Superou tumor cerebral e até fez o Barcelona esquecer um troféu

25 jan, 09:32

A história de Virginia Torrecilla que comoveu o mundo

As imagens deram a volta ao mundo e é impossível não deixarem um nó de emoção na garganta.

Jogadoras da equipa feminina de futebol do Barcelona, instantes após conquistarem a Supertaça de Espanha, esquecem o troféu, e os festejos pela conquista, para celebrar a vida.

Celebrar a vida de alguém com uma camisola diferente da delas. A defender outro clube. Uma vida que esteve quase dois anos em suspenso e que regressou aos relvados na partida que garantiu mais um troféu para o Museu do Barça.

Virginia Torrecilla, internacional espanhola do At. Madrid, voltou aos relvados no domingo, quase dois anos depois de lhe ter sido detetado um tumor cerebral. E ninguém ficou indiferente. Porque toda a gente adora «a pessoa mais positiva do mundo», como a descreve ao Maisfutebol Laura Casanovas, futebolista do Sp. Braga, e amiga pessoal de Vírginia.

Com talento inato para o futebol, Torrecilla tornou-se profissional aos 14 anos, mas viu-se forçada a parar em maio de 2020, aos 25 anos, quando atravessava aquele que define como o «melhor momento da carreira».

Com o futebol parado em todo o mundo devido à covid-19, as constantes dores de cabeça e no pescoço levaram-na para um hospital de onde saiu com um diagnóstico tão inesperado como assustador.

Tumor cerebral.

A doença, contra a qual batalhou sem dar tréguas, fê-la perder quase 20 quilos. Deitou-a abaixo, mas não a derrubou. Nem por sombras.

«Ligou-me a contar e acabou a confortar-me e dizer que ia correr bem»

Laura Casanovas conhece Virginia há cinco anos, desde que partilharam balneário nas francesas do Montpellier, e confidencia que a amiga a conquistou desde logo.

«O que me cativou foi a personalidade dela. O positivismo que sempre transpareceu e a forma de estar na vida eram coisas que nunca tinha visto. É a pessoa mais positiva do mundo. Sempre de bem com a vida, a rir, brincar e a insistir com que estava à volta dela sobre a importância de desfrutar da vida. Percebi rapidamente que tinha ali uma amiga para toda a vida», revela a jogadora do Sp. Braga em conversa com o nosso jornal.

Virginia e Laura tornaram-se amigas em França

Apesar de os rumos profissionais as terem levado em direções distintas, a relação que construíram manteve-se sólida. E Casanovas não esquece o telefonema que recebeu da amiga a informar sobre a batalha que tinha pela frente.

«Ligou-me a dizer que tinha uma coisa para me contar. Como foi no início da pandemia, até pensei que me ia contar que tinha covid. Mas disse que lhe tinham encontrado um tumor no cérebro», recorda, assumindo ter ficado em choque.

«Ela disse logo que estava bem e que tinha confiança que ia correr bem e que ia sair desta. Reagiu com todo o positivismo dela e o final ainda foi ela que teve de me confortar e fazer ver que a vida continua e que tudo ia correr bem», recorda com um sorriso, quase dois anos depois.

Apesar do impacto inicial que a notícia teve na jogadora do Sp. Braga, conhecendo a força da amiga, rapidamente Laura Casanovas se convenceu que o cancro não iria mesmo levar a melhor.

«Ela é uma pessoa a quem todas as batalhas a tornam mais forte. Ela é assim. Costuma dizer-se que as batalhas mais duras são sempre para os guerreiros mais valentes e foi isso que aconteceu», orgulha-se.

Em dezembro, as amigas voltaram a reencontrar-se, em Madrid

«O futebol foi a minha salvação»

Para alguém que conta no currículo com a participação nos Mundiais de 2015 e 2019 e no Europeu de 2017, a batalha contra o tumor fez-se quase sempre com o futebol por perto. Virginia não sabe viver de outra forma.

«O futebol foi a minha salvação. Até os médicos me diziam que o desporto ajudava o meu corpo a estar melhor. Por isso continuei até não aguentar mais», assumiu em abril de 2021, numa entrevista ao El País, quando iniciava o percurso para o regresso aos relvados.

Durante os meses de tratamento, manteve sempre os treinos. Primeiro durante a radioterapia e depois, quando fez quimioterapia, manteve-se ativa durante cinco dos sete meses que duraram os tratamentos. Até não aguentar mais.

«Tive de parar. Estava muito cansada e nem o desporto me estava a fazer bem. Após dez ou doze sessões de quimioterapia a minha medula ressentiu-se e já me custava recuperar fisicamente».

O regresso aos treinos com a equipa aconteceu cerca de dez meses após a operação. Muito devagar, Virginia teve de reaprender quase tudo.

Mas a médio tinha uma missão firme na cabeça: contrariar os prognósticos dos médicos que lhe disseram que iria perder muita sensibilidade nos membros e que não seria possível voltar a jogar futebol profissionalmente.

Laura Casanovas assume que a amiga chegou a confidenciar-lhe as dificuldades que sentiu no regresso aos treinos com bola. Mas sabia que ela não desistiria.

«Depois do tratamento, ela disse-me que o que lhe estava mesmo a custar era começar tudo do zero. Mas os médicos tinham dito que ela não poderia voltar ao futebol profissional e ela tinha-se proposto a voltar a jogar. Tinha prometido isso à família e aos amigos e não lhes ia falhar», aponta.

«Voltava a passar pelo cancro para a minha mãe voltar a andar»

Sensivelmente a meio do processo, Virginia Torrecilla passou por um momento que a fez questionar o regresso ao futebol.

A futebolista e a família são naturais de Maiorca. Porém, de forma a apoiar e estar perto da filha, os pais mudaram-se para Madrid quando lhe foi detetado o tumor.

No início de junho, quando a vida de Virginia parecia estar a voltar ao normal, ao parar num cruzamento, o carro conduzido pela futebolista que seguia com a mãe ao lado foi abalroado por outra viatura. A força do impacto fez o carro da jogadora embateu no da frente e ficou encarcerado.

Virginia escapou apenas com ferimentos ligeiros, mas a mãe, além de uma ferida profunda na testa, ficou cerca de duas semanas internada nos cuidados intensivos e ficou paraplégica.

Se o cancro não a abateu, a infelicidade da mãe quase a derrotou, conforme confessou numa entrevista.

«O acidente foi muito pior que o cancro. Disse a Deus que voltava a passar pelo cancro, mas que a minha mãe voltasse a andar. Senti-me culpada porque ela veio para cá [Madrid] por minha causa», começou por dizer.

«Quando me apareceu o cancro não o pensei, mas com o acidente da minha mãe disse que não poderia voltar ao futebol. Tinha de ficar a apoiá-la. Claro que ela me disse que eu não podia fazer isso. Que tinha de mostrar ao mundo que é possível voltar depois de tudo aquilo por que passei», confessou.

Virginia com a mãe, após o acidente que deixou a progenitora paraplégica

«Ninguém se arrepende de ser corajoso»

Virginia Torrecilla é uma pessoa realmente admirada pelo mundo do futebol. Ao longo de todo o processo, foram várias as demonstrações de apoio recebidas.

Alexia Putellas, melhor jogadora do mundo e que é amiga de Torrecilla desde a adolescência, quando partilharam o balneário do Barcelona, deixou de jogar com o número 11 nas costas na seleção. Prometeu que até ao regresso da amiga, era ela que iria envergar o 14 de Torrecilla.

O número 14 que, curiosamente, Virginia ‘herdou’ da portuguesa Dolores Silva, quando esta deixou o At. Madrid para regressar ao Sp. Braga.

Mas não foi só o futebol feminino a homenagear a jogadora. Diego Costa, por exemplo, chegou a celebrar um golo com a camisola da colega de clube.

A imagem mais tocante, porém, surgiu neste domingo.

Após 1.048 dias, uma pandemia que persiste não terminar, e a remoção um tumor cerebral, Virginia Torrecilla voltou a entrar em campo para fazer aquilo que a apaixona: jogar futebol.

O momento, como já foi referido, não deixou ninguém indiferente. Mas não surpreendeu Laura Casanovas.

«As imagens do que as jogadoras do Barcelona fizeram surpreenderam muita gente e felizmente correram o mundo. Mas foi apenas mais uma prova de que aquilo que importa são as pessoas. Não não os símbolos ou as camisolas. Foi um exemplo de que o futebol vai muito mais além do que é jogado no campo e que a Humanidade vai sempre triunfar», elogia.

Mais até do que aquilo que aconteceu no final da Supertaça espanhola, a jogadora do Sp. Braga espera que seja o exemplo da amiga que seja realçado.

«Espero que o mundo veja que todos podem ser e fazer aquilo a que se propuserem. A Virginia ensinou-nos que por muito que a vida nos quebre, ninguém se arrepende de ser corajoso. Essa frase acompanhou-a ao longo desta fase e o que ela conseguiu reflete mesmo essa ideia».

Ninguém se arrepende de ser corajoso. A lição de Virginia Torrecilla.

 

Relacionados

Patrocinados