Relato impressionante de Leandro Castan, brasileiro que jogou em Itália e que, em 2014, enfrentou problema de saúde. E também o que lhe deu força: «A minha esposa disse-me que eu ia ser pai outra vez. Um sinal de Deus.»
O antigo futebolista brasileiro Leandro Castan, que fez carreira entre Brasil, Suécia e Itália, tendo estado ligado à Roma durante seis épocas, recordou a forma como soube que tinha um grave problema de saúde – um tumor cerebral – depois de ter sido substituído ao intervalo do jogo com o Empoli, a 13 de setembro de 2014, o único que disputou nessa temporada. E todo o processo até voltar a jogar e mostrar-se agradecido por viver.
«Naqueles 15 minutos, a minha carreira acabou. Uma parte de mim morreu. Durante o aquecimento, senti uma dor na coxa. No final da primeira parte, o Maicon [ndr: colega de equipa] avisou o Rudi Garcia [treinador]: “O Castan não está bem”. Fui substituído. Quando cheguei a casa, comecei a sentir-me mal. Na manhã seguinte, as coisas pioraram. Fiquei tonto. Pensei que ia morrer», afirmou, em entrevista ao Corriere della Sera.
Castan contou então que não perdeu mais tempo e foi ao hospital. «Depois de uma ressonância magnética, mandaram-me para casa. O médico do clube ficou preocupado, mas não me disse o que estava errado. Nunca pensei que passaria por algo assim. Os primeiros 15 dias foram terríveis. Eu não conseguia ficar de pé, vomitava muito e tinha perdido 20 quilos. No início, a Roma preferiu esconder tudo. Decidi isolar-me e sair das redes sociais. Mas um dia olhei para o meu telemóvel», lembrou. E foi assim que percebeu, de uma das piores formas, que podia ter a vida em risco.
«[Vi] um artigo no Twitter: “Leandro Castan tem um tumor, ele pode morrer”. O medo dominou-me. Eu ainda não sabia o que tinha. Ninguém me tinha dito nada. Nem o clube, nem os médicos. Ninguém. “Fica calmo”, repetiam. Lembrei-me então que o meu avô tinha morrido de cancro no cérebro e pensei que o destino poderia ter sido o mesmo», contou.
«No dia em que me explicaram o que tinha, a minha esposa disse-me que ia ser pai»
O internacional A brasileiro por duas ocasiões (ambas em 2012) lembrou ainda como alguns dos seus sonhos desportivos ficaram pelo caminho naquele momento. «Eu queria ganhar o campeonato pela Roma e chegar à seleção. E vi-me numa cama de hospital com um tumor na cabeça. Tive de reaprender a viver. A viver uma vida diferente e a lutar contra uma doença que estava a crescer lentamente. Fiz tudo para voltar ao meu nível. Não foi possível», recordou, dizendo também quando foi realmente informado do problema.
«Ao fim de algumas semanas disseram-me que eu tinha um cavernoma no cérebro. Quando cheguei à clínica, explicaram-me a situação: “Se levares uma pancada durante o jogo, podes ter uma hemorragia cerebral e morrer. Ou paras, ou fazes uma cirurgia”. Eles teriam de abrir a minha cabeça. Era uma operação perigosa e eu não queria fazer. Lembro-me que naquele mesmo dia, quando cheguei a casa, a minha esposa disse-me que eu ia ser pai outra vez. Um sinal de Deus», frisou Castan.
O antigo defesa recordou também o que o fez ter o clique para enfrentar a situação e como foi depois da cirurgia. «Um jogo da Roma na televisão [ndr: fez-me mudar de ideias]. Ao ver, houve algo que me tocou. Eu não queria parar. O médico sugeriu que nos encontrássemos depois das férias de Natal, mas eu não podia esperar. Uma semana depois estava na sala de cirurgia. A minha única preocupação era sobreviver para não deixar a minha esposa e meus filhos sozinhos. Assim que acordei [depois da cirurgia], comecei a chorar com a minha esposa. Os meses seguintes foram difíceis. Tive de aprender a viver. A minha vida tinha mudado, até na rotina diária. Ao início, eu tinha dificuldade para pegar num copo. Ou, se olhasse para os meus pés, não conseguia mexê-los. Mas o verdadeiro problema era o futebol», disse, lembrando como foi o regresso.
«Tenho a imagem do meu primeiro treino depois da operação. Cheguei a casa a chorar. Vou lembrar-me para sempre do momento em que os treinadores me passaram a bola. Olhei para o meu pé e para a bola. Queria pará-la, mas o meu pé ficou parado e a bola passou-me entre as pernas. Eu não tinha controlo sobre o meu corpo. Foi terrível. Eu queria ser o que era antes, não aceitava que não conseguia», prosseguiu.
Castan deixou elogios à forma como Rudi Garcia o «protegeu» e foi «como um segundo pai», mas que na época seguinte, quando voltou a jogar, as coisas não foram tão fáceis com Spalletti. «Antes do jogo contra o Hellas Verona, ele chamou-me ao escritório e disse que queria rever o velho Castan. E eu disse: “Mas eu preciso de jogar”. Contra o Verona, voltei a ser titular, mas fiz um dos meus piores jogos. Nos dias seguintes, ele chamou-me de volta ao escritório e mostrou-me uma foto do Frosinone. “Este é o teu nível, não podes jogar aqui. Não vais jogar mais comigo”, disse ele. O meu mundo desabou», completou.
«Durante anos não consegui aceitar que não voltaria a jogar ao meu nível»
Esse jogo contra o Verona, em 2015/16, foi o último dos seis que fez nessa época e também o último pela Roma, antes de empréstimos a Sampdoria (onde não jogou), Torino e Cagliari, até 2018, ano em que voltou em definitivo ao Brasil, jogando no Vasco até, em 2022, ter rumado ao Guarani, onde acabou a carreira e no país onde tudo começou.
«Nasci numa família pobre. E, na minha terra natal, o futebol é uma das únicas oportunidades para mudar de vida. O meu pai era jogador de futebol. Após o fim da carreira dele, enfrentámos uma situação financeira difícil. Ele trabalhava como taxista até tarde para trazer algum dinheiro para casa. Depois de dois acidentes graves de moto, decidi largar o futebol para trabalhar. Mas o destino tinha outros planos. No mesmo dia em que comuniquei a minha decisão ao meu pai, ligaram do Atlético Mineiro», referiu, lembrando os tempos da formação e onde começou a despontar.
Depois, subiu a sénior no Mineiro e, mais tarde, passou pelo Grémio Barueri e Corinthians, Pelo meio passou no Helsingborgs IF, da Suécia.
Hoje, e depois de tudo o que aconteceu, Castan mostra maior aceitação.
«Durante anos, não consegui. Não conseguia aceitar não conseguir voltar ao meu nível normal. Algo mudou depois de conversar com uma psicóloga. Ela me ajudou a entender que não fazia sentido estabelecer metas com base no antigo Castan. Provavelmente nunca conseguirei esquecer o meu passado, mas agora estou vivo. Um dia, ouvi um pastor dizer: "Um homem sem um sonho é um homem morto". Daquele momento em diante, a minha perspetiva mudou. Decidi seguir em frente. Só eu sei o que passei. Medo, dúvida, caos. Agora estou aqui no Brasil, tenho uma família, vejo os meus filhos crescer. Às vezes, eles perguntam-me sobre a minha história. Daqui a alguns meses, levá-los-ei a Roma. Naquelas ruas, contarei quem foi o pai deles. Um menino que superou o maior desafio da sua vida», concluiu.
