. Isso não acontece. É um sinal. Vocês têm de ficar juntos'”, relata Hannah, a sorrir. “E eu respondia: ‘Não, não temos de ficar juntos. Não assumam nada. Deixem-me perceber se também quero ficar com este rapaz’.”

Mas as suas tentativas de ser lógica só foram recebidas com “muitas piadas sobre quem nos interpretaria no filme”.

Hannah diz que acredita mais em “coincidências” do que no “destino”. Por isso, nunca gostou quando alguém dizia que ela e Anesu estavam “destinados a ficar juntos”.

“Além disso, não é como se estivéssemos juntos só porque nos conhecemos no avião e tivemos aquele encontro louco”, acrescenta. “Gosto de pensar que, se tivéssemos ido a um encontro às cegas aleatório, também estaríamos juntos.”

Anesu tem uma perspetiva ligeiramente diferente. Afinal, o momento em que conheceu Hannah, um dia após a morte da sua mãe, pareceu algo cósmico, algo maior do que eles.

“Eu não planeava estar naquele voo. E aquele não era o meu lugar”, recorda Anesu. “Além disso, o destino é apenas uma amálgama de coincidências.”

“Não precisamos de entrar na discussão sobre o destino”, interrompe Hannah, entre risos.

“Acho que devíamos casar”

Hannah e Anesu foram viver juntos cerca de um ano depois de se terem conhecido. Corsteia de Hannah K. Brown

Nos primeiros meses do relacionamento de Hannah e Anesu, o trabalho de Hannah no governo obrigava a que ela passasse longos períodos fora da cidade. Após cerca de um ano, porém, esse período de viagens diminuiu. Hannah e Anesu foram morar juntas em Washington, D.C.

“Nessa altura, quando já morávamos juntos, dissemos que nos víamos um com o outro a longo prazo”, conta Hannah. ‘Como seria ficarmos juntos?’, imaginavam. “E, enquanto tomávamos um cocktail num restaurante tailandês, pensámos: ‘Acho que devíamos casar e acho que deviámos fazê-lo em breve’.”

Anesu perguntou a Hannah se ela queria um pedido de casamento ou um anel. “Não preciso disso”, respondeu Hannah. Na sua opinião, esses símbolos não eram importantes.

“Acho que, para mim, quando pensava em todos os cenários do meu futuro, o fio condutor eras tu, que estavas em todos eles”, confessa hoje Hannah, olhando para Anesu. “Quando isso ficou claro para mim, eu soube que estava pronta para casar. Porque sei que, quer a minha vida siga por este ou aquele caminho, quer eu faça isto ou aquilo, o que é certo é que te vejo sempre ao meu lado.”

Após o noivado, Hannah e Anesu planearam uma viagem ao Zimbábue para que Hannah pudesse conhecer a família de Anesu.

Durante o voo, Anesu preparou Hannah para a sua árvore genealógica. Hannah adorou visitar o Zimbábue novamente. E adorou a família de Anesu.

“Tens cinco irmãs mais novas. És o único rapaz, és o mais velho. Mas todas as tuas irmãs são tão queridas e acolhedoras que sinto que sou uma boa amiga delas”, diz hoje Hannah a Anesu.

Conhecer a avó de Anesu, que era como uma segunda mãe para ele, também foi um momento muito importante.

“Quando a vi, pensei: ‘Oh, esta é a pessoa mais importante da tua vida no Zimbábue’. Estendi a mão, como se fosse apertar a mão dela. Olho para trás agora e penso: ‘Que idiota’. De qualquer forma, ela simplesmente ignorou a minha mão e deu-me um grande beijo na boca. Eu só me lembro de pensar: ‘Oh meu Deus, tudo bem, vamos fazer isto'. Mas foi apenas uma receção calorosa e imediata e uma sensação de aceitação."

De volta a Washington, DC, o casal planeou o que Anesu chama de “um casamento muito fofo no tribunal” para o verão de 2019, com a presença da família de Hannah e dos seus amigos mais próximos.

“Estávamos aqui mesmo, no quintal da nossa casa, e foi assim que unimos as nossas vidas”, lembra Anesu. “Depois, viajámos com a família dela para o Zimbábue para que as duas famílias pudessem conhecer-se. Infelizmente, a minha família não pode viajar facilmente para os EUA devido às óbvias dificuldades com vistos, especialmente hoje em dia.”

Esta viagem ao Zimbábue foi especial para Hannah e Anesu. Viram os seus entes queridos unirem-se e ficaram animados com o futuro em conjunto. No voo de regresso a casa, tiraram uma fotografia juntos, relembrando os seus primeiros voos lado a lado.

Um apoio mútuo

Hoje, Hannah e Anesu celebram a sua história de amor no aniversário de casamento, mas o período que antecede o Natal e o aniversário do encontro no avião também será para sempre significativo para ambos.

Para Hannah, esse costumava ser um período sombrio - uma lembrança da morte do pai e do voo solitário que ela fez da África para os Estados Unidos. Hoje, Hannah ainda chora a morte do pai, mas essa data também está ligada ao início de um novo capítulo com Anesu e toda a felicidade que eles desfrutaram nos últimos oito anos.

Quanto a Anesu, a morte da mãe estará sempre ligada ao encontro com Hannah.

“Desde aquele dia no avião até hoje, a Hannah tem feito parte da jornada, não só de luto, mas também de celebração, de lembrança e de não esquecimento, de seguir em frente”, resume Anesu sobre Hannah.

Essa ligação entre os momentos mais felizes e os mais tristes da vida de Anesu é agridoce. “Embora eu saiba que provavelmente teria sido difícil para mim conhecê-la se não fosse a morte da minha mãe, também é difícil para mim saber que elas nunca se conhecerão, porque são as duas pessoas mais importantes da minha vida.”.

Hannah também diz que é triste pensar que o seu pai nunca conhecerá Anesu.

“Quando se perde alguém que se ama, o mais doloroso é que, mesmo nos momentos mais felizes da vida, haverá sempre um pouco de tristeza. Porque se pensa naquele que não está presente. Mas acho que isso faz parte do luto, certo? É a vida e a realidade, e aprendemos a conviver com isso.”

Além disso, Hannah sente que conhece a mãe de Anesu e espera que ele sinta que conhece o seu pai.

“Partilhamos muitas histórias sobre os nossos pais e eu digo-lhe sempre que sinto que conheço a mãe dele através das histórias que ele conta”, confessa, levando o olhar para Anesu. “E através das tuas irmãs e outros membros da família, porque a tua mãe desempenhou um papel tão importante na formação das vossas personalidades e faz parte de vocês.”

Tanto para Hannah como para Anesu, o encontro em circunstâncias agridoces estabeleceu um apoio mútuo que se tornou a pedra angular da sua relação.

“Tem sido um ótimo relacionamento, vida, casamento - tantas experiências, tantos aspectos positivos, alguns desafios. Viajamos pelo mundo juntos. Não poderia ter imaginado uma parceira melhor para viver do que a Hannah”, confessa Anesu. “Estou ansioso pelo resto das nossas vidas juntos e para ver o que o futuro nos reserva.”

Hoje, oito anos depois de se conhecerem no avião, o casal ainda mora em Washington, DC, mas está a pensar deixar os Estados Unidos. É um novo capítulo emocionante e desafiante, mas ambos sabem que estarão ao lado um do outro durante toda a viagem.

“Estamos a pensar mudar-nos para África no próximo ano, talvez, esperamos”, conta Anesu. “E sinto que as coisas que posso fazer na minha vida agora, não  as poderia ter feito sem a Hannah.”

“Estamos lá um para o outro. Somos um casal. Somos uma unidade. Estamos a construir as nossas vidas juntos. Há desafios, há sucessos, há felicidade, mas o mais importante é que acordo todos os dias e sei que não estou sozinho nisto.”

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