Jack Lisowski ganhou o Open da Irlanda do Norte em snooker e acabou com espera de 15 anos como profissional para vencer um título de ranking. Fê-lo contra Judd Trump, que ficou mais feliz por ter perdido do que se tivesse ganho. Lidou com cancro aos 16 anos e atingiu o melhor momento da carreira sete meses depois da perda familiar
Mal garantiu a vitória no Open da Irlanda do Norte, no domingo, Jack Lisowski levou as mãos à boca e não conteve as emoções. Acabou em lágrimas. Sem saber bem o que fazer. Como reagir. E, por fim, abraçado por algum tempo a Judd Trump, número um mundial, seu adversário na final e o «melhor amigo» de mais de 20 anos que o snooker lhe deu.
Em Belfast, Lisowski ganhou o primeiro título de ranking. Pôs fim a 15 anos de espera como profissional no snooker sem qualquer conquista. Acabou com a maldição de seis finais perdidas, entre 2018 e 2021. Três delas contra Trump, além de duas contra Neil Robertson e uma com o quatro vezes campeão do mundo Mark Selby… um dos que derrotou em Belfast no caminho para o título. Outro foi Kyren Wilson, campeão mundial em 2024 que defendia o título no Open. Já não é mais considerado o melhor jogador do circuito sem qualquer troféu.
Depois de ter superado, ainda jovem, um linfoma de Hodgkin, o inglês encontrou, aos 34 anos, o ponto mais alto da carreira, cerca de sete meses depois de outro duro momento na vida: a perda do pai, em março. Estava em Hong Kong a disputar o World Grand Prix. Ia defrontar precisamente… Judd Trump, na segunda ronda. Retirou-se face à situação familiar.
«Sinto-me como se estivesse a sonhar. Penso neste momento desde os meus seis ou sete anos de idade e provavelmente demorou mais tempo do que eu gostaria, mas a sensação… sei lá, parece que estou a sonhar». Estas foram as primeiras palavras de Lisowski, no lotado Waterfront Hall, perante uma plateia comovida. E ao lado de um Judd Trump mais feliz pelo êxito do amigo… do que se ele próprio tivesse ganho. O que se seguiu foi um momento imenso.
«O Judd e eu somos amigos desde os meus 14 anos e ele estava lá há oito meses em Hong Kong quando recebi a mensagem sobre o meu pai. Tem sido o melhor amigo que eu podia pedir nos últimos oito meses. Ele é um dos melhores jogadores de snooker de todos os tempos, mas o melhor amigo que que eu poderia desejar. És a coisa mais próxima que eu posso ter de um irmão e eu amo-te».
Depois desta forte declaração, Lisowski pausou a entrevista e voltou a abraçar Trump, debaixo de uma ovação.
«Tenho as meias do meu pai. Se está a ver-me, é para ele…»
Lisowski, cujo nome tem ascendência ucraniana – o avô fugiu da I Guerra Mundial e estabeleceu-se em Inglaterra – contou que, quando o pai morreu, «disse a alguém que ele nunca o tinha visto a ganhar um título».
Mas disseram-lhe de volta que ainda podia fazê-lo, mesmo com a ausência física. E o pai esteve bem presente em Belfast. Na sua pele. Na dedicatória final. Na entrevista após o título, Lisowski revelou. «Eu tenho calçadas as meias do meu pai hoje. Isto é para ele, se ele está a ver-me, e para a minha mãe, por tudo o que fez por mim», disse.
A felicidade não era só do próprio, como de Trump, num duelo que terminou com 9-8 a favor de Lisowski após um 17.º frame decisivo e dramático, com algumas falhas de parte a parte.
«Estou tão feliz pelo Jack… eu nunca dou como garantido vencer numa final, mas provavelmente estou mais feliz do que se tivesse ganho. Dei tudo, mas o Jack mereceu a vitória e não há pessoa mais feliz por ele do que eu. O primeiro título é especial, considerando o que ele passou na vida. Tem uma família incrível à sua volta e estou feliz por ser um amigo».
Do cancro aos 16 anos ao apoio à Teenager Cancer Trust
Aos 16 anos, pouco depois de deixar a escola e antes de fazer carreira no snooker, Lisowski foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin, um tipo de cancro com origem no sistema linfático. Durante um ano, a sua vida ficou em suspenso. Fez quimioterapia durante oito meses.
«Era como uma bola de ténis no meio do meu peito. Um caroço enorme. Fiz uma biópsia e depois retiraram um linfonodo do meu pescoço. A contagem de glóbulos brancos no meu sangue estava fora da escala, o que normalmente indica um cancro em estágio quatro. Fiquei assim sete dias, a pensar que era o mais grave. Depois, encontrei-me com o meu médico em Cheltenham e ele disse-me: “Eu vou curar-te”. A partir daí, eu tive essa mentalidade. Precisava de encontrar forma de superar. A quimioterapia foi a pior coisa do mundo. A cada duas semanas, tive de ir e, durante oito meses, simplesmente destruiu-me. Levou um ano até sentir-me forte de novo», contou, em 2021, numa entrevista ao Metro.
Lisowski também não escondeu que, apesar do escândalo de doping, o ex-ciclista Lance Armstrong – que também teve cancro nos anos 90 – foi uma inspiração para si. Sobretudo no superar de dificuldades na doença. «Li o livro de Armstrong e lembro-me que tinha algumas palavras para as pessoas que passavam por isso. Podem criticá-lo agora, mas continuou a inspirar-me. Senti que ele estava a falar comigo e isso deu-me motivação para lutar», contou.
Em 2013, assinalando os cinco anos de remissão do cancro, Lisowski associou-se à Teenage Cancer Trust, instituição de caridade britânica que proporciona cuidados especializados e apoio a jovens com cancro, entre os 13 e os 24 anos. Apoia-a desde então.
A derrota que o levou o fundo e o treinador que foi… «Jackpot»
Lisowski reconhece que a doença em jovem o foi moldando como pessoa e jogador. Um estilo atacante, por vezes com alguma despreocupação e menor rigor defensivo. Sem que o jogo seja uma questão de vida ou de morte. Algo com que lidou realmente.
Exemplo disso foi uma autocrítica feita em 2023. «Creio que travesso é a palavra certa. Às vezes acho difícil dedicar-me com consistência a toda a hora». A recente morte do pai também teve peso… até ao sucesso. Depois de alguns jogos ainda com o peso emocional e de uma derrota inesperada contra o pouco conhecido chinês Xu Yichen numa eliminatória, em setembro, o inglês sentiu o seu jogo num ponto sem retorno. E recorreu ao reconhecido treinador Chris Henry. Aquele com quem, além da namorada Isabella (a vê-lo ao vivo pela primeira vez) e o tio Gary, festejou o título em Belfast com Lisowski. Um abraço coletivo sentido.
«Às vezes parece que é preciso bater no fundo para mudar. Se não tivesse perdido aquela eliminatória, penso que não teria ido a Bruges ter com o Chris Henry. Pensei que algo tinha de mudar e sei que o Chris é um ótimo treinador. Mas nem nos meus sonhos mais loucos imaginava que, em seis semanas, iria talvez do momento mais difícil na carreira ao mais mágico», afirmou.
É caso para utilizar a alcunha pela qual é conhecido: «Jackpot».
Um título pelo pai. Pelo início de algo maior no snooker para o n.º 24 do mundo, que em Belfast arrecadou um prémio de 100 mil libras (cerca de 113 mil euros).
«Espero que seja o início da minha carreira. Completei a minha aprendizagem e agora estou aqui. Quero ganhar sempre e acredito sempre. Mas, desde que o meu pai faleceu, sinto que se tornou mais sério. Antes era como que um jogo, uma diversão. Agora sinto que tenho de ganhar por ele».
