Ela não conseguia tirar da cabeça o homem que viu numa ilha remota. Meses depois, ele enviou-lhe uma carta

CNN , Francesca Street
27 abr 2025, 18:00
Quando Paula Susarte e Alfredo Ovalle se cruzaram na vila piscatória chilena de Melinka, em 1986, não trocaram uma única palavra. Nos dias, semanas e meses que se seguiram continuaram a pensar um no outro e naquele silencioso encontro. Cortesia de Alfredo Ovalle e Paula Susarte

Na primeira vez que Alfredo Ovalle e Paula Susarte se cruzaram, não trocaram uma única palavra. No entanto, ambos saíram desse encontro com a sensação de que algo havia mudado, convictos de que aquele momento teria um significado especial.

“Algo não dito passou entre nós,” conta Alfredo à CNN Travel. “Uma conexão silenciosa.”

“Foi algo especial,” concorda Paula.

Este encontro inesquecível aconteceu em 1986, em Melinka, uma pequena vila na Ilha Ascensión, no arquipélago de Guaitecas, no Chile.

Deslumbrante, pouco povoada e rodeada de água, Melinka era linda — mas para Alfredo, que se mudara da sua cidade natal, Santiago do Chile, no início de 1986, a vida na ilha revelou-se também “muito difícil e realmente intensa”.

“É uma zona muito remota,” diz. “E naquela região do Chile, o tempo costuma ser muito mau. Mas quando o cruzeiro chegou à ilha, estava um dia lindo.”

Alfredo nunca esquecerá o momento em que viu, pela primeira vez, o navio da Skorpios Cruise Line, que trouxe Paula a Melinka.

O navio atracou em Melinka por pouco mais de uma hora — um momento que mudaria para sempre as vidas de Alfredo e Paula.

Numa época anterior aos telemóveis e às redes sociais, Melinka era a única paragem no itinerário com um telefone público. A ideia era simples: o navio fazia uma breve escala para que todos os que quisessem fazer uma chamada pudessem fazê-lo, antes de seguir viagem.

Entre os passageiros que desembarcaram do navio naquele dia estava Paula Susarte. Fotógrafa de 20 anos, natural de Santiago, tinha sido contratada por uma revista chilena para documentar a viagem do navio pelos espetaculares fiordes do sul do Chile.

Paula, que tinha embarcado no navio alguns dias antes, acompanhada por um dos jornalistas da revista, estava entusiasmada por explorar uma parte do seu país que não conhecia, especialmente o impressionante Glaciar Laguna San Rafael.

“Estava numa fase da minha vida em que me sentia muito livre,” recorda. “E foi então que vi o Alfredo.”

"Algo especial"

Quando Paula desembarcou do navio, viu Alfredo imediatamente. E sentiu-se, de forma inesperada e instantânea, atraída por ele.

Enquanto os passageiros se alinhavam para usar o telefone público, localizado "numa cabina no topo de uma colina", Paula deu um toque ao seu colega e apontou para Alfredo, que estava lá em baixo, no cais.

"Ele parece diferente de todos os outros," disse, sem saber bem o que queria dizer.

Alfredo também reparou logo em Paula. Ele era supervisor de uma pequena fábrica de processamento de mariscos e vivia na Ilha de Chiloé, ao norte de Melinka, mas passava muito tempo na Ilha Ascensión. Naquele dia tinha ido até ao cais, sob o pretexto de ver os seus trabalhadores, mas na verdade estava à espera de avistar o navio de cruzeiro que chegava.

“Quando o cruzeiro chegou a este pequeno lugar, a esta vila piscatória, foi um verdadeiro evento”, recorda Alfredo. “As pessoas corriam de um lado para o outro, a gritar ‘O barco chegou! O barco chegou…’”

Quando os passageiros desembarcaram do navio, Alfredo viu imediatamente Paula.

“Vi-a, e já não consegui tirar os olhos dela”, diz.

Ambos repararam no olhar do outro.

“Os nossos olhares não paravam de se cruzar”, recorda Alfredo.

Antes de Paula e os outros passageiros retornarem ao navio, Alfredo falou — brevemente — com o colega de Paula.

Mas ele não disse nada a Paula, e ela também não lhe disse nada. Apenas sorriram um para o outro.

“Não sei por que não lhe disse nada... Acho que não queria interromper aquele momento mágico”, recorda Alfredo.

“Naquela idade, talvez fosse tímido também. Com uma situação tão intensa a acontecer, pensei: ‘Não vou estragar este momento mágico.’”

Quanto a Paula, sentiu-se demasiado envolvida pela situação para dizer algo. Não era propriamente tímida, mas simplesmente não conseguia perceber o que estava a sentir para encontrar palavras.

Assim que Paula e o seu colega começaram a caminhar em direção ao navio, Alfredo, de forma espontânea, entregou o seu cartão de visita ao colega de Paula.

Ele queria fazer algo que lhe permitisse ver Paula novamente — e sentiu que essa era uma forma mais subtil de o fazer.

De volta ao navio, Paula subiu até ao deck superior para admirar a vista de Melinka.

“Era final de tarde, estava um pôr do sol maravilhoso”, recorda.

Enquanto observava as colinas da vila piscatória, Paula avistou Alfredo, de pé à beira da água, a sorrir.

"Ele era o único ali, a olhar para a água", conta Paula. "Fiquei no deck, acenei-lhe e ele acenou-me de volta. Foi um momento muito especial."

Alfredo observou Paula até ela se tornar apenas um ponto "a desaparecer no mar aberto".

Depois do barco desaparecer de vista, Alfredo ficou ali, a olhar para a água, durante algum tempo.

Tentou tentar perceber o que tinha acontecido, e sentiu-se “sobrecarregado por uma sensação de oportunidade perdida”.

A emoção manifestou-se como uma súbita onda de energia, e Alfredo decidiu ver se conseguia avistar o navio de um ponto mais alto.

“Corri até ao topo da colina para ver o cruzeiro a contornar a ilha”, lembra.

Quando começou a correr, Alfredo carregou no botão play do seu Walkman. A voz de Phil Collins começou a ecoar nos seus ouvidos, a cantar "Invisible Touch", o single de lançamento do álbum de 1986 dos Genesis, com o mesmo nome.

Enquanto Alfredo subia a colina, sentia-se repleto de felicidade.

“Fui a dançar praticamente durante todo o percurso até ao topo da colina”, diz.

No topo, Alfredo conseguiu o que procurava: “Uma vista fantástica do cruzeiro, dos vulcões, das montanhas, das ilhas... Vi o navio a desaparecer no pôr do sol.”

Mas, depois de o navio de Paula desaparecer e as últimas nuvens douradas e âmbar se desvanecerem na escuridão, Alfredo foi confrontado com a realidade da situação.

“Acho que nunca mais a vou ver”, pensou.

Cartas cruzadas

Alfredo e Paula decidiram escrever um ao outro. E, sem saberem, escreveram ao mesmo tempo. Cortesia de Alfredo Ovalle e Paula Susarte

Passaram-se semanas, depois meses. Alfredo manteve a esperança de que Paula pudesse entrar em contacto com ele, visto que tinha entregue o seu cartão de visita ao colega. No entanto, sabia que era pouco provável.

E foi então que, no final de 1986, Alfredo conseguiu um exemplar da revista de Paula. Folheou as páginas e lá estava: o artigo sobre o cruzeiro pelos fiordes chilenos, com as fotografias e o nome de Paula.

Alfredo examinou a contracapa da revista à procura de uma morada de contacto e encontrou uma, referente a um edifício em Santiago.

"OK, vou escrever-lhe uma carta", decidiu Alfredo.

Ao começar a escrever os seus pensamentos, Alfredo sentiu-se, inicialmente, um pouco "idiota".

Era um passo delicado, pôr os seus sentimentos no papel.

“Mas escrevi-lhe e disse: ‘Olha, sou a pessoa que esteve em Melinka, naquela ilha. Aconteceu algo especial.’”

“Já não me lembro exatamente das palavras que usei… Mas disse: ‘Gostava muito de ter a oportunidade de te reencontrar e de me apresentar como deve ser.’”

Entretanto, a centenas de quilómetros de distância, em Santiago, Paula também passara os últimos meses a sonhar com o momento que vivera com o desconhecido na ilha, questionando-se se teria sido a única a sentir aquilo.

E, um dia no escritório, um colega comentou com Paula que estava a planear passar algum tempo na Ilha de Chiloé.

O colega disse que o pai tinha um amigo cujo filho, na casa dos vinte anos, vivia lá e trabalhava em Melinka. Este jovem, natural de Santiago, mas agora residente na ilha, ia ajudar um conterrâneo a adaptar-se à vida insular.

Havia algo na descrição que fez Paula lembrar-se do rapaz com quem trocara olhares silenciosos, mas carregados de significado, em Melinka. E depois veio a confirmação: “Chama-se Alfredo”, disse o colega.

Nos meses anteriores, Paula pensara várias vezes se deveria ou não contactar Alfredo. Sabia que o colega tinha o seu cartão de visita, mas nunca soubera ao certo o que lhe diria.

Mas esta possível ligação foi o empurrão de que precisava.

“Então fui ter com o meu colega”, recorda. “E disse-lhe: ‘Dá-me aquele cartão que o rapaz de Melinka te deu’, e era o mesmo nome.”

Parecia coincidência, destino, sorte… Paula não sabia bem o quê. Mas sentiu-se inspirada a pegar na caneta e escrever.

“Escrevi-lhe uma carta e enviei-lha, juntamente com a revista”, conta Paula.

Ela enviou o envelope para Alfredo mais ou menos na mesma altura em que ele colocou a sua carta no correio, dirigida a ela.

“E, por ironia do destino, as cartas cruzaram-se no correio”, conta Alfredo.

Quando recebeu o envelope de Paula, Alfredo pensou que era uma resposta à sua carta.

“Nem me passou pela cabeça que as cartas se tivessem cruzado”, diz. “Só pensei: ‘Uau, acho que tenho de lhe telefonar, e tenho de o fazer depressa.’”

Paula tinha incluído o número do telefone do escritório na carta, e por isso Alfredo ligou-lhe de imediato.

As primeiras palavras trocadas entre Paula e Alfredo — depois de toda aquela preparação romântica — foram um pouco constrangedoras.

“Eu atendi o telefone, estava numa sala enorme, cheia de jornalistas e fotógrafos”, conta Paula. “Não tinha qualquer privacidade.”

Alfredo percebeu o desconforto de Paula e chegou a questionar-se se teria interpretado mal toda a situação.

Mas, depois, ela deu-lhe o número do telefone fixo de casa e pediu-lhe para voltar a ligar nessa noite, quando já estivesse no apartamento.

Foi nessa segunda chamada que Paula e Alfredo perceberam que ambos tinham sentido o impulso de escrever um ao outro ao mesmo tempo. Que as cartas se tinham cruzado no correio. Que os dois tinham sentido a mesma ligação intensa e inegável em Melinka.

“Da próxima vez que estiver em Santiago, talvez possamos encontrar-nos?”, sugeriu Alfredo.

Paula concordou.

E algumas semanas depois, Alfredo fez a longa viagem para norte, desde Melinka.

“Foram cerca de 12 horas de carro”, lembra.

Quando Paula e Alfredo se reencontraram, foi tudo aquilo que esperavam — e ainda mais.

“A ligação era inegável”, conta Alfredo.

“Eu tinha a certeza de que queria estar com ele”, diz Paula.

Os dois começaram a namorar e, a partir daí, nunca houve qualquer dúvida para nenhum deles — mesmo enfrentando a distância.

“Foi tudo muito honesto, sem jogos, e muito fácil”, diz Paula.

“Era uma comunicação profunda, de coração para coração”, concorda Alfredo.

Casamento e lua-de-mel prolongada

Alfredo e Paula casaram-se três meses depois de se reencontrarem em Santiago. Nos anos que se seguiram, viveram uma espécie de lua-de-mel prolongada, segundo Paula. Cortesia de Alfredo Ovalle e Paula Susarte

Três meses depois de se reencontrarem em Santiago, Paula e Alfredo casaram-se.

“Todos me diziam: ‘Não estás a ir rápido demais? Três meses depois de a conheceres? Estás louco?’”, recorda Alfredo.

Alfredo explicou aos seus familiares confusos que a ligação com Paula não era uma paixão repentina. Não era sequer "amor à primeira vista". Era algo mais profundo, como duas almas que se encontram novamente, depois de muitas vidas..."

O casamento de Alfredo e Paula teve lugar na vila de Chonchi, na Ilha de Chiloé, num pequeno Bed and Breakfast.

“Foi muito bonito”, conta Alfredo. “Foi ao ar livre e era possível ver os fiordes.”

Paula descreve os anos seguintes como uma espécie de lua-de-mel prolongada.

"Durante dois, três anos estivemos juntos na ilha e foi uma experiência mágica", recorda. "Não há muitas pessoas a viver lá, e podíamos estar sempre juntos. Foi perfeito."

O trabalho acabou por afastar o casal das ilhas do sul do Chile — primeiro para a Colúmbia Britânica, no Canadá, e depois para a cidade de Puerto Varas, ao norte de Santiago, no Chile.

Por esta altura, o casal deu as boas-vindas às suas duas filhas: Josefa, em 1992, e Luz, em 1996.

“Foi maravilhoso ter estas meninas por perto”, diz Paula.

Quando Josefa e Luz ainda eram pequenas, o trabalho de Alfredo levou a família para os Estados Unidos. Estabeleceram-se na Geórgia, onde Paula fez uma pausa na fotografia para se dedicar às filhas.

Mais tarde, quando iniciaram o ensino secundário, Paula voltou a explorar a sua paixão, e hoje trabalha como fotógrafa e designer de interiores.

O casal continua a viver na Geórgia. Nunca levaram as filhas a Melinka, mas está na sua lista de desejos. O sonho, diz Alfredo, seria fazer o mesmo percurso de cruzeiro que Paula fez, agora em família: “Para dizer, ‘Olhem, este é o lugar onde tudo começou.’”

A primeira vez que a filha Luz ouviu a história completa dos pais, lembra-se de ter pensado: “Como é que isto não é um filme?”

Ela conta à CNN Travel que o incrível romance dos seus pais estabeleceu "altos padrões" para a sua própria vida amorosa. E sempre que a mãe lhe aconselhava a ser mais cautelosa ou a levar um relacionamento com mais calma, Luz levantava o sobrolho e respondia: "Não tens moral para falar, casaste-te em três meses."

Hoje, Luz está casada, e a sua irmã Josefa também é feliz, casada e mãe de uma filha pequena. Paula e Alfredo desfrutam da alegria de serem avós.

Alfredo diz que têm sorte por estarem “rodeados pelo amor” da sua família.

"Guiados pelas marés do destino"

Alfredo e Paula continuam juntos e felizes, quase 40 anos depois. Cortesia de Alfredo Ovalle e Paula Susarte

Quase 40 anos depois daquele momento em Melinka, Alfredo e Paula continuam a recordar com ternura o seu primeiro encontro — silencioso, mas especial. Alfredo sente que ele e Paula foram “guiados pelas marés do destino”.

Mas, como conta Alfredo, a sua história de amor foi realmente “selada por uma carta” — ou, mais precisamente, por duas. Tanto ele como Paula sentem-se gratos por terem tido a coragem de dar o passo seguinte após aquele primeiro encontro, para descobrir onde essa ligação os poderia levar.

“Estou muito feliz por não termos deixado escapar aquele momento”, diz Paula. “Sabíamos que algo especial e único tinha acontecido — e decidimos abraçar esse sentimento, juntos.”

“Eu sabia que queria, realmente, passar o resto da minha vida com ela”, garante Alfredo.

“O nosso romance continua a ser um testemunho da magia dos encontros inesperados,” acrescenta.

“Porque, às vezes, o amor encontra-nos nos lugares mais extraordinários.”

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