Quando irá acabar a covid-19? Eis o que aconteceu com outras pandemias

Alexandra Mae Jones, CTV Network
22 jan, 14:00
Uma imagem que ficou da pandemia de 1918 nos Estados Unidos: trabalhadoras da Cruz Vermelha com máscaras, preparadas para ir buscar os doentes. Foto: Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images

Com os casos a dispararem e muitos a correrem para agendar a terceira dose, há uma pergunta mais premente que nunca, no início de 2022: quando irá acabar a covid-19?

A trajetória das pandemias - um termo que se refere à epidemia de uma doença infecciosa que se espalhou por uma grande região, normalmente, a nível global – varia muito, dependendo do tipo de doença, o período de tempo, as políticas e a qualidade dos cuidados de saúde disponíveis. E, às vezes, consideramos que uma pandemia acabou muito antes de deixar de ser um problema mundial.

Olhar para algumas das pandemias ou epidemias passadas pode dar-nos uma ideia de como a covid-19 poderá acabar, em termos epidemiológicos e sociais.

1918. Pandemia da gripe espanhola

Na  primavera de 1918, a primeira vaga de uma gripe mortal começou a espalhar-se. Pensa-se que cerca de 500 milhões de pessoas – à data, um terço da população global – terão contraído o vírus durante esta pandemia da gripe espanhola ou pneumónica.

Um dos primeiros casos foi documentado em março de 1918 no Kansas, EUA. Embora no início a gripe parecesse pouco grave, rapidamente se tornou devastadora.

As pessoas desmaiavam na rua. Cidades inteiras recolhidas em casa, deixando as ruas vazias. Uma escola na Pensilvânia começou a receber os mortos, porque as funerárias estavam sobrecarregadas.

Tal como a covid-19, a doença veio em vagas, o que fazia as pessoas pensarem que tinham derrotado o vírus e depois eram atingidas por outra vaga. Houve cerca de quatro vagas entre 1918 e 1920, e a segunda vaga, no outono de 1918, provocou a maior parte das mortes.

Sem vacinas ou tratamentos, as pessoas tentaram seguir medidas de saúde públicas que nos são familiares: usar máscara, desincentivar os ajuntamentos e tentar fazer os negócios ao ar livre.

Sessão de tribunal realizada ao ar livre para evitar a propagação da gripe. São Francisco, 1918. Foto: Hulton Archive/Getty Images

Então, como é que acabou?

Não temos uma noção clara de como a pneumónica de 1918 acabou, epidemiologicamente. Alexandre White, historiador e professor assistente de Sociologia e de História da Medicina na Escola de Medicina John Hopkins, disse à CTVNews.ca numa entrevista ao telefone.

“A hipótese é, geralmente, a gripe ter ficado menos grave ou, em última análise, ter afetado tantas pessoas que já não havia populações para afetar, a uma escala tal que deixou de ser uma pandemia.”

Essencialmente, ou o vírus enfraqueceu ou atingiu toda a população.

Naomi Rogers, professora de História da Medicina na Universidade de Yale, diz simplesmente: “Não havia mais pessoas,” disse à CTVNews.ca.

E isso significava que a taxa de mortalidade era enorme antes do vírus se ter dissipado. Cerca de 50 milhões de pessoas morreram em todo o mundo, 50 mil no Canadá.

Também em 1918 o uso de máscaras tornou-se parte do dia a dia. Foto: Bettmann/Getty Images

White alerta que, embora a gripe de 1918 possa ter acabado porque o vírus se tornou mais fraco ou por se ter criado uma imunidade de grupo depois de muitas pessoas a ele terem estado expostas, esta hipótese está longe de ser uma conclusão garantida para a covid-19.

“Principalmente, por continuarem a surgir novas variantes, e com a possibilidade de a infeção escapar à imunidade que a vacinação confere”, acrescentou.

Mas há outro aspeto que levou ao fim desta pandemia, relacionado com a cultura coletiva.

“Podíamos dizer que a pandemia não acabou apenas com o fim da terceira ou da quarta vaga, mas também porque o público e os políticos fizeram um esforço ativo para a esquecer”, diz Rogers.

E acrescenta que, enquanto há inúmeros monumentos de homenagem às pessoas que morreram na Primeira Grande Guerra, “não há monumentos de homenagem aos milhões de pessoas que morreram durante a pandemia e penso que não é uma coincidência.”

“Em 1920, os EUA elegeram um presidente que apelava à normalidade. E a ideia era deixar tudo aquilo para trás.”

Pode parecer impossível esquecer a covid-19. Mas isto vem realçar como, no esforço para chegar ao fim de uma pandemia, às vezes não aprendemos nada com ela.

“A noção popular sobre a História é que retiramos lições dela”, disse à CTVNews.ca Christopher Rutty, um historiador médico profissional e professor adjunto na Universidade de Toronto, numa entrevista ao telefone. “Mas uma das grandes lições é que não retiramos lições da História.”

Varíola

A varíola detém a distinção de ser a única doença infecciosa que erradicámos completamente com a vacinação – um feito que foi alcançado quase 200 anos após a descoberta de uma vacina.

“Penso que é um exemplo da erradicação de uma doença que causa uma pandemia”, disse White.

Quem tinha varíola apresentava bolhas vermelhas em todo o corpo, bem como lesões à volta do nariz e na boca, e sintomas semelhantes aos da gripe. Erupções cutâneas encontradas em múmias egípcias sugerem que o vírus já existia há cerca de três mil anos.

Cerca de três em cada dez pessoas que apanhavam varíola morriam e, ao longo dos anos, provocou muitas epidemias e pandemias.

A primeira vacina contra a varíola foi inventada no final do século XVIII e pouco tempo depois todas as pessoas a aceitaram. Quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou uma campanha de vacinação ambiciosa na década de 1960, a varíola já tinha sido erradicada na América do Norte e na Europa, mas ainda havia surtos na América do Sul, Ásia e África.

Existe a sensação de que o anúncio de uma vacina significa o fim de uma pandemia – mas não é isso que a História nos mostra, como salienta Rogers. Ele notou que demorou mais de uma década para a doença desaparecer, depois de se introduzir a vacina contra a poliomielite nos EUA.

“As doenças não acabam com o anúncio de uma vacina eficaz, e talvez tenhamos aprendido isso da pior maneira com a covid.”

Um surto de varíola na cidade de Middleboro, nos Estados Unidos, levou a uma campanha de vacinação de todos os residentes em Abril de 1929. Foto: Bettmann/Getty Images

Então, podemos erradicar a covid-19 através da vacinação?

Conseguimos erradicar a varíola porque se tratava de um vírus unicamente humano. Ou seja, só se transmitia entre humanos e não entre animais, como muitos vírus de gripes. Pensa-se que a covid-19 terá tido origem num animal antes de passar para os humanos e os vírus com um vetor animal podem sempre ressurgir como um novo agente patogénico humano”, explicou White.

As pessoas que tinham varíola também tinham nítidos sintomas dermatológicos que os identificavam, e o mesmo não se verifica na maior parte das doenças respiratórias.

“Nunca erradicámos uma doença respiratória”, disse Rogers.

Isto não significa que as vacinas não sejam uma ferramenta importante para proteger as populações. As vacinas contra a covid mostraram ser eficazes na prevenção de hospitalizações e mortes. Mas com um vírus tão adaptável como o da covid-19, esta não pode ser a única ferramenta.

“Há muitas doenças que erradicámos e contra as quais não havia uma vacina, mas houve uma mudança estrutural, como o caso da tuberculose e da febre tifoide, por exemplo”, disse Rogers.

Para a covid-19, as mudanças estruturais que os peritos sugeriram incluem edifícios com filtros de ar de alta qualidade, reforma do sistema de saúde a longo prazo para proteger melhor as populações de risco ou implementação de testes mais orientados, mesmo quando os casos são poucos, para encontrar novos focos.

“Espero que, de certa forma, o foco na vacina não nos afaste das outras formas que temos para ajudar a deixar as pessoas menos vulneráveis”, disse Rogers.

VIH/sida

Embora epidemiologicamente o vírus seja diferente do da covid-19, a crise da sida veio realçar as desigualdades na sociedade e teve um enorme impacto no comportamento social e na cultura, quando varreu os EUA e o mundo, na década de 1980, à semelhança da covid-19.

O VIH é um vírus que ataca o sistema imunitário e que se transmite através do contacto direto com certos fluidos corporais como o sangue ou o sémen de uma pessoa com VIH com uma carga viral detetável.

Se não for tratado, o VIH pode levar à sida, um estado avançado de infeção que pode levar à morte após três anos sem tratamento.

Cerca de 36,3 milhões de pessoas morreram de VIH, de acordo com a OMS.

“Penso que a sida é uma analogia à covid muito importante e poderosa”, disse Rogers. “É muito interessante pensar no tipo de lições que não aprendemos com essa pandemia.”

White acrescentou que um “tema frustrante, mas recorrente na História das pandemias e epidemias” é a forma como os governos e a sociedade como um todo muitas vezes ignoram a ameaça da doença infecciosa, se as populações afetadas forem vistas como não sendo “satisfatoriamente relevantes que requeiram grandes respostas.”

No início da crise da sida, a questão era encarada como um problema que afetava apenas os gays, um grupo que as autoridades ignoravam tranquilamente.

“Foram negados recursos significativos”, disse White. “O desenvolvimento da investigação era lento e milhares de pessoas perderam a vida em consequência da falta de uma resposta pública coordenada.”

O estigma à volta da sida também permitiu que a doença se transmitisse mais do que teria transmitido, se a resposta tivesse sido rápida. Foi preciso haver organizações e uma investigação orientada pela comunidade para adquirir um conhecimento da doença e pressionar os governos a agir.

No início da crise da sida, a doença era encarada com um problema que apenas afetava os gays, e por isso era desvalorizada. Na imagem, uma marcha realizado a 15 de janeiro de 1984 apela à intervenção das autoridades. Foto de Steve Ringman/San Francisco Chronicle via Getty Images

Então, quando e como é que acabou?

Não acabou. Ainda não há uma cura para a sida nem uma vacina, embora algumas estejam a ser testadas. Cerca de 1,5 milhões de pessoas contraíram o VIH em 2020, segundo a OMS, e 680 mil pessoas morreram de causas relacionadas com o VIH.

No entanto, na América do Norte, o acesso generalizado a tratamentos fiáveis permitem que uma pessoa com o VIH tenha uma vida plena, sem medo de morrer de sida ou de transmitir o vírus. Estes medicamentos antirretrovirais impedem que o vírus se reproduza dentro do corpo.

O novo medicamento antiviral da Pfizer para tratar a covid-19 é no fundo um inibidor da protease, um tipo de medicamento antirretroviral que foi desenvolvido para tratar o VIH.

No entanto, nem toda a gente tem fácil acesso a este medicamento.

“Agora, a sida é considerada uma doença infecciosa que reflete os recursos do país”, disse Rogers.

White realçou que muitas vezes consideramos que uma pandemia acabou quando a ameaça diminui nos países mais ricos ou do mundo ocidental.

E disse que o VIH é um excelente exemplo.

“Assim que surgem terapias antirretrovirais eficazes e se facilita o seu acesso, temos tendência para perder o interesse ou considerar que a ameaça pandémica desapareceu, quando na verdade os danos provocados pela doença continuam a persistir em força e com gravidade em lugares que não têm apoio nem acesso a cuidados de saúde”, disse.

“Vimos essa perspetiva aumentar em relação à covid-19, sobretudo nos últimos meses, quando o acesso à vacina foi amplamente alcançado nos países ricos, para depois, nas últimas semanas, reconhecer que, sem uma vacinação eficaz em todo o mundo, vão continuar a surgir variantes graves e preocupantes em todo o mundo, em sítios sem uma cobertura vacinal.”

No outono, enquanto os canadianos voltavam a muitas das atividades regulares graças à alta taxa de vacinação, peritos avisaram que a desigualdade na vacinação global podia levar ao desenvolvimento de novas variantes em regiões com menor acesso a vacinas.

E depois veio a Ómicron.

“Se a covid está a alastrar-se em várias partes do mundo, é difícil uma pessoa isolar-se”, disse Rutty. “O que estamos a assistir com a Omicron é um exemplo clássico.”

Então, o que pode acontecer à covid-19?

Poderá vir a esgotar-se na população humana e depois enfraquecer o suficiente a ponto de deixar de ser uma ameaça ao nível de uma pandemia? Poderá tornar-se uma questão sazonal superada pela vacinação anual? Será que os países ricos vão conquistar a covid-19 nas suas regiões através da vacinação ou novos tratamentos e depois vão considerar que a pandemia terminou, enquanto ressurge durante anos nos países subdesenvolvidos?

Rutty explicou que nunca há uma resposta simples, quando tentamos aplicar as lições da História sobre as pandemias a um vírus atual ou futuro.

“Raramente há um acordo de paz com um vírus, como há no final de uma guerra”, disse.

“Não se trata apenas de uma questão epidemiológica, da tecnologia das vacinas ou da ciência. É também uma questão de política e de comportamento humano, e todas estas coisas não científicas estão a ter um grande impacto na trajetória da pandemia.”

Um dos cenários mais prováveis, prevê Rogers, seria mais próximo da pandemia de 1918, em que a covid-19 se tornaria sazonal e menos grave.

“Eu diria que vai tornar-se muito mais como a gripe, vai tornar-se endémica e depois haverá alturas específicas do ano em que será mais provável assistirmos a um surto.”

Em relação à noção cultural do fim de uma pandemia, ela acrescenta que podemos assistir a um cenário semelhante ao da SIDA, “em que podemos considerar que acabou, mas não globalmente.”

Mas ao contrário de 1918, em que tudo o que as pessoas podiam fazer era esperar que a gripe evoluísse até se tornar menos grave, agora sabemos como este vírus funciona e se transmite. Temos vacinas e outros tratamentos que já existem ou que estão a ser produzidos para combater a covid-19 e assim evitar uma taxa de mortalidade muito alta.

“Eu ficaria insatisfeito, profundamente insatisfeito, se a nossa aceitação da covid-19 nos obrigasse a aceitar um mundo em que centenas de milhares ou milhões de pessoas continuam expostas ou em risco de contrair uma doença grave e morrerem”, disse White.

“Se não pusermos estes esforços em prática e aplicarmos práticas eficazes que sabemos que salvam vidas, então devemos olhar-nos bem ao espelho e pensar no tipo de sociedades que estamos a deixar aos nossos filhos.”

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