A história por detrás do hino nacional como ele nunca tinha sido ouvido

24 mai, 10:30

O relvado do Jamor recebeu 219 músicos, de sete estilos tradicionais diferentes, para um momento de uma beleza sublime: A Portuguesa interpretada a partir da cultura popular de várias regiões do país. O Maisfutebol foi perceber como tudo aconteceu.

Foi um dos momentos mais altos da final da Taça de Portugal: a interpretação do hino deixou o nosso sentimento patriótico com pele de galinha. A partir do relvado do Jamor, mais de duas centenas de músicos trouxeram para a televisão o que Portugal tem de mais puro e genuíno.

Foi um momento de arrepiar e que o Maisfutebol foi tentar entender melhor.

Antes de mais importa dizer que estiveram no Jamor 219 músicos, de sete estilos tradicionais diferentes e vindos de praticamente todos os cantos do país.

Havia 31 músicos do Coral Alentejano Cantares de Évora, havia 54 pessoas do Grupo Cantar a Vozes, em representação das vozes polifónicas da Beira Alta, havia 53 jovens do Grupo de Percussões Porbatuka, de Almada, havia 29 músicos do Grupo Cavaquinhos do Louriçal, de Pombal, 25 senhoras do grupo Fio à Meada, em representação das adufeiras da Beira Baixa, 24 gaiteiros e três violas portuguesas: uma Braguesa, outra Campaniça e outra Beiroa.

Juntar toda esta gente num momento musical com a solenidade do hino não deve ter sido fácil e Nuno Moura, diretor de marketing da Federação, explicou como foi feito.

«Não foi fácil, não foi fácil. Nós deslocámo-nos às diferentes regiões para falar com as pessoas e, antes de mais, partilhar com elas a nossa ambição e o conceito que queríamos implementar. A ideia foi muito bem recebida, todos eles mostraram extrema recetividade», contou.

«Tivemos que trabalhar muito à distância, ir partilhando áudios com os diferentes grupos para se chegar a um consenso e criar algo que funcionasse bem. Estávamos a costurar estilos diferentes, vozes diferentes, instrumentos diferentes e era necessário criar algo harmonioso.»

Ora para conseguir criar aquele momento tão português o departamento de marketing teve de se desdobrar em contactos, viagens e reuniões virtuais.

«Confesso que houve um momento de dúvida, em que começámos a pensar como seria que podíamos encaixar toda esta representatividade musical e fazer funcionar músicos tão diferentes. Houve ali um momento no início em que não estávamos a encontrar logo a fórmula certa, parecia que podia não haver compatibilidade das sonoridades», revela.

«Nessa altura fiquei um pouquinho nervoso. Houve alguma tensão, alguma ansiedade, mas no final casou bem e ficou incrivelmente harmonioso.»

Ora boa parte do segredo para o sucesso, adianta Nuno Moura, esteve no apoio de Vasco Ribeiro Casais.

«É uma pessoa que trabalha muito tudo aquilo que é a cultura e a música popular portuguesa. É uma pessoa apaixonada por isto, estudiosa e que implementa muitos conteúdos deste género. Por acompanharmos o trabalho dele, desafiámo-lo a participar no projeto, porque tínhamos a ideia, mas depois não teríamos capacidade nem tempo para a implementar se não fosse com preciosa dele. O Vasco Ribeiro Casais é intérprete e compositor com 17 anos de experiência na música popular e a ajuda dele é que permitiu materializar esta nossa ideia.»

Ora por falar em ideia, interessava saber como é que ela nasceu.

Nuno Moura, um diretor de marketing que a Federação foi contratar à Nike, nos Estados Unidos, quando já era considerado um dos melhores do mundo, explica que a ideia começou a ser trabalhada há três meses. Nessa altura, foi feito um brainstorming do departamento de marketing com outros elementos da organização para encontrar um conceito para a cerimónia.

«Há aspetos que têm de estar sempre presentes: a portugalidade, a cultura nacional e a democratização do futebol. Queremos transmitir o melhor que nós temos no nosso país, na nossa cultura, na nossa sociedade e no nosso desporto, em particular no futebol. Fizemos essa reunião de kick-off, começámos a bater umas ideias e chegámos rapidamente a um consenso.»

Depois de encontrado um tema, é necessário começar a explorar o pormenor. É nessa altura que vão surgindo alguns complementos que acabam por ser adicionados à ideia original.

«O hino só em si acabou por ser quase um projeto, tivemos que montar uma fórmula de implementação desta ideia tão ambiciosa. Acabou por ser um grande projeto, aliás, porque teve que haver uma fase de investigação, uma fase de estudo para compreender quais são os diferentes estilos de música tradicional portuguesa e quem são os grupos que os representam melhor. Por isso foram necessárias várias reuniões, várias viagens e depois vários ensaios.»

Por falar em ensaios, interessa também dizer que os 219 músicos só estiveram juntos fisicamente pela primeira vez no sábado, véspera da final. Em dois dias, aliás, fizeram vários ensaios.

«Foram muitas horas de ensaio, algumas no tapete do Jamor, outras nos campos das imediações, porque havia compromissos agendados para o Estádio Nacional.»

Apesar de haver já uma versão do hino gravada previamente, que acaba por ser a que se ouve no sistema sonoro, era preciso garantir que esteticamente tudo corria também na perfeição.

Isto porque os músicos não se limitaram a cantar e tocar: no relvado do Jamor desenharam o símbolo da paz, pintado com as cores nacionais.

«No contexto mundial atual sentimos que era um momento bom para unirmos e potenciarmos aquilo que é força social e a projeção mediática do futebol, incluindo também aqui a música e a cultura portuguesa», revela Nuno Moura.

«A mensagem mais importante que queríamos partilhar era essa promoção das ideias de paz e harmonia entre todos os povos, e nessa mensagem de paz e harmonia juntar o mundo do futebol e o mundo da música portuguesa. Por isso tivemos, para além dos músicos, os 140 clubes que participaram na Taça de Portugal representados no relvado através de 140 crianças, cada uma vestida com a camisola de cada um dos participantes na prova. Foi uma mensagem de paz em que todos os clubes se juntaram e a uma voz e gritaram esta ideia de paz.»

Pode parecer uma coisa simples, mas o diretor de marketing garante que deu mais trabalho do que podiam imaginar no início de tudo.

«Parece fácil, mas não foi fácil. Conseguirmos as camisolas de todos os 140 clubes, por exemplo, deu-nos muito trabalho e exigiu muitas horas ao telefone. Nós queríamos que toda a gente estivesse representada, os clubes também queriam estar, mas houve alguns da base da pirâmide em que passámos por algumas peripécias até conseguirmos chegar às camisolas.»

Como era uma mensagem de paz que a Federação queria transmitir, a cerimónia acabou com outro detalhe: duas crianças ucranianas entregaram a bola de jogo e uma braçadeira aos capitães

«São refugiados que fugiram da guerra, que chegaram ao nosso país recentemente e que estão a jogar no Grupo Desportivo Alcochetense. A menina tem 8 anos e o menino 14, são apaixonados por futebol e quisemos dar-lhes uma experiência que trouxesse algum conforto e alegria. Mais uma vez, todos unidos em prol desta mensagem que de harmonia e de paz.»

No entanto, e para quem viu de fora, nada bateu aquela interpretação do hino: um momento muito humilde, mas muito bonito. Que vai buscar a emoção do que há de mais autêntico e original na cultura popular portuguesa.

«Houve representação da cultura de todo do país, para de uma forma síncrona e uníssona fazerem a entrega de um hino de Portugal como nunca se tinha visto. Não me lembro de alguma vez se ter feito uma coisa neste formato. Nós pusemos muito amor e carinho na construção daquela cerimónia e ficamos muito contentes, porque nos emocionou a todos.»

 

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